Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Festas Juninas


Arraia´ Junino e´ coisa de crianca, para criancas de todas as idades

"Quanta fogueira,quanto balao
quanta brincadeira
todo mundo no terreiro faz adivinhacao..."

E a meninada escutava atenta enquanto as avozinhas de uns e de outros se revezavam mantendo a mocada ocupada, para que os adultos tambem pudessem ter o seu divertimento.
"O que e´, o que e´...
uma capelinha branca,sem porta e sem tranca?"
"Essa eu ja´ sabia, e´ um ovo!" muitas vozes alegres e inquietas reclamavam ao mesmo tempo. "Entao vamos pra´ outra, ou voces querem ouvir uma historia de trancoso?" a bondosa velhinha tentava apaziguar os animos e nao perder a freguesia, pois os pequeninos podiam desparar em corridas a procura de seus pais a qualquer momento. Mas existe uma arte no entreter criancas... e´ preciso manter a atencao e o foco ... e´ preciso ter manha de Vo´, que tudo sabe e nunca se cansa... que pode num instante fazer crianca parar de chorar e sorrir por uma besteirinha de nada...
"Venham ca´, tenho uma historinha especial pra voces, comeca assim ... "
"Era uma vez uma galinha pedrez,
soltou um pum pum
pra voces trez"
E a gargalhada era solta e ingenua! a meninada toda sorria sem parar por um bom tempo,fazendo com que a audiencia aumentasse... agora tambem as mocas e rapazes solteiros  queriam vir ouvir o que se passava naquela roda.

As varandas e alpendres de algumas casas se vestiam de bandeirinhas e bandeirolas azul e incarnadas (acho que era assim que chamavam a cor vermelha). No terreiro do Arraial era a maior animacao! Quadrilha a ser dancada com todos os necessarios apetrechos, noiva e noivo, padre, o gritador que sabia pronunciar as palavras francesas "Anavant, Anarrier,
balacer com seus pares...
nos seus lugares"...

Guloseimas nao faltavam, cada familia trazia alguma coisa, e de repente havia ali, diante dos olhos de todos uma festa de dar agua na boca a qualquer um...Fazem muitos anos (algumas decadas,para falar a verdade), que apenas posso sonhar com estes sabores tao queridos de minha infancia...
O cardapio era ilimitado aos meus olhos infantis e ja´ nao recordo todos os pratos servidos durante as festas juninas, eram balinhas de limao, bolinhas de coco chamadas beijos, broas de goma, cuzcuz com leite e nata, tijolinhos de doce de leite, mungunza´, pamonha, milho verde cozido ou assado, pe´ de moleque, batata doce assada na foqueira, cangica, arroz doce polvilhado com canela, bolo de macaxeira, e aquele refresco feito com cascas de abacaxi, cravo e canela e envelhecido no pote de barro, acho que o nome e´ alua´... nem fala...

Na regiao Nordestina de Caetes, (mais precisamente em terras Alagoanas), se comemora um pouco deste nobre e rico folclore, tao peculiar ao brasileiro, tao pleno de riquesas como a propria historia de um Brasil, mesmo antes de assim ser chamado... a gente boa dessa area ainda desfruta o privilegio de brincar o Pastoril, forro´ e quem sabe ate´ mesmo musica de zabumba , sanfona, triangulo, pandeiro, quem sabe reco-reco tambem... O " Arraia´ Caetes" fica assim na historia...

Com certeza a fogueira vai queimar com o ruido das palhas do milho ou bananeira salpicando pra´ todo lado, fazendo as maes mandarem a meninada se afastar do fogo um milhao de vezes!
Papai gostava muito de ferver a agua da chaleira nas brasas da fogueira e depois mamae fazia cafe´, daqueles torradinho em casa mesmo. Ele dizia que era o unico cafe´ realmente quente, proprio para o consumo de quem apreciava a iguaria... inumeras vezes , eu ouvi um amigo de Papai contar para diferentes pessoas, a historia de um homem que nao sossegou enquanto nao tomou o cafe´ perfeito. Assim diz a conversa, que o tal homem mandou a mulher torrar, moer, pilar e preparar o cafe´ com agua quente, fervida nas brasas de foqueira de lenha, escaldar a xicara e em seguida ele tomou o cafe´ ainda borbulhando de tao quente que estava! apos este ato, o cavalheiro passou o dedo indicador ao redor da boca, arrodeando o contorno da mesma, e em seguida, jogou os labios fora!!! imagine a queimadura!!! Quando menina eu visualizava a cena em minha mente, o homem a procura do "cafe´ perfeito" que tinha de ser assim tao quente! Nunca fez sentido para mim, mas eu jamais ousaria questionar uma historia contada por um amigo de Papai.

E as cumades e cumpades ?
"Sao Joao disse, Sao Pedro confirmou
vamos ser cumades,
que Sao Joao mandou"
Pula pra´ la´, pula pra´ ca´ - do lado da fogueira algumas toras de lenha eram posicionadas de maneira adequada para que as pessoas pudessem selar seu novo "parentesco por escolha e boa amizade"... como e´ rico o folclore de nossa bela terra!
Imagino que existem raizes ainda mais profundas do que as que na superficie podemos observar.
"Sao Joao disse, Sao Pedo confirmou
seja meu afilhado,
que Sao Joao mandou"
Talvez um contrato, um vinculo de validade inquestionavel!
Cumpadres e comadres e seus afilhados e afilhadas sao assim tao "parentes" quanto aqueles a quem estamos ligados por nascimento...
Por que o costume? de onde e quando se origina a tradicao?

E os fogos? E os baloes? existem ainda baloes nos ceus juninos brasileiros deste novo milenio?
"Noite fria, tao fria de junho
os baloes la´ no Ceu vao subindo
pelas nuvens aos poucos sumindo,
vao os baloes la´ no Ceu...

Os baloes devem ser com certeza,
as estrelas daqui deste mundo,
pois as estrelas do espaco profundo,
sao os baloes la´ do Ceu...

Baloes dos meus sonhos dourados,
subiste encantado olhando Jesus,
hoje as criancas pegaram rasgaram teu bojo de listras azuis..."

Muitas musiquinhas de Sao Joao vararam o tempo e permaneceram famosas...imagino que existem outras tantas
que precisam soltar sua voz e clamar um espaco que ainda existe , no coracao de criancas de todas as idades...
Entre Santo Antonio e suas adivinhacoes, Sao Joao e todos os festejos plenos, e ate´ Sao Pedro com suas quadrilhas e forros, ali, bem no finzinho de junho, para garantir que todos participem um pouquinho... temos os festejos mais animados do coracao da terrinha querida.
-----------------------------
Rosalice de Araujo Scherffius
Enviado por Rosalice de Araujo Scherffius em 29/06/2005
Código do texto: T28945
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Rosalice de Araujo Scherffius
Estados Unidos
5 textos (436 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 16:00)