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Onde há, falta!

Diego Filipe Araujo Alcântara

É fato antigo: enfiamos o pé na merda com uma frequência assustadora! Ainda mais se falamos sobre relacionamentos. Estamos constantemente nos decepcionando... mas não sem um grau divino de felicidade nessas decepções.

Não, não estou falando do gozo que está intrinsecamente ligado ao sofrimento, de maneira nenhuma, há sempre uma parcela de prazer livre de dor. Pena que não pode durar muito: ou as coisas acabam ou viram casamento!

Mas quando corre tudo normalmente, e deixamos de lado esse símbolo de dominação do outro (sim, meninos e meninas, falo sobre a aliança!), enfiamos o pé na merda constantemente. Mesmo felizes, enfiamos o pé.

Mas tudo bem, no Brasil, quanto mais escatológica uma coisa, melhor: o governo é uma merda, os políticos são uma bosta, eu não sei o que faço com tanto cocô de passarinho no centro da cidade, e por aí vai.

Estava eu (“Oh meu Deus, segurem-se, ele usará a primeira pessoa!”) feliz e contente num relacionamento com uma pessoa super legal, carinhosa, afetuosa, uma amiga e tanto, e coisa e tal, quando, um dia, acordei e pensei: “Puxa vida, tenho que terminar com isso e vai ser hoje!”.

Sabe Deus (ou qualquer outra instância divina, divinizatória, dominadora e similares) por que essa idéia me passou pela cabeça. Ou será que sei o que dizer sobre?
Droga, não sei se consigo pôr em palavras tão facilmente, peço ajuda à Ana Carolina e Totonho Villeroy:

Confesso
Composição: Ana Carolina e Totonho Villeroy

“Confesso acordei achando tudo indiferente
Verdade acabei sentindo cada dia igual
Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante
Quem sabe o amor tenha chegado ao final

Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero ou vaidade
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz

Não vou pedir a porta aberta é como olhar pra trás
Não vou mentir nem tudo que falei eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo eu já roubei demais

Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer
Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais”

Obrigado meus queridos, era exatamente o que eu ia dizer! Ah, o que uma boa sublimada não faz por nós!? Sublimação, já nos diria Freud, “(...) é um processo que diz respeito à libido objetal e consiste no fato de o instinto se dirigir no sentido de uma finalidade diferente e afastada da finalidade da satisfação sexual;”, por exemplo, eles tiveram a maravilhosa idéia de escrever uma canção para expressar isso que não tem nome e que estava em mim naquela bela manhã... mas não somente nela!

Talvez minha libido naquela manhã tenha enchido o saco! (“Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante;”) – pode ser, por que não!? Talvez meu desejo por ela tenha acabado (“Quem sabe o amor tenha chegado ao final.”) – e disso eu duvido!

Talvez a resposta esteja além, aquém, enfim, em algum “lugar” diferente.

“Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer.”

E é aí que encontro o que procurava, mas nunca acharei: “Perder o vazio é empobrecer!”.

Estranho não!? Pode parecer incoerente ouvir isso, eu diria, mas há alguém que nunca tenha sentido isso na pele?
Eu realmente odeio esta frase, mas terei de usá-la (não sem medo de errar e feio!) - é algo como um “Era uma vez num reino muito distante...” - é a seguinte: “para Lacan...” (e agora vem o raciocínio que na verdade é uma apropriação que eu fiz de algo que o Lacan quase disse!) há, durante o desenvolvimento do indivíduo, uma estruturação psíquica determinada. Já ouvimos meus colegas discorrerem sobre as três instâncias possíveis na psique humana: o real, o simbólico e o imaginário. Não repetirei seus discursos, no entanto, algo mais deve ser dito: eu não sou essas três instâncias!*

Vagando, errante, estou eu, me resolvendo com minha estruturação. Diria melhor, vagando, está um sujeito que eu desconheço; não tenho acesso à esse meu enigma próprio de mim mesmo (com o perdão do pleonasmo!). Eu, segredo que me guardo tão bem e que se revela a mim tão pouco, em clarões tão dificilmente vislumbrados. Onde estou agora? Já fui! Eu sou metáfora e metonímia constantes.

Mas eu tenho uma certeza que me faz existir, e ela é indubitável, talvez nas palavras de Descartes: “Penso, logo existo!”. Essa frase que, por tanto tempo foi lida como uma resposta, a mim, soa como a pergunta fundamental: “Quem sou eu, afinal?”.

E, mesmo que não queiram os relativistas, me afirmo existindo nessa resposta-pergunta-fundamental-para-a-vida! Quem sou eu, droga? Eu quero saber quem sou eu! Eu digo que penso, digo que existo, mas não digo muito com isso. Não parece óbvio: se eu tenho essa resposta, é porque tenho uma pergunta e desejo sabê-la!

E é aí que encontro minha garantia. Eu quero. Eu quero. Eu quero.

Agora vem a parte do raciocínio pré-pronto: se eu desejo é porque não tenho o que desejo (no mínimo), então se não tenho é porque me falta! Pré-pronto, sim, mas ah, chega a arrepiar como é verdade!

O que me falta? O que te falta? O que falta ao homem?

Tantas marcas, decepções, choro, satisfação e não satisfação... e eu era apenas um bebê. Quem ela pensava que era pra vir assim, me completar e depois sair fora balbuciando qualquer coisa que pra mim não fazia o mínimo sentido? Para quem o nome mãe veio à cabeça, parabéns, para quem não veio, boa sorte ao chegarem em casa e pensarem sobre!

E ela me ensinou a falar. E veio aquele outro cara “forgado”. Mas me fez amá-lo também. E eles então me ensinaram o que eu devia falar, como eu devia sentir, me portar, andar ou parar, e me jogaram no mundo sem nem ao menos dizer como agir. Não vou dizer que não gostei, mas tive de adaptar. Descobri que suas palavras não eram suficientes; que suas lições não eram todas as que existiam; e que eu teria que improvisar muitas vezes. Eu até que me dei bem, mas algo estranho ficou aqui dentro.

Sei lá, entende? Parece que falta algo, sabe?

E falta. E tem que faltar. Como poderia eu estar me chamando de “eu” agora se tudo em mim tendesse a plena satisfação? Como eu poderia estar incomodado com o fato de não saber bulhufas de quem eu sou, se é que sou, se é que “eu”, como poderia haver a necessidade de eu me estatizar numa identidade se não me faltasse algo?
O que falta, exatamente, nunca poderemos saber. Ou melhor, não há o que falta exatamente, pois a própria exatidão nos dá a idéia de uma completude e, sinto desapontá-los crianças, estamos constantemente atrás daquilo que perdemos, nunca tivemos e jamais acharemos!

Perder isso que falta, perder esse vazio é empobrecer, é perder aquilo que me motiva a buscar as respostas, é o que me motiva a resignificar cadeias inteiras de significantes apenas pela diversão de fazê-lo (“Ainda há surpresas, mas eu sempre quero mais.”). É o que me move em direção à qualquer direção. É o que me aflige e me faz fugir de toda aflição (quando quero!). Quando nada me falta, não tenho mais pra onde ir! (“Aos poucos fui ficando mesmo sem saída.”).

Talvez foi isso que eu, sem querer, percebi naquela manhã: eu estava ficando sem saída, minhas respostas estava sendo respondidas, eu estava perdendo meu vazio.

Mas terminei da melhor maneira possível: disse que não poderia fazê-la feliz (vejam bem que isso é verdade, como um monstro narcisista poderia fazer alguém feliz?) e que poderíamos ser amigos se ela quisesse. E foi o que aconteceu.

Como somos: queremos sempre ter um lugar privilegiado no desejo do outro...
... mas isso é outra história!

Antes de terminar, para que se recuperem todos do choque, três coisas, com letra minúscula:

coisa 1 – Nunca tivemos e nunca acharemos, mas procuraremos sempre isso que nos falta, é a coisa mais normal (?) do mundo, meus queridos!;

coisa 2 – Afinal, já diria Buda: “Não importa onde você vai chegar, importa é o caminho que você toma!”;

coisa 3 – Sim, eu quero um abraço!



Bibliografia censurada pelo autor:

Quinet, Antonio; A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma; 2ªed.; Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

Fink, Bruce; O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo; trad.: Maria de Lourdes Duarte Sette; Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

CD rom das obras completas de Sigmund Freud (perdoe-me, mas não sei referenciar CDs e estou impossibilitado de fazê-lo no momento, pode me cobrar depois!)

Descartes, René; Discurso do método; São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores).


(Artigo produzido para a disciplina de Fundamentos de Psicanálise e apresentado à Turma 1000 do ano de 2005 do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina no dia 29/11/06)

*Esse assunto foi abordado por colegas de sala em apresentações anteriores!
Diego Filipe Araujo Alcântara
Enviado por Diego Filipe Araujo Alcântara em 30/11/2006
Código do texto: T306244
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Sobre o autor
Diego Filipe Araujo Alcântara
Camanducaia - Minas Gerais - Brasil, 31 anos
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Diego Filipe Araujo Alcântara