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DEUS NÃO É SURDO

Há uma pequena igreja evangélica no mesmo quarteirão onde fica minha casa. Essa comunidade tem poucos, mas fiéis membros, que, aos domingos à noite, se reúnem para seu principal culto. O som é alto e o grito de seus fiéis ecoa pelas ruas: cânticos e orações intensas preenchem a noite das sete às dez da noite, em uma demonstração forte de sentimentos e emoções. Não reclamo do barulho. Respeito a fé alheia. Convivo melhor com pessoas que têm alguma crença do que com quem tem postura iconoclasta e costuma destruir o pensamento dos outros. Não concordo com muitas crenças pregadas por aí, mas respeito para ser respeitado, tolero para ser tolerado. No entanto, não me furto a comentar certas idéias que me incomodam.
Não são poucas as igrejas (evangélicas, pentecostais, neopentecostais e, até mesmo, católicas) que vêm investindo em uma “espetacularização” da fé. Grandes celebrações, cânticos dramáticos, apelativos, emoção à flor da pele. Há pessoas que vão aos cultos e missas e dizem que, se não houve choro, emoção ou curas, não houve bênção, não houve unção. E alguns pregadores entram nessa onda e investem no emocional: enquanto o grupo musical toca um hino emotivo, as orações conduzem os fiéis a um estado de êxtase, de prostração emocional, de entrega. Olhos fechados, braços erguidos ou mãos no peito, cria-se um cenário no qual mesmo o cristão mais desleixado acaba por se render. Em algumas denominações, nesses momentos, o “demônio se manifesta” e os pastores praticam exorcismos diante da comunidade, mostrando que todo cristão está em guerra contra Satanás. Enquanto isso, o barulho colossal “faz tremer” as paredes do templo.
Isso tudo é muito catártico e, após duas ou três horas de celebração, os fiéis saem enlevados, ungidos, prontos para mais uma semana de luta. E toda semana o processo se repete. Do contrário, o fiel pode ceder e cair nas mãos do tentador.
Os membros da igreja vizinha de minha casa agem dessa forma. E o som ecoa pelo bairro, para o desgosto de alguns que só querem um pouco de paz no fim do domingo, véspera da segunda-feira. Recordo-me uma imagem que vi na internet: alguém pichou diante de uma igreja evangélica: “Deus não é surdo”. A despeito do ato de protesto de alguém que reclama do barulho de uma igreja evangélica, o que me vem à mente é que mesmo as denominações religiosas se renderam a uma das grandes pragas do presente século. Estamos na era dos sentidos, da imagem, do som. Tudo é fúria e movimento. Tudo é tátil. Estamos vendo o triunfo da imagem sobre a palavra. As pessoas querem falar e desaprenderam a ouvir e, quando ouvem, querem escutar sons hipnóticos, que acompanhem o ritmo das batidas cardíacas. O silêncio virou sinônimo de solidão e ninguém quer ficar só por puro medo. E todos querem ser algo, mesmo no meio de uma multidão.
Essa entropia serve de máscara para si mesmo. As pessoas aprenderam a não olhar para si mesmas. Evitam refletir sobre o que são e o seu papel na teia da realidade. E as igrejas aderiram a esse subterfúgio: clama-se a Deus não por Ele em Si, mas porque Ele pode resolver todos os problemas do fiel. De fato, o Cristianismo tem a metanóia como uma de suas pilastras: ao se converter, a pessoa passa a não ser desse mundo. Mas tal fato não significa isolamento. Pelo contrário, o cristão é instado a descer do Tabor e ir para o mundo levar o nome de Cristo a toda criatura. No entanto, em meio ao barulho, muitos cristãos reduzem a experiência querigmática a uma mera terapia de grupo, a um “descarrego”. Essa simplificação da fé é a tônica em meio à entropia dessas igrejas. Em meio ao excesso de sons e gestos e gritos, perde-se o essencial, que é o contato íntimo com Deus, que está no silêncio contemplativo, de quem se coloca diante do Pai para ouvir as Suas palavras.
Deus não é surdo; é onisciente. E assim como não é surdo, também não é mudo: Ele fala.
Não quero com esse texto rejeitar o louvor, os cânticos, a festa em Deus. Mas, humildemente, propor um outro caminho: há grandeza no silêncio contemplativo, quando todos os filhos se reúnem para ouvir a voz do Pai. Vamos voltar a contemplar. Vamos reaprender a ouvir.
Deus não é surdo.
Deus não é mudo.
Deus está perto de nós.


Francisco C
Enviado por Francisco C em 20/11/2006
Código do texto: T296488

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Sobre o autor
Francisco C
Porto Velho - Rondônia - Brasil, 48 anos
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