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Daniel, amigo dos pássaros

   

Daniel é um miúdo desinquieto que mais parece uma enguia. Por mais que ralhem pior faz. Tem meia dúzia e poucos anos mas já sabe mais que alguns adultos. Nos dias longos, arma-se de espadeiro, e vai daí, com um bocado de pau a imitar uma cruz, parece um espadachim na baixeza do mar. Meteu na cabeça que as ondas têm medo dele, que em vez de lutar com espécies de gente como ele guerreia com o mar. Não deixa de ser mau rapaz. Tem apenas o feitio dele.
A mãe tem um pequeno bar à beira-mar onde vende um pouco de tudo e mais alguma coisa, porque o marido em devido tempo, marimbou-se para ela e para o filho por causa de uma descoberta que teve com uma matrafona qualquer que lhe soube dar a volta, pouco se importando dos estragos que deixou para trás como de quem ia sofrer com as consequências.
Então não teve outro remédio que pedir licença ao cabo-de-mar que lhe permitisse abrir a barraquita para sustento do seu filho esguio, pedindo em troca a quem manda nas bordas do mar, que tapasse os olhos ao que os homens da capital deliberam, de maneira a que não tivesse de ter um ou dois miúdos crescidos para fazerem de nadador-salvador caso contrário, os trocos ganhos ao fim do dia levavam um corte que mal daria para os ganhos da casa e sustento do filho, para além de ter que pagar os  estragos que este entendia fazer quando os veraneantes andavam de férias.
As boladas que o entorpecido mandava de tempos a tempos para cima dos que descansavam, depois de uns meses a trabalhar, acabava sempre nalguma geladeira partida ou pratos, que tinham no seu interior papas para os bebés, voltados de pernas para o ar.
Tudo acabava num valente ralhete de quem era dono do atingido ou em meia dúzia de tabefes, quando não dava origem a algumas correrias pela areia, de maneira que o adulto desse pela grossa a quem fez os estragos.
Como quem não quer a coisa, ou após reconhecido o descuido de algum banhista, a espaços de tempo, lá surripiava um telemóvel, que a coisa até têm uns jogitos, e sempre, lhe dava a graça de falar com desconhecidos. Se o ouvinte lhe perguntasse quem era ou como estava em posse de tal objecto a resposta algarviada era sempre um esmerado conselho «Tem alguma coisa a ver com isso?».
Se farto de falar, ou de lhe cortarem o pio, o mesmo embarcava logo, sem destino marcado, nas águas do oceano.
Fora disto, Daniel é um pacato cachopo que nos dias mais escuros fica sempre nostálgico, fazendo grandes caminhadas junto ao rebentar das ondas.
 Tantas, que às vezes atravessa o areal de uma ponta à outra. Em vez de olhar no horizontal olha para a areia, dando pontapés, como que, de debaixo desta, viesse algum telemóvel desaparecido ou amêijoa.
 Com o boné metido na cabeça, de pala para trás, sempre que ouve o barulho de alguma gaivota, branca ou cinzenta, abranda o passo para apanhar a mais desprevenida. Tentativas levadas pelo Vento mas que fazem com que nunca desmereça. Um dia satisfez a vontade. Quando repetia as passadas e os hábitos, houve uma que o esperava, nem queria acreditar.
A meia esguelha, o pássaro olhava-o de frente, levando que perguntasse a si próprio, se era verdade o que estava vendo. O raio do bicho, nem uma nem duas. Apenas tinha o corpo meio inclinado como um barco quando assente na calha. Apanhou-a antes que levantasse asa.
Foi quando viu que a pobre ave tinha uma asa partida. Levou-a logo para o «Bar do Cachucho» para mostrar à mãe e lhe pedir, que a dita passasse a fazer parte do património. Sempre chamava mais clientes e curiosos. «As crianças vão querer vê-la, mãe! Sempre compram mais uns geladitos e os trocos aumentam aí na gaveta do cascalho».
«Nem penses meu marafado duma figa! És tonto ou quê? Os clientes até iam pensar que a barraca é algum galinheiro. Põe-te a andar daqui para fora com a porcaria da gaivota. Não a quero ver aqui, nem a ti».
Durante dois dias, a pobre alma percorreu a praia e arredores em busca do desalmado  filho que não lhe dava sossego nenhum, pregando-lhe agora uma partida, já que nem lhe disse para onde foi como das razões da ausência.
Não bastava já o «desmiolado do fulano lisboeta ter aumentado os impostos, que arranjou a maneira dos clientes, em vez de comprarem alguma coisa, só se queixarem do aumento e da crise» quanto mais agora lhe desaparecer o miúdo.
Quando se apresentou na esquadra contando o sucedido, os policias em vez de a animarem deram todos numa risota e galhofada que a pobre mulher já não sabia se «estava tonta ou se a estavam a fazer de maluca».
Todos conheciam o raio do rapaz, que de vez em quando teimava em fazer partidas a quem descansava, obrigando os agentes a fazer com que os visitantes desistissem da queixa, senão era uma trabalheira preencher o auto, visto que o bedelho era menor e daqui, os incómodos que daria como os transtornos que causaria aos adultos. Tudo lá se resolvia amigavelmente, sem ninguém ser prejudicado, para acabar tudo em família, depois de aplicados alguns açoites no moço.
Mas quando a «mulher da tasca» como lhe chamam, os ameaçou que ia imediatamente fazer queixa aos superiores, lá se propuseram fazer uma busca ao fugitivo. Levaram mais três dias a encontrá-lo. Estava encaixado dentro de uma gruta, a caminho do início do Barlavento.
 Dormia como uma pedra, tendo a seu lado a gaivota, que estava «tesa como um carapau» assim disse o mais graduado, tendo a mãe pedido desculpa de tais transtornos, mas o «corno do cachopo não ganha juízo de maneira alguma».


António Centeio
Enviado por António Centeio em 22/09/2006
Reeditado em 22/09/2006
Código do texto: T246340
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Sobre o autor
António Centeio
Portugal, 65 anos
14 textos (280 leituras)
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António Centeio