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A revolução do cabelo

“Desde sempre, ao longo da história das civilizações, a cabeleira tem representado  um elemento fundamental da personalidade humana, sustentáculo da beleza, do fascínio, da sedução e, às vezes, até mesmo do poder e da força... e, nos dias atuais, a mesma cabeleira  conserva ainda um profundo valor simbólico...” (brasil.calvizie.net)

Houve uma revolução no universo feminino concernente à sua estética, comportamento, valores e estilo de vida devido ao um elemento muito singular: o cabelo. Melhor dizendo, devido ao ato (ou processo, em alguns casos) de escovar ou alisar os cabelos. É claro que poucos perceberam ou comentaram sobre isso, mas o fato é que o ato de alisar os cabelos e a descoberta de que as mulheres agora, quase todas, poderiam ter cabelos lisos, provocou uma das maiores revoluções comportamentais de nosso século, superando até mesmo o tão proclamado movimento feminista. Como isso aconteceu? Vejamos:
Mariazinha era uma menina do interior da Bahia. Vivia subindo e descendo morros, correndo atrás de vaca, subindo em pé de siriguela, carregando lata d’água na cabeça, correndo descalça, atirando pedra em lagartixa, tomando banho em açude. Como se pode perceber, era uma pessoa de natureza simples, de comportamento não-industrializado, que ignorava aspectos do mundo padronizado, civilizado e de consumo e lazer alienados da sociedade moderna. Aos olhos de alguns preconceituosos, era semelhante ao um ser primitivo, não aculturado, uma espécie em extinção.
Ocorreu que num certo dia claro em que quase não se viam nuvens no céu (“nuvens no céu” como efeito poético, considerando-se que lá é o lugar onde geralmente residem), Patricinha, sua prima, foi visitá-la. Chegou à sua casa, bateu à porta. Quem veio atender foi sua mãe. Mariazinha não estava. Patricinha então resolveu esperar sentada no sofá. A essa altura, a menina da cidade já havia “fotografado” todo o ambiente da casa, ao qual ela atribuiu rapidamente todos os adjetivos pejorativos que até então pertenciam ao seu extenso vocabulário. Adjetivos pejorativos eram, aliás, as palavras que ela assimilava com mais rapidez nas aulas de gramática. Foi a partir dos adjetivos que Patricinha descobriu que as palavras tinham poder, principalmente quando sentia de volta os efeitos de suas manifestações verbais.
Mariazinha recebeu o recado, e veio correndo ladeira abaixo rumo ao encontro da prima que não conhecia. Os cabelos grandes e soltos, encaracolados, castanho-claros, balançavam ao vento em forma de ondas. Quando isso ocorria, era comum seu Antônio do bar, um velho de dois séculos de existência, deixar seu fumo cair e queimar a perna. As bolas de sinuca também nunca acertavam e um ou outro picolé caia no chão.
Chegando à casa, o inevitável: como diria Darcy Ribeiro, houve o que poderíamos chamar de “enfrentamento de mundos”. Os cabelos de Patricinha eram lisos, retos, uniformes, esticados, concentrados, numa harmonia perfeita com a lei da gravidade. Já os de Mariazinha, como já citados, eram livres, dados ao vento, ao sabor da natureza, do momento. Os olhos de ambas ficaram por alguns instantes assim, mirados uns nos cabelos da outra, como que tentando interpretar o sentido e direção de objeto deveras estranho. Patricinha, amante de adjetivos pejorativos de rótulos de xampu, tratou logo de classificar os cabelos da prima de “rebeldes, secos e quebradiços”, arrancando de Mariazinha uma respiração profunda, um rosto pálido e olhos esbugalhados. O fato é que no final das contas, Mariazinha foi passar uns dias na casa da prima na cidade, onde conheceria o secador de cabelos. Isto iria mudar para sempre sua vida. Nos meios sociais que passou a freqüentar, seus cabelos naturais não eram mais vistos com aquela admiração de antes. Patricinha, que era sempre sincera, logo chamou a prima no canto e disse que ou ela mudava para sempre aqueles cabelos que lhe conferiam a imagem concreta de bicho-do-mato ou não sairia mais com ela. Mariazinha, embora tenha ficado magoada por algum tempo com tão arrogante  declaração, cedeu às pressões da prima e passou também a usar cabelos que não contrariariam jamais a teoria de Newton. A partir daí, observou-se uma mudança de comportamento que nenhuma teoria de aprendizagem seria capaz jamais de prever. Maria, agora, não se chamava mais Maria e sim Mary. As amizades, os lugares que passou a freqüentar, a forma de se comunicar, os gostos e preferências, o estilo de andar e se vestir, os programas de televisão, as revistas, os gestos e olhares, a inclinação do nariz, tudo mudou. A cabeça havia mudado, agora nos dois sentidos e Mariazinha, aliás, Mary, se descobria uma menina evoluída, antenada a todas as modas, modismos e tendências.
A minha intenção, porém, nesse texto não é fazer julgamento de valor, seja de comportamento ou de xampu. O aspecto relevante - compreendamos - de toda esse processo de assimilação cultural está no fato de que toda, TODA a mudança comportamental observada teve origem absoluta no trabalho racional e sistemático de alisamento do cabelo, acredite quem quiser. Não foi um processo de influências paralelas e simultâneas do meio social que foram aos poucos moldando os hábitos e atitudes de Mary. Definitivamente, não. O cabelo foi, além do ponto de partida, a condição única, suficiente e indispensável para que todas as outras mudanças pudessem ocorrer.
Diante de tais evidências se conclui que, caso houvesse durante algum tempo uma privação dos instrumentos alisadores de cabelo, o mundo se encontraria sob a ameaça de um verdadeiro retrocesso cultural, fragilizando os alicerces da estética e dos valores de consumo modernos, cujo único contraponto positivo previsto seria o aumento de marcações de consultas em clínicas de apoio psicoterápico.
Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 27/08/2006
Reeditado em 30/08/2006
Código do texto: T226635
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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