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Coerente atitude

Gratidão à vida é dever pessoal e beneficia terceiros

      O médico brasileiro Antonio Maniglia foi alvo de notícia na imprensa pelo gesto incomum de sua iniciativa. Em março de 2003 ele doou o equivalente a US$ 85 mil à Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto-SP, pela qual se formou em 1962. O fato mereceu reportagem especial no caderno Sinapse do jornal Folha de São Paulo, edição de 29 de abril de 2003, em matéria assinada por Beth Calo e Guilherme Calderazzo. A reportagem cita, inclusive, que doações de ex-alunos às Universidades onde se formaram são freqüentes nos Estados Unidos, por exemplo, onde a ética religiosa protestante da sociedade americana estimula tais atitudes.

      No caso do médico brasileiro a doação ajudará a criar um laboratório de virologia, para estudar e combater a dengue. A decisão tem origem no reconhecimento de que ele deve sua oportunidade à escola pública e gratuita em que estudou, conforme texto da reportagem. O profissional, primeiro filho de um pedreiro e de uma dona-de-casa, declara: "Saí da pobreza e entrei na riqueza com a ajuda dos impostos pagos por todos". E recomenda: "Devemos devolver à sociedade o que ela nos deu".

      Ainda conforme a mesma reportagem, a atitude é rara, mas não é única. Também o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, foi favorecido por doação de US$ 4,3 milhões do ex-aluno e banqueiro Aloysio de Faria, que foi canalizada para o setor de gastroenterologia do referido hospital.

      A matéria publicada com o título Ex-alunos não aprenderam a doar, pela Folha, cita ainda outros dados interessantes:


comenta o caso da Associação dos Engenheiros Politécnicos, da Escola Politécnica, que possui 22 mil ex-alunos cadastrados que recebem boletos bancários de contribuição anual no valor de R$ 160,00; dos 15 mil boletos enviados, apenas 2 mil contribuem e que o grande padrinho da entidade é o Presidente do Conselho de Administração do Banco Itaú, Olavo Setúbal, formado em engenharia civil pela mesma escola e que doa dez salários mínimos por mês à instituição;
indica o caso do ex-aluno da Escola de Agronomia Luiz de Queiroz, da USP de Piracicaba-SP, Alexandre Prietzelwutz que deixou em testamento para a FEALQ - Fundação de Estudos Agronômicos Luiz de Queiroz - uma fazenda avaliada em US$ 16 milhões.

      Mas, tudo isto é exceção. A regra ainda reinante é não doar, conforme título da própria matéria. A mentalidade dominante é de que o Estado deve resolver as desafiadoras questões sociais. Trata-se de um entendimento precário do conceito de cidadania. Além da falta de confiança nas instituições, quem faz doações quer ver resultados e teme desonestidades.

      O tema interessa diretamente às instituições voltadas para o bem coletivo - de qualquer área social -já que normalmente possíveis doações são responsáveis inclusive pela manutenção mensal dos serviços prestados. Há que se reconhecer, todavia, que muitos vultos anônimos - em todo o país - tem sido autênticos benfeitores dessas salutares iniciativas que possibilitam o progresso e o necessário amparo social, nas iniciativas de cidadania. Porém, esse contingente de potenciais doadores pode ser ampliado com a compreensão da importância de doar de si mesmo em favor da coletividade, ainda que não necessariamente em recursos financeiros. E isto coloca em evidência o sentido imediato de uma palavra simples, de grande significado, mas muitas vezes esquecida: a gratidão.

      Ora, o sentimento de gratidão pelas bençãos inúmeras recebidas no decorrer de uma existência pode expressar-se sim por doações em favor de instituições que trabalham pelo bem coletivo, em qualquer área de atividade. O desprendimento de posses em favor de iniciativas coletivas é sempre seguida de méritos, pois demonstra preocupação ou cuidados com o bem-estar alheio. Seja uma simples mensalidade em favor de um orfanato, o oferecimento de uma cesta básica para uma família carente, a contribuição anual para uma pesquisa médica ou doações vultosas para hospitais e universidades. E não é a quantia do que se dá, mas o sentimento de desprendimento que predomina nessas iniciativas. A quantia em si é questão secundária, porque advém do entendimento de célebres passagens como a do óbulo da viúva, por exemplo.

      Para concluir, consideremos que Dois Córregos e Mineiros do Tietê possuem respeitáveis instituições onde uma pequena doação pode operar verdadeiros "milagres" na dedicação de seus diretores...
 
 

Orson
Enviado por Orson em 14/09/2006
Código do texto: T240077
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Sobre o autor
Orson
Matão - São Paulo - Brasil, 56 anos
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