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As Noites de Inverno


Se as pessoas não são capazes de ter a força suficiente para aguentar a passagem da tempestade como é que poderão valorizar as mudanças interiores que tantas vezes são necessárias para o que desejam tenha outro significado?
Foi isto que sempre faltou a Mariana, fazendo com que a sua vida como os seus sonhos, quase nunca se concretizassem.
Bem cedo abriu as portas a toda a espécie de contrariedades que só acontecem a quem não sabe que a vida, como as ondas do mar, tanto sobe como desce.
Passou a ter como companhia os dissabores do infortúnio para exclamar constantemente que a “vida nada de bom” lhe tem dado. O caminho da sua desalinhada e pobre personalidade como do ambiente em que foi criada contribuiu para que quase tudo viesse ter com ela.
Quando já se encontrava à muito no «fundo da vala» foi então que finalmente viu o brilho de uma estrela, que no Céu, iluminava quem mais parecia um farrapo que um ser humano.
Sentiu no seu interior que  «lá de cima» qualquer coisa lhe  iria acontecer – para o bem ou para o mal.
Para quem tem como companheira habitual a aspereza da vida, é difícil acreditar nos sinais que muitas vezes se escondem por detrás de uma estrela.
A sua voz interior disse-lhe  “o que sentiste  era algo que nem todos podem  ver ou sentir”. Foi quando se lembrou que tinha sido uma estrela que levou os reis  magos a caminho de Belém.
A sua alma sorriu enquanto o seu corpo se arrepiava. Pela primeira vez na sua vida, cheia de mazelas, sentiu e tinha tido a noção de ouvir  algo que até à data nunca tinha julgado ser possível. A não ser que...“fosse mais uma partida do destino”.
Mas, se até sentiu um arrepio, porque não acreditar naquilo que desconhecia  ou funcionava? Foi quando se lembrou que antes das tempestades, o “Vento  avisa para se recolher”.
Cinquenta anos. Como companhia, o contrário daquilo que sempre  sonhou. Ter uma aranha ou um ratazão como companhia para ela  era coisas mais que suficientes para voltar as costas de vergonha a quem de igual julgava ser.
Nas manhãs frias em que até o Sol  parecia nada querer com ela ou de tão pouco lhe fazer companhia, sentava-se em cima da verdura que lhe servia de lençol para olhar para o vale que na sua frente convivia de espanto para com a natureza. Esta combinação era o contraste do  que sentia dentro  nas suas profundezas de ser humano que era, mexendo na sua dor e recordando-lhe as agruras da vida, as quais, eram as suas melhores companhias.  Quando a bola de fogo descia, então a sua alma falava-lhe para lhe dizer que estava triste e que devia plantar frutos na terra para que  conseguisse mudar as coisas.
Muitas vezes, quando olhava para a estrada, que ficava tão distante, mas ao mesmo tempo tão perto, costumava ver  as pessoas vestidas de negro ou de cinzento acompanhando o carro que no seu interior levava algo rodeado de flores.
Nestes momentos olhava singelamente  para o   horizonte e pensava:  “às  vezes o mundo troca as voltas às pessoas” ou então  as “pessoas não sabem trocar as voltas ao mundo”.
Até os passarinhos olhavam para ela e viam os seus olhos turvos  e a fronte enrugada com marcas profundas de sofrimento para  pensarem ao mesmo tempo, que a continuar assim, um dia a sua alma iria depenar lá para longe, para depois ficarem  sem a companhia de quem já sabia e conhecia o significado dos seus chilreares.
Às vezes temos as coisas na nossa frente e não as vemos. São nestes momentos de descuido que a vida nos passa ao lado. Se as vermos, então encontramos o nosso caminho que nos levará à busca da razão de viver. É este o sublime momento de sabermos suportar a passagem da tempestade.
Mariana sabia que o «brilho» queria  dizer-lhe qualquer coisa.
Que quereria o brilho dizer-lhe? “Que tormento me espera depois de viver constantemente no meio da turbulência?” –perguntava a si própria.



António Centeio
Enviado por António Centeio em 20/09/2006
Código do texto: T244736
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Sobre o autor
António Centeio
Portugal, 65 anos
14 textos (278 leituras)
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António Centeio