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Xilocaína

O deboche e a ironia são as armas do cretino (Rui Barbosa)

Xilocaína é um anestésico local bastante eficaz. Uma vez entrou uma farpa em meu dedo e por ter deixado a área muito dolorida, ia precisar fazer uma cirurgia para removê-la. Lembrei da xilocaína, apliquei-a e, já sem dor, pude com uma pinça retirar o corpo estranho do indicador, que me agradece até hoje.  Normalmente, o dentista, antes de aplicar a anestesia, faz uma massagem na gengiva, evitando o paciente sentir a picada da agulha.

 --Ué! Agora virou médico? Você pode questionar. Aguarde só um pouquinho que no final vai entender.

--Landim, eu tenho uma equipe na informática que não me dá qualquer trabalho e nem satisfação. Eu não faço idéia de como as coisas funcionam lá. Você vai gostar demais dos funcionários; eles são simpáticos e muito agradáveis. Disse-me a maior autoridade da mega-empresa.

--Então, Professor, o senhor está querendo um estudo para saber se é possível otimizar o trabalho, ou pretende que dados sejam levantados para realizar novos investimentos?

Lídimo acabara de assumir a administração do complexo empresarial e sem me surpreender respondeu: --Faça um rastreamento englobando tudo isso. Vamos conhecer Umá?
 
Umá, o engenheiro de sistemas, gerente de informática, era por demais envolvente. Quando fui apresentado a ele, fez exagerada questão de me levar a todos os setores enchendo-me de luminescência, declarando: Landim caiu do céu, ele vai resolver os problemas.

Umá era uma pessoa vidrada no escárnio. Seu princípio era: “idiotizei-me e você me amou”. Chegou mesmo a compor um pagode mais ou menos assim:
 
Eu sou Umá

Minha aparência de vassalo,
exibe o doce aspecto do cavalo!
Idiotizo-me quando falo,
E sou amado de estalo!

Para testar meus conhecimentos Umá fez sorrindo sua primeira pergunta maldosa:o que é uma “rede estrela“? Como eu também gosto de sorrir, respondi como um apresentador de televisão: é uma topologia onde os satélites (terminais) são atraídos pelo sol (servidor), girando em torno dele, sem jamais parar de funcionar.

As pessoas eram fortes em comunicação, sendo cada uma extremamente bem relacionada com algum diretor ou gerente. Os demais colegas eram íntimos e tudo era embarrigado com muita habilidade.

Em meus encontros com o pessoal de informática, eu era sempre aconselhado a deixar as coisas como estavam. Cada empregado preocupava-se em dizer para mim de quem era amigo, sugerindo que eu fosse infiel na difícil tarefa que me coubera realizar. Ninguém concordou com qualquer mudança de atitude. Todos faltavam, faziam trabalhos particulares, sendo mesmo indiferentes aos interesses da corporação.

Durante 90 dias fiz várias reuniões com as chefias de cada setor e o produto final foi o “Relatório dos 3 Ps”, assim composto:

PDI   -  Plano Diretor de Informática
PRF  -  Plano de Reaproveitamento de Funcionários
PDE  -  Plano de Defenestração de Empregados

--Gil! Falou Lídimo emocionado: Esse “PDI” está muito, muitíssimo melhor do que eu desejava, vou aprová-lo integralmente. Agora esse PDE eu nunca ouvi falar, é para mandar todo o mundo embora?
-- Li, por que você não usa o PRF? Se você optar pelo PDE,  as mudanças a serem feitas serão tão dolorosas, que você vai precisar de muita xilocaína.
Gilberto Landim
Enviado por Gilberto Landim em 29/09/2006
Código do texto: T251984
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Sobre o autor
Gilberto Landim
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 68 anos
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