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REVISTA ÍNTIMA NOS PRESÍDIOS: A VIOLÊNCIA ESTATAL SOB O PRETEXTO DO ZELO, CORREIÇÃO E SEGURANÇA!

O procedimento de revista íntima é um recurso dos mais abusivos e repugnantes que há mais de um século vem sendo utilizado para julgar a idoneidade de pessoas comuns cujo familiar se encontra preso e, por esta razão, precisa adentrar com certa frequência em uma Unidade Prisional.

Para o cidadão comum compreender, noventa por cento das prisões  são destinadas a custodiar homens sentenciados ou não, em regime fechado, portanto, quem lá está tem poucos meios de contato externo, sendo o mais afetivo deles, a visitação de seus familiares. A  visita desses homens será, portanto, suas mães, companheiras e seus filhos, geralmente menores de idade. Na maior parte das unidades prisionais, são permitidos apenas autorizações para acesso aos familiares de primeiro grau: ascendentes - pais e avós, descendentes -filhos e netos, companheiras e irmãos.

Estas mães e avós que visitam são senhoras com idade entre quarenta a oitenta anos, de rostos e expressões sofridas e banhadas interiormente pelo sentimento de que, em algum momento, falharam na criação desses filhos, e, que, indubitavelmente, merecem passar também por algum tipo de "castigo" divino pelo descaso com os rebentos.

Há um entendimento tácito nas penitenciárias de que a visita abranda os efeitos do isolamento provocados pelo cárcere muito longo, pois nesse momento, o preso tem sua atenção voltada aos problemas relativo ao convívio familiar, criação dos filhos, etc.. Reaquecendo esses laços surgiria nele o desejo de retornar à sociedade, redimindo-se diante dela e do grupo social do qual faz parte.

Se as prisões, ainda na Era Digital, guardam o obscurantismo do tempo das masmorras em sua arquitetura, imaginem como é o ambiente onde o procedimento da revista acontece?

Geralmente, são espaços exíguos, sem ventilação, fétidos, nos quais se enfileiram mulheres em idade fértil, idosas, grávidas, crianças, todos aqueles que estão desejosos em rever seus entes queridos. O regulamento é único: Se a agente feminina não conseguir realizar a revista de forma exemplar - abertura "voluntária" da vagina e do ânus com a ajuda das mãos da visitante e com as pernas abertas e  separadas, de costas para a executora de forma a se verificar os canais internos esvaziados, limpos, sem a mínima secreção, líquido ou resíduo próprio do local descrito, a permissão de acesso à visita é negada e o familiar volta para casa.

À revistada é pedido que faça força, tussa, contraia e relaxe os genitais, repetindo esta operação até que se tenha a certeza de que não houve tentativa de crime.  Ao menor sinal de desconforto ou contrariedade é avisado que sem a sua colaboração ao procedimento não haverá a possibilidade da visita.

Mulheres e crianças são inspecionadas por detectores de metal portátil associado a lanternas, após despirem-se. A cada  visita, em  média, a visitante é inspecionada por duas agentes femininas diferentes, pessoas que jamais as viram, mas, que imbuídas da função pública, impõem que fiquem inteiramente sem roupa, revistam seus bolsos, dizem de que forma aquela pessoa deverá se vestir, sempre acompanhada de uma "piadinha para descontrair o ambiente".

Essas agentes testemunharão a tragédia particular dessa mulher que, como elas são companheiras, mães, avós ou filhas até o último dia do cumprimento da pena do familiar/recluso naquela instituição carcerária.

A tormenta se intensifica durante a madrugada por volta das quatro, cinco horas da manhã quando essas mulheres carregadas de sacolas,  se deslocam de casa até à portaria central do complexo para aguardar a distribuição da senha, afinal, quanto mais próximo da hora de entrega das senhas se chega, menor o tempo que passarão com seus filhos, maridos e pais. O pesadelo começa mesmo lá pelas duas, três horas da manhã quando acordam para preparar as merendas que trazem para amenizar a vida deles e fazer-lhes um carinho na alma.

É nessa hora que ...
(continua)
Arsenia Rodrigues
Enviado por Arsenia Rodrigues em 10/01/2011
Reeditado em 10/01/2011
Código do texto: T2721224
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Sobre a autora
Arsenia Rodrigues
Salvador - Bahia - Brasil
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