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Última Chance

...se em alguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quadruplicado. (Lucas 19:8)

Ephram e Pródigo, receberam de seus pais, os mais corretos e lícitos meios para lhes proporcionar, além da mais excelente educação, um notável e digno preparo para a vida. A idéia era torná-los em honrados homens, nos quais a sociedade pudesse enxergar, o verdadeiro modelo de cidadania.

Ephram, honrava a família. Acostumara-se a receber merecidos elogios, por tantas boas e importantes conquistas, já até consideradas normais. Era um menino prodígio. Além de ser dotado de qualidades morais e intelectuais, fizera-se um importante empresário. Rapaz muito modesto, gostava de falar de sua dificuldade de aprender, que somente era superada, por um exagerado esforço que se achava contido em seu próprio ser. Uma pessoa ética...

Pródigo, um garotinho bastante aloprado. Cresceu dando problema. De cola em cola – sem coca – conseguiu realizar muitos cursos, chegando à graduação. De marcante irreverência e desprovido de responsabilidade, desperdiçava qualquer importância ou atribuição a ele confiada. Seu princípio era: melhor do que uma mulher só duas...Todo o mundo é idiota, a começar por Dostoiewski e Kafka, autores dos livros “O Idiota” e “A Metamorfose”, respectivamente. Considerava ambos os escritores abilolados. Para otário e trouxa, oferecia seu freqüente e costumeiro desprezo...
 
Certo dia, o professor Prudente, precisou deixar a sala de aula por alguns instantes. Preocupado com a classe que era muito levada, teve uma idéia. Seu olho esquerdo era composto de uma prótese. Tirou-o e colocou sobre a mesa dizendo à criançada: eu vou sair, mas meu olho estará tomando conta de vocês. Não adianta bancar o espertinho porque quando eu voltar, ficarei sabendo de tudo.

Vinte minutos depois, o professor, retornou e teve uma péssima surpresa: a bagunça feita pela turma, superava todas as anteriores. Olhou para a mesa procurando seu olho (de vidro), deparando-se apenas com um chapéu. Foi coisa do Pródigo. Cobrindo o olho com um boné, não seria possível saber o que estariam fazendo. Esta foi uma das muitas histórias desagradáveis, que empoeirava a nefanda biografia deste travesso garoto.

Vez, você herdou uma empresa da família. A firma foi sustentada ao longo dos anos com muito sacrifício. A marca, o produto, os serviços e os clientes, atravessaram os anos, quiçá décadas, para obter o admirável resultado que olha para todos. Não foi sorte e sim, disposição, constante aprimoramento, zelo e amor ao trabalho, os elementos forjadores da organização. A descontinuidade do processo, facilmente espraiará mais uma bem sucedida corporação pelo ralo. Evite isso, aplicando-se como sua família. Aja de preferência, ainda com mais prazer, esmerando-se com outras ações e, seguramente, estará propenso a transpor desafios maiores e mais ousados, embraçando patamares, antes considerados impossíveis.

Sonegando impostos, burlando o fisco e servindo-se de toda espécie de maracutaias, -- não sei se financiou algum partido – Pródigo destruiu tudo o que herdou do pai e estava evaporando a empresa de seu irmão, Ephram.

-- Ephram! Ephram! Ephram! Esse é o cara! – Gritava do outro lado da rua, com uma incontida e jamais vista alegria, seu irmão, Pródigo.

-- Presta atenção no que eu vou falar, porque não haverá “replay”. O Contrato Novo já sem o seu nome estará pronto amanhã e me verei livre de você para sempre. Detesto trambiques e irresponsabilidade. Não permitirei que se comporte comigo, como fez com o papai, usando incorretamente seu honrado dinheiro. Se for falta de adeus, tchau, tchau.

--- Amado “brother”, eu trouxe um monte de dinheiro para você. Tem todo o direito de não me querer mais como sócio. O que venho pedir, meu caro, caríssimo irmão, é uma Última Chance. Pelo amor de Jesus, permita-me provar que eu mudei.

-- Vou usar sua própria linguagem: só otário, idiota ou acéfalo, acredita em alguém de tão grande vileza, a não ser que uma metamorfose, daquela de Franz Kafka, tenha transformado você em uma barata. Aliás, na minha opinião, um invertebrado ganha de você disparado, em credibilidade. – desabafou Ephram.

-- É, mané? Pois escute uma coisa que eu nunca te contei:

-- Antes de falecer, papai mandou me chamar e disse:

--- Meu filho, você contribuiu para dilapidar parte do patrimônio que construí através de muita dedicação e luta. Já estou velho e é praticamente chegado o dia de eu deixar esta vida. A parte que lhe couber no testamento, você vai torrar como sempre fez. Quero lhe fazer um último pedido. Pelo menos uma única vez, tenha coragem de honrar sua palavra. Prometa que vai atender a esta única petição, de um pai que jamais deixou de lhe amar. Ouça, meu muito amado e tão querido filho: depois de você liquidar com todos os bens do seu pai, quero que coloque seu pescoço naquela forca, para que nunca esqueça do que eu falei.

--- Papai, eu juro que se gastar todos os seus bens, irei até aquela forca que você preparou e me permitirei estrangular.

Passados alguns meses, papai partiu para a outra dimensão. Logo, logo, detonei com tudo, defraudando a família e arruinando suas finanças, como dissera nosso pai antes da viagem eterna.

Hoje pela manhã, decidido,  subi para a forca e vi escrito na trave onde estava o laço:

-- Nunca esqueça os conselhos de seu pai!

-- Chegando ao patíbulo (lugar da forca), em extremo desespero, emiti um grande e enlouquecedor grito:

-- Ah, se eu tivesse uma Última Chance!

--- Coloquei a cabeça na corda. A árvore tinha o caule oco e partiu-se. Despedaçando-se, mostrava uma grande soma de euros, ações da Rale, Títulos Cbond, comprovante de depósitos em bancos estrangeiros. Psiu! Fala pra ninguém não. Oh! Dessa vez tomei juízo, não espalha, ta?

-- Cara! Agora tu vais ver o que é ajoujar (agregar) valor. Vamos ajoujar substanciais recursos financeiros à nossa empresa.  Posso ter a honra de continuar como teu sócio?

-- Agora sei que posso confiar em você. – Disse Ephram, fortemente abraçado ao seu irmão. E continuou: -- Hoje faremos duas festas em sua homenagem: uma na empresa e outra lá na mamãe. Quero seu autógrafo, nesta camisa molhada de lágrimas, seu chorão. Ela será testemunha de nosso histórico acordo.Tinha mais alguma coisa dentro do tronco da árvore?

-- Sim, meu bom irmão. – disse Pródigo, em êxtase. Sentia em seu próprio interior, a transformação de sua mente, a realização do sonho de seu pai. Aproveitou a leveza da alma e enxugou as lágrimas, suspirando agradecido. E, com um sorriso de felicidade, concluiu:

-- Em uma folha de papel sulfite, papai deixou escrito:

 Aqui está sua Última Chance!
Gilberto Landim
Enviado por Gilberto Landim em 25/09/2006
Código do texto: T248676
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Sobre o autor
Gilberto Landim
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 68 anos
527 textos (25519 leituras)
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Gilberto Landim