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CARNAVAL – TRADIÇÕES EM TRÁS-OS-MONTES, PORTUGAL




«Não há Carnaval sem máscaras, mas de Norte a Sul do país não há máscaras como estas, de Trás-os-Montes. Chamam-lhe caretos, fulipeiros, farpares ou o que quiserem, mas estas máscaras são únicas.»
               (Maria de Lurdes Modesto, Editorial Verbo)


Em Trás-os-Montes, na aldeia de Podence: vive-se um Carnaval diferente...

Em Portugal ainda resistem algumas celebrações de Carnaval que mantêm a sua singularidade, de acordo com as tradições nacionais. Contam-se, pelo menos, três: Lazarim (região da Beira Alta), Vinhais e, principalmente, em Podence (ambas na região de Trás-os-Montes).

Em Podence, uma pequena aldeia situada a poucos quilômetros da cidade de Macedo de Cavaleiros, há uma forma diferente de comemorar o Carnaval: os dias grandes da festa são o domingo gordo e terça-feira de Carnaval e os Caretos só param para matar a sede ou para combinarem mais uma investida sobre o Largo da Capela, a pequena praça da aldeia onde todos assistem ao ritual.

Os Caretos fazem parte de uma tradição portuguesa muito antiga. São homens fantasiados que andam pelas ruas da aldeia, com máscaras que servem para meter medo, fazendo de diabo à solta e perseguem as raparigas solteiras que, com medo, ficam em casa a vê-los pela janela. Por isso, eles trepam pelas varandas, para ir ter com elas e assustá-las, fazendo muito barulho enquanto mexem a cintura para lhes bater com os chocalhos! E ai daquelas que são encontradas na rua: os demónios mascarados encostam-se a elas, ensaiam uma dança um tanto erótica, agitando a cintura e fazendo embater os chocalhos que trazem pendurados contra as ancas das vítimas.

Suas vítimas são, também, os donos das adegas: os caretos  pegam-lhes ao colo e obrigam-nos a abrir os barris de vinho para  beberem.
As suas correrias, o seu barulho e os seus gritos ainda surpreendem os mais desprevenidos. Na investida bárbara que faz ecoar por toda a aldeia o alarido dos chocalhos e o tropel surdos dos passos, os Caretos levam tudo pela frente, indistintamente. Por detrás da máscara, os olhos procuram a vítima para o sacrifício. Não conhecem entraves ou proibições: subir às varandas, trepar aos telhados ou correr pelas ruas e largo da aldeia. Tudo vale para «chocalhar» e misturar o tilintar dos chocalhos com as gargalhadas das moças e de toda a população.

Usam também um pau (ou moca), que lhes serve de apoio e também lhes dá um ar mais assustador. Andam em grandes grupos com as máscaras feitas de couro, latão ou madeira, onde sobressai o nariz pontiagudo, pintadas de vermelho, preto, amarelo, ou verde. A cor é também um dos atributos mais visíveis das suas vestes: colchas de lã ou de linho, tecidas em teares caseiros, transformadas em trajes franjados de cores fortes como o verde, azul, preto, vermelho e amarelo, às riscas. Para chamar a atenção e fazer todo o barulho que lhes é característico, usam os famosos chocalhos pendurados na cintura e guizos nos tornozelos.

Quem já viu diz que é um clima mágico, que deixa a todos de boca aberta.
Aos caretos tudo se permite nos dias de Carnaval. Diz-se que o homem, ao vestir aquele traje, torna-se misterioso e seu comportamento muda completamente, ficando possuído por uma energia que não se sabe de onde vem.
Nas crenças das pessoas de Trás-os-Montes (e da Beira Alta), existe qualquer coisa de mágico em todo o ritual da festa que permite aos caretos fazerem coisas que os outros não podem.

Só os homens se vestem de Caretos. As crianças do sexo masculino são os «facanitos»: usam as vestimentas dos mais velhos e tentam imitá-los.
Diz-se que a tradição dos caretos já vem de há muitos séculos, ainda antes do Cristianismo e está associada a práticas mágicas, relacionadas com os cultos da fertilidade na agricultura.

A rusticidade do ambiente é indissociável desta figura misteriosa.
Despedem o Inverno e saúdam a Primavera, época de novos plantios que dará origem a novas colheitas. Para os Caretos o Carnaval é um ritual entre o pagão e o religioso, tão natural como a passagem do tempo e a renovação das estações. E, em Podence, todos os anos é assim. Chegado o mês de fevereiro, os homens envergam os seus trajes coloridos, escondem o rosto, prendem uma enfiada de chocalhos á cintura e bandoleiras de guizos e soltam toda a sua energia para assinalar o calor e os dias maiores que estão prestem a chegar.

A aldeia de Podence mantém esta tradição e garante a vida a estas figuras, estes homens de rédea solta para as tropelias. Nos anos 70, a tradição esteve quase perder-se, à conta dos últimos anos de ditadura e do fenómeno da emigração. Hoje são muitos os homens com trajes de Careto e energia para invadir o Largo da aldeia domingo e terça feira de Entrudo. E o futuro está garantido através dos Facanitos, prontos a tomar o testemunho. Os outros, aqueles que não podem envergar a vestimenta, assistem das janelas ou abrem as adegas para apaziguar a secura os folgazões.

A imunidade conferida pela máscara, permite aos caretos mergulhar nos excessos, sendo as moças solteiras sempre, as vítimas preferênciais. A eles (quase) tudo é permitido; o anonimato dá-lhes prerrogativas: dá-lhes poder. Por dois dias no ano os homens são crianças e brincam até não poderem mais. Finalizados esses dois dias, podem as moçoilas dormir descansadas, até ao próximo Carnaval.

A antiguidade e originalidade desta tradição, cheia de cor e som e a vontade das gentes de Podence, em preservar estas figuras, fizeram dos Caretos personagens famosas para lá dos limites da aldeia e são cada vez mais frequentes os convites que este grupo etnográfico recebe para exibições, em vários pontos do país e do estrangeiro.
(Referência: site Caretos de Podence)



(07/03/2011)


Ana Flor do Lácio
Enviado por Ana Flor do Lácio em 07/03/2011
Reeditado em 11/03/2011
Código do texto: T2834472
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Ana Flor do Lácio
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
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Ana Flor do Lácio