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Análise do Capítulo II da Constituição Dogmática Lumen Gentium (Luz dos Povos)

O Capítulo II da Constituição Dogmática Lumen Gentium (Luz dos Povos [ou Nações]), vem tratar da questão do “Povo de Deus”. Observamos que este capítulo é subdividido em 9 pontos, os quais comentaremos abaixo:

1º - A Nova aliança e o povo

Neste primeiro ponto vemos a constituição do “Povo de Deus” através da História:

 “Aprouve, no entanto, a Deus santificar e salvar os homens, não individualmente, excluindo toda a relação entre os mesmos, mas formando com eles um povo, que o conhecesse na verdade e o servisse em santidade” (cf. LG nº 9).

 Culminando com o advento do conhecimento do Cristo, e a conversão dos povos em Cristão (missão esta ainda em andamento...):

” Todos hão de conhecer-me desde o menor ao maior, diz o Senhor” (Jr 31,31-34). Cristo estabeleceu este novo pacto, a nova aliança do seu sangue (cf. 1Cor 11,25), formando, dos judeus e dos gentios, um povo que realizasse a sua própria unidade, não segundo a carne mas no Espírito, e constituísse o novo povo de Deus. Os que crêem em Cristo, renascidos duma semente não corruptível mas incorruptível pela palavra do Deus vivo (cf. lPd 1,23), não da carne mas da água e do Espírito Santo (cf. Jo 3,5-6), vêm a constituir “a estirpe eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo conquistado... que em tempos não o era, mas agora é o povo de Deus” (lPd 2,9-10)” (cf. LG nº 9)

2º - Sacerdócio comum

Neste segundo ponto, a LG demonstra que Cristo faz de Seu povo, “um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai” (cf. Ap 1,6; cf. 5,9-10), tornando este povo um “edifício espiritual” para que através das práticas das virtudes cristãs ofereçam-se também a si mesmos como hóstia viva, santa, agradável a Deus (cf. Rm 12,1).

“O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, apesar de diferirem entre si essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se um para o outro mutuamente; de fato, ambos participam, cada qual a seu modo; do sacerdócio único de Cristo. (cf. LG nº 10)”

3º - O exercício do sacerdócio comum nos sacramentos

Neste ponto, a LG ensina como os Sacramentos (Batismo, Crisma, Eucaristia, Unção dos Enfermos, Confissão e Matrimônio) atuam neste povo de “sacerdotes” fazendo-os viver a plenitude da vida eclesial no Corpo Místico de Cristo

“A índole sagrada e orgânica da comunidade sacerdotal exerce-se nos sacramentos e na prática das virtudes... (...) Dispondo de meios tão numerosos e eficazes, todos os cristãos, qualquer que seja a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor a procurarem, cada um por seu caminho, a perfeição daquela santidade pela qual é perfeito o próprio Pai celeste” (cf. LG nº 11)

4º - O sentido da fé e os carismas do povo cristão

Neste ponto, a LG aponta a missão profética do povo de Deus, unido ao Cristo, este povo buscando os carismas do Espírito Santo, hão de testemunhar à fé, sem desviar da Revelação divina, mantendo a unidade e o respeito ao Magistério da Igreja.

“O povo santo de Deus participa também da missão profética de Cristo: dá testemunho vivo dele especialmente pela vida de fé e de caridade, e oferece a Deus o sacrifício de louvor, fruto dos lábios que glorificam o seu nome (cf. Hb 13, 15). A totalidade dos fiéis, que possuem a unção que vem do Espírito Santo (cf. 1Jo 2,20 e 27), não pode enganar-se na fé, e manifesta esta sua propriedade característica através do sentido sobrenatural da fé do povo inteiro, quando desde os bispos até “aos últimos fiéis leigos”, (8) exprime o seu consenso universal a respeito das verdades de fé e costumes. Graças a este sentido da fé, que tem a sua origem e o seu alimento no Espírito de verdade, o povo de Deus, sob a orientação do sagrado magistério e na fiel obediência ao mesmo, recebe, não uma palavra humana, mas a palavra de Deus (cf. lTs 2,13)”  (cf. LG nº 12)

5º - A universalidade ou catolicidade do único povo de Deus.

Neste ponto a LG mostra-nos que todos os homens são chamados a constituir-se povo de Deus, observamos, entretanto, que o “Reino de Deus não é deste mundo” (cf. Jo 18,36), porém buscamos viver como estrangeiros nesta pátria, aproveitando-se do que há de bom neste vale de lágrimas, enquanto aguardamos a manifestação final do Cristo.

“Todos os homens são chamados ao povo de Deus. É por isso que este povo, permanecendo uno e único, deve dilatar-se até os confins do mundo inteiro e em todos os tempos, para se dar cumprimento ao desígnio de Deus que, no princípio, criou a natureza humana e decidiu congregar finalmente na unidade todos os seus filhos que andavam dispersos (cf. Jo 11,52) (...)Este caráter de universalidade que distingue o povo de Deus, é um dom do Senhor, graças ao qual a Igreja tende constante e eficazmente para congregar em Cristo, sua cabeça, na unidade do Espírito, a humanidade inteira, com tudo o que ela tem de bom (...) A esta unidade católica do povo de Deus, que prefigura e promove a paz universal, são chamados todos os homens: a ela pertencem ou para ela se orientam, embora de maneira diferente, tanto os católicos como todos os cristãos, e mesmo todos os homens em geral, chamados pela graça de Deus à salvação.” (LG nº 13)

6º - Os fiéis católicos

Neste ponto a LG demonstra a necessidade da Igreja para a Salvação. (ponto este muitas vezes não compreendido pelas mente obtusas). Observemos que a salvação nos é dada pelo Cristo, porém ele funda a Igreja para que através dos sacramentos sejamos “atingidos” pela graça santificante (dom de Deus) que pode nos salvar.

“Apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, ensina que esta Igreja, peregrina na terra, é necessária para a salvação. Só Cristo é mediador e caminho de salvação: ora, ele torna-se-nos presente no seu corpo que é a Igreja; e, ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do batismo (cf Mc 16,16; Jo 3,5), ao mesmo tempo corroborou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pela porta do batismo. Por conseguinte, não poderão salvar-se aqueles que se recusam a entrar ou, a perseverar na Igreja católica, sabendo que Deus a fundou por Jesus Cristo como necessária à salvação. (...)Não se salvam, porém, os que, embora incorporados na Igreja, não perseveram na caridade, e por isso pertencem ao seio da Igreja não pelo “coração” mas tão-só pelo “corpo” . Lembrem-se todos os filhos da Igreja que a grandeza da sua condição não se deve atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de Cristo; se não correspondem a essa graça por pensamentos, palavras e obras, em vez de se salvarem, incorrem num juízo mais severo” (cf. LG nº 14)

7 º - As relações da Igreja com os cristãos não católicos

Neste ponto a LG demonstra o reconhecimento da Igreja, de certa “união invisível” para com aqueles que professam um cristianismo debilitado, desgarrado do rebanho confiado ao báculo Petrino. Por fim resta o desejo de um retorno a única e verdadeira Mater Ecclesiae.

“Por múltiplas razões a Igreja reconhece-se unida aos batizados que se honram do nome de cristãos, mas não professam integralmente a fé, ou não mantêm a unidade de comunhão sob o sucessor de Pedro. (...) a Igreja, verdadeira mãe, não deixa de rezar, de esperar, e de atuar, exortando os seus filhos a purificarem-se e a renovarem-se, para que sobre a sua face resplandeça mais brilhante o sinal de Cristo.” (cf. LG nº 15)

8º - Os não cristãos.

Neste ponto “delicado” a LG demonstra que Deus quer salvar a todos, e dessa forma infundiu no coração dos homens a Sua lei (Lei natural). Por isso, aqueles que SEM CULPA ignoram o evangelho e a Igreja, e buscam a Deus procurando viver Sua lei (Lei natural) podem salvar-se. Este fato não nos exime jamais de pregar o Evangelho a toda a Criatura, pois a salvação ordinária ocorre pelo Cristo, o qual se torna presente pela Igreja, essa possibilidade de salvação dos não cristãos pode-se considerar uma “salvação extra – ordinária”.

“Por último, também aqueles que ainda não receberam o Evangelho estão destinados, de modos diversos, a formarem parte do povo de Deus.(...) Aqueles que ignoram sem culpa o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, mas buscam a Deus na sinceridade do coração, e se esforçam sob a ação da graça, por cumprir na vida a sua vontade, conhecida através dos ditames da consciência, também esses podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina providência nega os meios necessários para a salvação àqueles que, sem culpa, ainda não chegaram ao conhecimento explícito de Deus, mas procuram com a graça divina viver retamente (...) Por isso, solícita da glória de Deus e da salvação de todos, a Igreja, lembrada do mandamento do Senhor: Pregai o Evangelho a toda criatura (Mc 16,15)”. (cf. LG nº 16).

9º - O caráter missionário da Igreja

Neste último ponto do capítulo II, a LG mostra o caráter missionário da Igreja, que cumprindo a ordenança do Senhor, há 2000 anos tem levado a Palavra de Deus a toda criatura e batizando-as até que ele venha. Deixa claro também a responsabilidade de cada discípulo de Cristo (batizado), que deve buscar evangelizar sempre.

“Assim como fora enviado pelo Pai, assim também o Filho enviou os apóstolos (cf. Jo 20,21), dizendo: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo aquilo que vos mandei. E eis que eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt 28,18-20).(...) Cada discípulo de Cristo participa na responsabilidade de propagar a fé; mas se o batismo pode ser administrado aos crentes por qualquer pessoa, é ao sacerdote que compete acabar a edificação do corpo com o sacrifício eucarístico, cumprindo as palavras de Deus pelo Profeta: “Do Oriente ao Ocidente o meu nome é grande entre as nações, e em todos os lugares é oferecido ao meu nome um sacrifício e uma oblação pura (MI 1,11). Assim a Igreja conjuga operações e esforços para que o mundo inteiro se transforme em povo de Deus, corpo do Senhor e templo do Espírito Santo, e para que em Cristo, cabeça de todos, seja dada ao Pai e Criador do universo toda a honra e toda a glória”. (cf. LG nº 17)

Conclusão: O capitulo II da Lumen Gentium, faz uma caminhada pedagógica sobre a formação e função do Povo de Deus na Igreja, demonstrando a sua importância como “sal e luz” no mundo. Rompe com o modelo de “sociedade desigual e hierárquica” , dando espaço para o desenvolvimento deste conceito de “Povo de Deus”

“O Texto da Lumen Gentium busca na escritura os fundamentos da dignidade do povo de Deus (...) sua dignidade sacerdotal como participação no sacerdócio de Cristo, seu múnus profético pela unção do Espírito, sua universalidade e sua unidade na variedade” (SANTINI, Carlos Antônio. Lumen Gentium – 40 Anos depois In: Revista Atualização. Ed. O Lutador, nº 314 – maio/ junho/ 2005, p.266).

Referências Bibliográficas.

Constituição Dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II.

SANTINI, Carlos Antônio. Lumen Gentium – 40 Anos depois In: Revista Atualização. Ed. O Lutador, nº 314 – maio/ junho/ 2005, p.266

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OBS: Apesar desta Constituição (Lumen Gentium) ser chamada “Dogmática”, todos os documentos do Concílio Vaticano II, são de índole pastoral : “Dado o caráter Pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária [ex cathedra] dogmas, dotados da nota de infalibilidade. todavia, conferiu a seus ensinamentos a autoridade do supremo magistério da igreja" (Compêndio do Vaticano II, Petrópolis: Vozes,1969, p. 31).

L.M.J.
Leandro Martins de Jesus
Enviado por Leandro Martins de Jesus em 15/11/2006
Reeditado em 15/11/2006
Código do texto: T291657
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Leandro Martins de Jesus
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