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A terra anda ressequida e agressiva






O Sol fica escuro porque uma nuvem de fumo teima em lhe fazer sombra. Mesmo que o dia ainda esteja a meio, as pessoas não sabem se o mesmo é depois do inicio se do fim.
Nem a própria Terra já sabe a quantas anda. Os passarinhos amedrontam-se pelo silêncio das folhas das árvores. 0 Tempo parou, ou mudou. Ninguém sabe.
As parras das videiras murcham e os cachos estão mirrados. Aqui e ali, as poucas oliveiras transformam-se de verde para cinzento. A terra, de seca tão estar, começa a gretar, como gretadas continuam as mãos de quem a amanha. O poço que transbordava água deixa um desagradável cheiro. Tão mal cheiroso, que até os pássaros que costumavam poisar nas suas bordas foge como se ali estivesse o diabo.
A velha barraca, feita de canas e tapada com telha-vã, segura por quatro fueiros, que servia para a tosquia dos carneiros já não se segura em pé. Toda ela se vai desfazendo. Basta um pouco de Vento e está num fanico.
Perdido no meio do seco, um escanzelado cão, raquítico e remeloso, cercado de carraças, olha para o horizonte como procurando um azimute. Em cima, transporta sem saber, ou finge não saber, uma amostra de arvela. Traz o bico aberto como implorando ao vizinho de baixo, o que os dois procuram. Calcorreados alguns metros, caiem os dois, sem saber o porquê. Bem perto paira o sinal da escuridão. Um coelho e um pombo estão em fanicos. A terra mãe recusou-lhes o sustento da vida. Poucos dias passarão para que apenas reste o esqueleto. Já não há uma malga de pão.
Os dois viajantes, acabados de chegar, não têm tempo de se aperceber que acabaram de entrar na trilogia final da vida. Ali tudo acaba, tudo deixa de ter vida. Caminhando para a terra mal cheirosa, rasteja uma sardanisca quem nem com o rabo pode. Aos poucos vão-se juntando onde tudo começou.
Um pouco mais longe, uma vala, em tempos, chamada de real, está amargurada, porque deixou de alimentar quem nela vivia ou dela dependia. Onde havia água cristalina, passou a haver um verde seco e pegajoso. Mal cheiroso tornou-se o que recentemente bem cheirava.
 Os salgueiros que junto dela faziam sombra e marachas começam a estar raquíticos de tão secos estarem. A sua casca cai como o gelo quando se derrete com o calor.
A curta distância, dando a impressão que o escuro deixava ver mais longe, nas encostas da serra, os canaviais, perdidos no espaço, mas visíveis de quem precisa das suas canas para arranjar ou espetar as velhas sardinhas sardentas e queimadas pelo tempo, arqueiam-se com o bafo quente e morto que paira no ar para ao mesmo tempo, estarem desfalecidos. Das sinuosidades, sem força, pendem para um lado que nem eles próprios sabem, tal é, o que está escondido ou faz esconder o Sol.
O Vento parou para deixar de varrer com a fresquidão. Toda a verdura murchou para fazer companhia àquela que morreu de tão desnaturada estar.
Acolá, terras cheias de milho. No meio do milheiral e dos estalidos das folhas, por tão secas estarem, ouvem-se gritos alucinantes, vindo não se sabe de onde.
Lá, bem no meio das maçarocas, dois pequenos homens falam sobre o que está a acontecer «Nem a terra já chora. Que vai ser de nós e dos nossos, se tudo assim continuar?»
Enquanto um fala, outro olha para o Céu. «Como é possível o Sol ficar escuro por causa das nuvens vinda não sei donde?»
A conversa pára, olhando os dois – por debaixo da pala do boné que de tão gasta estar, sebenta se encontra – para algures, que nem sequer sabem para onde estão a olhar. No vazio das dúvidas assustam-se com o barulho do silêncio.
«Vamos é embora daqui, que alguma coisa vai acontecer!» Aconteceu mesmo. Do outro lado da extrema, uma nuvem baforada desceu demais para apoquentar tudo e todos. Como se de um raio se tratasse, num fósforo, a manada de carneiros derruiu para o chão, que nem uns desalmados. «C’um raio, que lhes aconteceu, meu Deus? Tão bem estavam e num raio d’um figo? ….”
Uma praga maldita por ali passou. De tal maneira endiabrada, que daqui, talvez a razão da quietude daquilo que não se ouvia. Como uma tempestade no deserto, vinda de não se sabe de onde para tudo na frente levar.
Com a aflição da seca e de tanto procurarem o que no afluente devia correr, nunca se lembraram que o gado a alguns dias não bebia água. «Até aquela maldita palha vinda do lado de lá de Espanha, parece que seca a boca aos bichos».
A engrenagem da maldita máquina que fazia o transporte do líquido da «outra parte» tinha estoirado por ter estado a trabalhar em seco. «Seco ficamos agora nós como secos já andam os nossos filhos».
«Raios partam esta vida que nem dá para vivermos com o pouco que a terra nos dá. Que vai ser de nós com esta seca e qual o futuro dos nossos cachopos? Maldita a hora em que me entreguei aos cuidados da amanha. Tivesse perdido o tino».
Bem pregava o queixoso. «Que disseste malvado, que de tão distraído estar a olhar para as nuvens, surdo fiquei!» Que lhe responder da sua pobre sina?
 «Não disse nada companheiro. Apenas disse «raio de sorte a nossa!» para acrescentar «malfadada a hora que a minha mãe me pariu no meio da charneca. Se não o tivesse feito, talvez nunca soubesse o cheiro da terra. Agora sem a mesma não sei viver. Os tempos mudaram. Dantes era tratada por nós, agora é ela que nos trata».


 
António Centeio
Enviado por António Centeio em 16/09/2006
Código do texto: T241801
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Sobre o autor
António Centeio
Portugal, 65 anos
14 textos (278 leituras)
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António Centeio