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Além dos Monossílabos

Dia do trabalho. Um sábado, dia de trabalho normal - para a grande maioria, claro, se não fosse feriado.

Queria escrever, ou melhor, estava a ponto de escrever sobre a importância da leitura, sobre a íntima relação entre domínio da Língua e clareza de pensamento, quando me faltou energia. Não a minha; no computador, digo: na tomada. Aqui em casa agora, por uma dessas reformas eternas, os circuitos estão todos revirados. Estamos “arreglando”... um dia se resolve. Disjuntores com voltagem maior, circuitos separados. Sim, tenho alguma noção do que seja isto, mas não era pra falar de instalações elétricas que comecei este texto, e sim sobre leituras.

Espanta-me que ainda hoje eu sinta necessidade de propagar este discurso chato, velho pra pipoco, como queira o leitor. Se quem muito se informa não está livre de ser manipulado, dirá quem não lê, não está nem aí. Ah, mas leitura não tem nada com isso! Será mesmo? Num pais com maioria de instruídos, ativos cidadãos, pode até ser que a posição de alguns apolíticos pouco influa, mas em países com maioria esmagadora de “manobráveis”, a situação é bem outra e são outras as questões.

O que as massas gostam não tem que ser necessariamente ruim, de baixa qualidade, mas quando se analisa, curioso resultado: geralmente é. Para fugir de padrões de massas só mesmo lendo, se informando, aprendendo a questionar, pensar e decidir: ações nada fáceis, ainda que inatas.

Outro dia, assisti à apresentação de um estudo lingüístico mostrando que o uso de determinados padrões no discurso de ensino, como: definição (X = Y), exemplificação (X é um tipo de Y), metonímia (X é parte de Y) ,e metáfora (X é como Y), sugerem o quanto clareza de pensamento e raciocínio está ligado a aprender a jogar com a Língua. E isto poder ser usado para avaliar alunos e professores. Sim, os descobridores da Retórica, com as figuras de linguagem, já sabiam disto; sei. Saber usar bem uma Língua, geralmente a materna, ler e conseguir interpretar jogos alheios, ou criar os próprios, é fundamental para o desenvolvimento individual e coletivo.

Portanto, insisto: aperfeiçoe sua língua – não falo aqui de beijos escandalosos ou qualquer prática sexual. Leia, leia muito, o mais diverso possível; desligue a TV, busque vídeos educativos ou bons documentários. Instrua-se o quanto puder, pois isto é uma das poucas coisas que jamais poderão lhe tirar e, acredite-me, instrução é algo que pode, comprovadamente, transformar o mundo – falo de instrução geral e não de especialistas burros.

E quando estiver transbordando de conhecimento, não seja egoísta: compartilhe. Assim dará lugar a novos. E compartilhe de forma inteligente. Quem escreve e quer ser lido não deveria desestimular os parcos leitores com mero desfile de conhecimentos. Num conto, por exemplo, ou outro texto curto, penso ser mais produtivo trocar um “olhe só o quanto eu sei” por um “talvez lhe interessaria saber disto”, citar e jogar a peteca adiante.

Dicas para começar a gostar da leitura? Comece pelo que gosta. Para não correr o risco de ficar bitolado num único gênero ou estilo, de vez em quando leia coisas que não têm nada a ver com você, algo totalmente novo. Se não se sente atraído pelos clássicos, por achar a linguagem difícil, arcaica, comece lendo autores que escreveram sobre eles, numa linguagem mais acessível.

No entanto, um segredo: uma vez lida a fonte original, você descobre que coisas que muitos vêm dizendo ao longo dos anos é mera repetição. Por isto conheço gente que defende a tese do “fim da história”: vivemos numa época em que não há mais nada novo para inventar. Tudo o que tinha pra ser dito já o fez alguém no passado. Acho essa tese radical, e não vou parar pra discutí-la aqui.

Se você nunca leu os clássicos, exatamente para ser original, corre o risco de, sem saber, estar "inovando" o que já foi dito e feito. Ou seja, neste caso, melhor é conhecer a história, pelo menos ter uma noção.

À medida em que for adquirindo gosto pela leitura, quando ela lhe for mostrando seu lado mais "sexy", talvez se surpreenda ao querer, sempre que possível, ler os originais. Creia-me: poupa tempo.

E por fim, se não gosta mesmo de ler, busque filmes, vídeos. A única coisa que não vale é deixar de se informar, perder a chance de evoluir e de se alijar da geração dos monossílabos, ao que parece, fenômeno mundial.



Nota: escrevi este texto num 1° de maio.

Boas dicas de leitura você encontra na escrivaninha de Gislaine Becker, aqui no RL

http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2075671
http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2126665
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 29/07/2010
Código do texto: T2405847
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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