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Evasão Escolar na EJA

A EVASÃO ESCOLAR NA EJA: UMA REALIDADE DA ESCOLA ESTADUAL MARIA MERIAM DOS SANTOS CORDEIRO FERNANDES




RESUMO

Este artigo traz como objetivo principal analisar as principais causas que levam ao alto índice de evasão na Educação de jovens e Adultos da Escola Estadual Maria Meriam dos S. C. Fernandes. Nesse intuito, foi realizada pesquisa de campo com 20 (vinte) ex-alunos evadidos da escola no ano de 2010, considerando os aspectos sociais, econômicos e culturais e sua relevância junto a essa problemática. Também foram feitos questionamentos junto a 8 (oito) professores que atuam nessa modalidade de ensino no sentido de tentar uma melhor compreensão desse problema que afeta a maioria das escolas públicas do Brasil. Os resultados mostraram que os fatores extra-escolares são de grande relevância na determinação da evasão nesta escola, no entanto, pode-se observar que fatores intra escolares como a estrutura física da escola, e os métodos de ensino utilizados pelos professores também estão contribuindo para a evasão. Percebe-se claramente a responsabilidade da escola no sentido de desenvolver estratégias eficazes para garantir a permanência dos alunos na escola e diminuir assim os índices de evasão escolar.
Palavras-chave: evasão escolar, motivação, práticas pedagógicas


ABSTRACT
This article has as main objective to analyze the main causes that lead to high drop-out rates in youth and Adult Education of the State School of St. Mary Meriam C. Fernandes. To that end, we carried out field research with 20 (twenty) alumni of the school dropouts in 2010, taking into consideration social, economic and cultural relevance with respect to this problem. Were also made inquiries with the 8 (eight) teachers who work in this type of education to try to better understand this problem that affects most public schools in Brazil. The results showed that the extra-school factors are of great relevance in determining the dropout at this school, however, can be observed that factors such as intra-school physical structure of the school and the teaching methods used by teachers are also contributing to evasion. It is clearly the responsibility of the school to develop effective strategies to ensure students stay in school and thus lowering dropout rates.
Keywords: school dropout, motivation, teaching practices


1- INTRODUÇÃO


Um dos grandes desafios pertinentes ao sistema educacional brasileiro, mais especificamente a escola pública, refere-se à “evasão” escolar. O tema em questão trata de um problema presente em todas as escolas e com mais intensidade nas escolas que oferecem a modalidade de Educação de Jovens e Adultos. Nesta perspectiva, foram desencadeadas problemáticas no que tange a evasão escolar realizando um desdobramento de suas debilidades e as causalidades que ocorrem para sua procedência.
O problema da evasão escolar preocupa a escola e seus representantes, ao perceber alunos com pouca vontade de estudar, ou com importantes atrasos na sua aprendizagem. Os esforços que a escola, na pessoa da direção, equipe pedagógica e professores fazem para conseguir a freqüência e aprovação dos alunos não asseguram a permanência deles na escola. Pelo contrário, muitos desistem.
Nesse sentido, é preciso considerar que a evasão escolar é uma situação problemática, que se produz por uma série de determinantes.
Dentro desse contexto, no intuito de conhecer e compreender as possíveis causas desse fenômeno, foi realizado um estudo na Escola Estadual Maria Meriam dos Santos Cordeiro Fernandes, tendo em vista as características e especificidades da modalidade de Educação de Jovens e Adultos.
O presente trabalho tem como objetivo principal, conhecer e compreender as possíveis causas, que levam ao alto índice de evasão escolar na referida escola, identificando os fatores intra e extra-escolares presentes no sistema escolar, bem como refletir sobre possíveis propostas de ações pedagógicas que possam colaborar na diminuição dos elevados índices de evasão nesta escola.
A iniciativa de voltar este trabalho investigativo para a Educação de Jovens e Adultos – EJA – deu-se por conta da íntima relação construída com este público, enquanto professora de ciências nas turmas de 3.º e 4.º ciclos da referida escola e a observação do grande número de alunos que abandonam a escola no decorrer do ano.
Neste contexto, este trabalho procurou indagar como a evasão escolar reflete no processo educacional do indivíduo, buscando uma compreensão referente às causas e tendências desta demanda, bem como analisar o perfil sócio-econômico e cultural dos alunos que se evadiram da escola.
A proposta metodológica aqui apresentada baseia-se em pesquisas bibliográficas, de campo e documental. O referencial da pesquisa bibliográfica se dá a partir de material já elaborado, constituído de livros, artigos científicos, resoluções, legislações pertinentes e publicações com o intuito de obter dados concretos e idéias sobre a temática.
A pesquisa documental foi realizada a partir de documentos e boletins estatísticos da Secretaria da Escola, bem como, junto às pastas individuais dos ex-alunos.
Optou-se por uma investigação qualitativa para realizar a pesquisa de campo, cujo propósito fundamental é a compreensão, explanação e especificação do fenômeno social. Essa investigação consta de dois questionários contendo  questões fechadas e abertas, sendo um direcionado aos ex alunos, evadidos no ano de 2010 e outro direcionado aos professores da EJA da referida escola.

2- UMA REFLEXÃO SOBRE A EVASÃO ESCOLAR NA EJA

A Educação de Jovens e Adultos –EJA- no Brasil convive historicamente com um alto índice de evasão. Dos 8 milhões de pessoas que frequentaram o curso até 2006, 42,7% não chegaram a terminá-lo, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007.
A evasão, especialmente no ensino noturno, é uma realidade de grande parte das escolas, não é um fato isolado, acontece em escolas de grandes centros e também nas que se localizam em bairros mais afastados. O que pode ser observado na E.E. Maria Meriam dos Santos Cordeiro Fernandes, onde, segundo dados estatísticos do ano letivo de 2010, evidenciou-se um índice de 43% de evasão no segundo segmento da EJA. Contudo, não se pode aceitar passivamente esta realidade, ou simplesmente ignorá-la.
O tema “evasão escolar” é um assunto abordado por vários autores e em várias obras. E pode-se observar que é na EJA que se vê os números mais alarmantes desse fenômeno. Nesse sentido, é preciso considerar que a evasão escolar é uma situação problemática, que se produz por uma série de determinantes.
Abordar a questão da evasão na Educação de Jovens e Adultos é sempre muito delicado, visto que, são inúmeros condicionantes históricos, políticos, sociais e culturais que determinam essa realidade. No entanto, pode-se perceber que este é um dos grandes desafios pertinentes ao sistema educacional brasileiro, mais especificamente à escola pública.
Nessa perspectiva, faz-se necessário conhecer e compreender as possíveis causas desse fenômeno, tendo em vista as características dessa modalidade de ensino e seu impacto social e econômico. É preciso conhecer a realidade dos indivíduos inseridos nessa problemática, bem como os fatores socioeconômicos e culturais que contribuem para que os alunos se afastem da escola. E ainda, é necessário conhecer os fatores didáticos e pedagógicos que porventura também possam estar colaborando para a manutenção desse quadro de alto índice de evasão escolar. No entanto, é importante evidenciar que a EJA é uma educação possível e capaz de mudar significativamente o futuro de uma pessoa, permitindo-lhe reescrever sua história de vida.
De acordo com o artigo 37º da LDB – Lei de Diretrizes e Bases, a educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria.
Para tanto, há necessidade de entender a forma de como se dará a garantia de permanência destes educandos na escola que, de acordo com a mesma Lei, o Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na instituição escolar, mediante ações integradas e complementares entre si.
Foi justamente pensar na permanência do adulto no ambiente escolar, amenizando a evasão, o que instigou a pesquisa-ação dentro da escola. Pois não basta apenas recorrer à lei, que regulamenta e ampara o educando, é preciso conhecer e analisar possíveis causas dessa problemática muito freqüente em nossos sistemas de ensino.
Sabe-se que o problema da evasão e da repetência escolar no Brasil, tem sido um dos maiores desafios enfrentados pelas redes do ensino público.
Nessa perspectiva e com base na experiência ou em pesquisas sobre o tema, entende-se que os motivos que levam jovens e adultos a evadirem-se da escola, referem-se à somatória de diversos fatores como gravidez na adolescência; necessidade da inserção no mercado de trabalho; dificuldade de aprendizagem, em que o aluno se sente intelectualmente inferior aos demais da turma, e outros fatores socioculturais e econômicos; como também a escola, onde professores têm contribuído a cada dia para o problema se agravar, diante de uma prática didática ultrapassada. Fatores estes que são citados por diversos autores como:
Fatores psicológicos: referentes a fatores cognitivos e psicoemocionais dos alunos (BRASIL, 2006);
Fatores socioculturais: relativos ao contexto social do aluno e as características de sua família. (OLIVEIRA, 2001);
Fatores institucionais: baseadas na escola, tal como, métodos de ensino inapropriados, currículo e as políticas públicas para a educação (AQUINO, 1997).
Na busca pelas causas do fracasso escolar alguns estudos já mostraram que os fatores vinculados aos alunos, como: suas capacidades, sua motivação ou sua herança genética são determinantes. Outras perspectivas, pelo contrário, deram ênfase principalmente aos fatores sociais e culturais. O fato de que as classes socialmente desfavorecidas apresentem uma porcentagem superior de fracasso reforça tal posição.
Segundo pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas - FGV-RJ (2004 e 2006) a falta de interesse pela escola é o principal motivo que leva o jovem brasileiro a evadir. A pesquisa revela que 40% (quarenta por cento) dos jovens de 15 a 17 anos que evadem, deixam de estudar simplesmente porque acreditam que a escola é desinteressante. A necessidade de trabalhar é apontada como o segundo motivo pelo qual os jovens evadem, com 27% (vinte e sete por cento) das respostas, e a dificuldade de acesso à escola aparece com 10,9% (dez virgula nove por cento).
Santos M. A. (2007) fez um estudo sobre a permanência de jovens e adultos no ambiente escolar. A autora entende que o aluno da EJA é um aluno diferente, um pouco inseguro e, as diversas derrotas vividas ao longo de um processo escolar, muitas vezes já iniciada no ensino regular, certamente irão abalar sua auto-estima e lhe trazer dificuldades de socialização no ambiente escolar.
O estudo desenvolvido por MEKSENAS (1992, p. 98) sobre a evasão escolar dos alunos dos cursos noturnos mostra que a evasão escolar destes alunos se dá em virtude de estes serem "obrigados a trabalhar para sustento próprio e da família. Exaustos da maratona diária e desmotivados pela baixa qualidade do ensino, muitos adolescentes desistem dos estudos sem completar o curso secundário".
Segundo a visão de ARROYO (1997, p.23), “na maioria das causas da evasão escolar a escola tem a responsabilidade de atribuir à desestruturação familiar, e o professor e o aluno não têm responsabilidade para aprender, tornando-se um jogo de empurra”. Sabe-se que a escola atual precisa estar preparada para receber e formar estes jovens e adultos que são frutos dessa sociedade injusta, e para isso é preciso, professores dinâmicos, responsáveis, criativos, que sejam capazes de inovar e transformar sua sala de aula em um lugar atrativo e estimulador.
Para Paulo freire (2007) a alfabetização para jovens e adultos têm que partir da conscientização, preocupando-se com a total integração dos indivíduos na sociedade. Os princípios importantes no trabalho com jovens e adultos devem estar interligados com a experiência vivida por eles, e os conteúdos devem despertar em cada um o prazer de estar na sala de aula e motivá-los a permanecerem na escola, com utilização de uma linguagem simples.
Diante deste contexto, este artigo pretende apresentar os resultados da pesquisa realizada com alunos que se evadiram da Escola Estadual Maria Meriam dos S. C. Fernandes no ano de 2010, bem como, com professores do 3.º e 4.º ciclos do ensino fundamental da modalidade EJA desta mesma escola.

3- METODOLOGIA
O presente estudo foi realizado junto à Escola Estadual Maria Meriam dos S. C. Fernandes, que se localiza no bairro Jardim Felicidade II, zona norte do município de Macapá, no Estado do Amapá.
A escola oferece o ensino fundamental regular nos turnos da manhã e da tarde e no turno da noite a Educação de Jovens e Adultos – EJA.
Na EJA, a escola conta com uma turma de Alfabelização de adultos, uma turma de 1.ª etapa, duas de 2.ª etapa, quatro turmas de 3.ª etapa e três turmas de 4.ª etapa.
A metodologia desenvolvida neste projeto foi baseada em pesquisas bibliográficas, de campo e documental. O referencial da pesquisa bibliográfica deu-se a partir de material já elaborado, constituído de livros, artigos científicos, resoluções, legislações pertinentes e publicações com o intuito de obter dados concretos e idéias sobre a temática.
A pesquisa documental foi realizada a partir de documentos e boletins estatísticos da Secretaria da Escola, bem como, junto às pastas individuais dos ex-alunos, para a obtenção do endereço dos mesmos, visto que as entrevistas foram realizadas na residência dos mesmos.
A pesquisa de campo foi feita através de investigação qualitativa, junto a ex-alunos da EJA que evadiram-se no ano de 2010 e com alguns professores também da EJA atuantes na referida escola.
Os questionários têm como propósito fundamental a compreensão, explanação e especificação do fenômeno social. O questionário direcionado aos ex-alunos constou de questões fechadas e abertas. As questões fechadas “são aquelas em que as alternativas de respostas são especificadas pelo pesquisador com a finalidade de garantir a comparação das respostas e facilitar a análise” enquanto que as perguntas abertas permitem ao participante responder as questões com suas próprias palavras (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004, p. 254). Já o questionário direcionado aos professores, foi elaborado apenas com questões abertas, visto que objetiva conhecer alguns fatores didáticos específicos de cada educador, bem como suas expectativas com relação a Educação de Jovens e Adultos nesta escola.
Cervo e Bervian (2002) consideram o questionário a técnica de coleta de dados mais utilizada, pois possibilita medir com melhor precisão o que se deseja, além de ter como vantagem coletar informações mais reais.
A pesquisa foi desenvolvida pelo método de amostragem, configurando uma amostra de 20 alunos, sendo 10 evadidos de turmas de 3.ª etapa e 10 que se evadiram da 4.ª etapa no ano de 2010. A escolha dos professores para responderem aos questionamentos foi realizada de acordo com a maior freqüência destes na escola no período noturno, sendo, portanto, os que têm maior contato com a realidade desta modalidade de ensino.
A aplicação dos questionários aos ex-alunos envolvidos na pesquisa, foi realizada em visita domiciliar às residências dos mesmos.
A aplicação dos questionários aos professores alvo do estudo foi feita na própria escola, no período noturno.

4- ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS DA PESQUISA

4.1- Perfil dos entrevistados/ex-alunos
As amostras de entrevistados contaram com a participação de ex-alunos que se evadiram durante o ano de 2010. E como mostra o quadro 1 de entrevistados que no ano de evasão freqüentavam turmas de 3.ª etapa, pode-se perceber que a média de idade destes é de 25,7 anos. Já o quadro 2  formado por entrevistados que freqüentavam a 4.ª etapa, mostra que a média de idade dos mesmos é de 29,6 anos. Os quadro 1 mostra também que 40% dos entrevistados são  do sexo feminino e 60% masculino e o quadro 2 apresenta 30% de entrevistados do sexo feminino e 70% masculino.
Os quadros 1 e 2 também esclarecem que a profissão exercida pelos entrevistados não exige graduação para o seu exercício.

ENTREVISTADO IDADE SEXO PROFISSÃO
A 19 MASCULINO DESEMPREGADO
B 20 MASCULINO PINTOR
C 20 FEMININO DIARISTA
D 21 MASCULINO SERVIÇO GERAL
E 35 FEMININO COSTUREIRA
F 18 FEMININO DESEMPREGADA
G 22 MASCULINO DESEMPREGADO
H 24 MASCULINO LAVADOR CARRO
I 42 MASCULINO PEDREIRO
J 36 FEMININO EMPREG. DOMÉSTICA
Quadro 1 – Perfil dos entrevistados que se evadiram de turmas de 3.ª etapa



ENTREVISTADO IDADE SEXO PROFISSÃO
A 18 MASCULINO SERVENTE DE PEDREIRO
B 18 MASCULINO DESEMPREGADO
C 19 FEMININO AUX. SERV. GERAIS
D 21 MASCULINO VENDEDOR AMBULANTE
E 26 MASCULINO MECÃNICO
F 29 FEMININO DESEMPREGADA
G 37 MASCULINO MARCENEIRO
H 48 MASCULINO COMERCIANTE
I 50 MASCULINO VENDEDOR
J 30 FEMININO DIARISTA
Quadro 2- Perfil dos entrevistados evadidos de turmas de 4.ª etapa.

Analisando os quadros 1 e 2, pode-se perceber que há uma grande distorção idade/série, demonstrando que a maioria dos entrevistados está a bastante tempo afastado da escola/sala de aula o que pode se traduzir em dificuldades de socialização com colegas e professores na escola.


Gráfico 1- Número de pessoas na família/casa
 
Fonte: pesquisa de campo realizada pela autora, 2011




Gráfico 2- Renda Familiar
 
Fonte: pesquisa de campo realizada pela autora, 2011

Relacionando os gráficos 1 e 2, pode-se analisar que 55% das famílias têm em média cinco componentes e a renda familiar de 50% das famílias é de 1 a 2 salário mínimo, o que equivale a uma renda per capta abaixo de 0,5 salário mínimo, o que evidencia um baixo poder aquisitivo, traduzindo-se na necessidade de o entrevistado ter que trabalhar para colaborar na renda da família, o que pode ser um fator determinante para a evasão.

Gráfico 3- Escolaridade das famílias
 
Fonte: pesquisa de campo realizada pela autora, 2011

O gráfico 3 mostra um fator relevante onde 40% das famílias têm apenas o nível fundamental incompleto, o que pode ser relacionado com a renda familiar de 1 a 2 salários mínimos, mostrado no gráfico 2, visto que a profissão dos mesmos não requer um grau mais elevado de instrução educacional.

4.2 – Motivos da Evasão

O gráfico abaixo demonstra os motivos pelos quais os entrevistados evadiram-se da escola, sendo observado que os mais relevantes foram: incompatibilidade de horários de trabalho e escola, desinteresse pelo estudo, gravidez, doença na família, indisciplina na turma/classe,
Gráfico 4- Motivos da Evasão
 
Fonte: pesquisa de campo realizada pela autora, 2011

O gráfico 4 evidencia como motivos mais relevantes para a evasão escolar, a incompatibilidade de horários de trabalho e escola e a falta de interesse de estudar. Nesse sentido pode-se associar a evasão escolar aos contextos sócio-econômicos e políticos do mundo atual, a necessidade de consumo contínuo, a falta de incentivo por partes de políticas educacionais, e para fazerem parte desse mundo tão desigual, muitos precisam trabalhar de oito a dez horas diárias, o que torna praticamente impossível a adequação aos horários da escola, e mais, depois de um exaustivo dia de trabalho, o cansaço e o desânimo acabam indispondo o aluno a enfrentar mais três horas e meia de aulas, na maioria das vezes monótonas e pouco atrativas.
No que se refere a falta de interesse pelo estudo, entende-se que pode estar relacionada a falta de atuação da escola no sentido de proporcionar aulas mais atrativas e voltadas à realidade dos alunos, realizar atividades lúdicas e culturais que possam despertar nos alunos a vontade de ir todos os dias à escola.




4.3 – Importância do estudo para a vida

Conforme dados obtidos na pesquisa, observou-se que todos os entrevistados consideram o estudo importante por estar diretamente ligado a melhoria de vida. Todos entendem que somente com boa instrução escolar poderão ter um bom emprego e um salário condizente com as suas expectativas e que só o estudo lhes possibilitará seguir uma carreira brilhante, como pode-se observar nas falas dos entrevistados a seguir:
Somente estudando eu posso ter um bom emprego e dar muito orgulho pra minha família. (entrevistado, 2011).


Eu pretendo seguir a carreira de médico, e somente com estudo eu poderei realizar este sonho.(entrevistado, 2011).

Pra mim o estudo é importante porque eu pretendo ter um bom emprego e dar uma boa vida para os meus futuros filhos.(entrevistado, 2011)

Neste contexto, pode-se verificar que para os entrevistados a importância do estudo está relacionada com a questão da profissão que pretendem seguir, segundo os mesmos, a concepção de um bom emprego está associada à educação. Mesmo interrompendo os estudos conseguem perceber, que para conseguir boa qualificação no mercado de trabalho, participação ativa e convivência com a sociedade, é necessário retornar à escola.

4.4- Oportunidades perdidas pela falta de estudo

Outro aspecto pesquisado foi com relação a perda de oportunidades pela falta de estudo, onde 60% dos entrevistados afirmaram já ter perdido oportunidade de conseguir um emprego melhor por não possuírem a qualificação escolar exigida pelo empregador.
Dois dos entrevistados afirmaram ter perdido a oportunidade de ser bolsista no Forum da cidade por não terem freqüência na escola e suas notas estarem abaixo da média exigida. Outro disse não ter sido aceito no Exército por não ter a série exigida.
Pode-se perceber que os entrevistados têm consciência da falta que lhes faz o estudo, de que estudar seria a maneira que teriam de ingressar no mercado de trabalho de uma forma digna e capaz de oferecer-lhes melhores condições de vida, visto que o mundo do trabalho está cada vez mais exigente e competitivo e, que somente estando capacitados e habilitados poderão se adequar a esse mercado tão exigente.

4.5 – Contribuição da escola no retorno aos estudos

Ao serem indagados sobre como a escola e os profissionais da rede escolar poderiam contribuir no retorno dos mesmos à escola, pode-se perceber que os entrevistados observam que se as aulas fossem mais dinâmicas e atrativas, se houvesse mais interação entre professores e alunos, se os conteúdos estudados tivessem mais relação com a realidade dos alunos, certamente haveria uma melhoria no aprendizado e os alunos teriam prazer em retornar às aulas. Tais observações se fazem em algumas falas, tais como:
“Acho que os professores deviam conversar mais e incentivar os alunos que querem desistir”.(entrevistado, 2011).

“Se tivessem mais dinâmicas de grupo e não apenas aulas normais”.(entrevistado, 2011).

“A maioria dos assuntos que estudamos não faz parte da nossa realidade, e se tornam muito difíceis de serem aprendidos”

  Nessa perspectiva, pode-se entender que é importante que a escola reveja sua didática pedagógica no sentido de ofertar aulas mais atrativas e conteúdos mais condizentes com a realidade dos alunos, oferecendo momentos de descontração e interação entre toda a comunidade escolar. Também é de suma importância que o corpo técnico da escola e os professores possam atender as necessidades e particularidades dos alunos da EJA, visto que, em sua maioria são pessoas com inúmeros problemas extra-escolares que interferem diretamente na permanência dos mesmos no ambiente escolar e estes, muitas vezes tentam buscar algum apoio na escola, junto aos professores e direção escolar.
Nesse contexto, pode-se perceber que em um processo de aprendizagem a figura mais próxima do aluno é o professor, sendo ele o principal canal de transmissão de conhecimentos, dessa forma, cabe ao professor ter a sensibilidade de identificar as necessidades que englobam questões não somente educacionais, mas também sociais, culturais e econômicas e a partir disso, direcionar suas ações pedagógicas de acordo com a realidade vivenciada pelo aluno.

4.6- Disciplinas que apresentam as maiores facilidades e dificuldades de aprendizagem
Na questão disciplinas em que têm maior facilidade, a maioria dos entrevistados descrevem na ordem: matemática, português e ciências, e explicam que a facilidade se dá por terem maior entrosamento com os professores, porque os professores explicam bem os conteúdos e por terem mais afinidade com essas disciplinas.
Já no quesito disciplinas que apresentam maior dificuldade, a maior relevância foi para geografia, os entrevistados a consideram uma disciplina muito complicada, os conteúdos muito extensos e, conforme a fala de alguns “ os assuntos são muito difíceis e é impossível aprender todas aquelas coisas enroladas”. Alguns entrevistados atribuíram aos professores que tiveram dessa disciplina, pois os mesmos não tinham uma didática que favorecesse o aprendizado.

4.7 – ENTREVISTA COM PROFESSORES

4.7.1 – Dificuldades no processo educativo da EJA
Ao serem questionados quanto às dificuldades encontradas no processo educativo da EJA, os professores enumeraram como fatores mais relevantes os seguintes:
 A indisciplina
 A falta de recursos didáticos específicos para a EJA
 O ambiente escolar inadequado às necessidades dos alunos.
 A falta de formação para os professores que atuam na EJA
 A falta de apoio do corpo técnico da escola
Pode-se perceber que tais fatores podem estar contribuindo muito com a evasão nesta escola, visto que salas de aula quentes, cadeiras desconfortáveis, falta de material didático para os professores prepararem uma boa aula são fatores que em nada atraem os alunos, ao contrário, trazem desmotivação e desinteresse pela escola, aumentando o número de alunos que se evadem.
Quanto à estrutura física da escola, 100% dos professores entrevistados acreditam que a escola não possui as condições adequadas para oferecer aos alunos um mínimo de conforto e segurança. Destacaram o cercado da escola que não oferece nenhuma segurança, pois são grades por onde as pessoas podem adentrar a qualquer momento, trazendo insegurança a todos que se encontram na escola.

4.7.2- Concepção dos professores sobre as causas da evasão

Diante do questionamento feito aos docentes sobre as principais causas da evasão escolar, pode-se perceber uma mescla entre fatores intra e extra-escolares, como se vê em algumas das falas dos professores entrevistados:
“Aulas cansativas, sem inovação; professores conteudísticos que não respeitam as limitações e necessidades dos alunos; alunos apáticos e desmotivados” (entrevista, 2011).

“Para muitos alunos que trabalham, é o cansaço” (entrevista, 2011).

“A desorganização da escola; a falta de interesse, principalmente dos jovens; a falta de sensibilidade de alguns professores” (entrevista, 2011).

“O trabalho; a família; excesso de responsabilidade no lar; dificuldades financeiras; escola distante de sua realidade; a falta de interesse” (entrevista, 2011).

Como pode-se perceber nas falas acima, muitos são os fatores geradores de afastamento da escola, porém, há uma relevância quanto aos fatores relacionados ao processo educativo ligados à escola. Nesse sentido, cabe à escola transformar parte da realidade que produz a evasão escolar, desenvolvendo estratégias que possam efetivamente transformá-la em instituição realmente preocupada com a educação e engajada na formação de cidadãos críticos, capazes de integrar dignamente o mundo globalizado atual..
Nesse contexto, a escola tem um papel crucial, o desafio de oferecer uma aprendizagem significativa, incentivando assim a participação e o interesse do aluno.
No que se refere à prática pedagógica, o que se percebe é que grande parte dos professores não está preparada para atender as especificidades desta modalidade e acabam por incorporar as mesmas práticas adotadas na educação regular.
4.7.3-  Outros questionamentos

Junto aos professores também foi questionado sobre o posicionamento da gestão escolar quanto à evasão na EJA, onde os mesmos, por unanimidade, consideram que a escola tem sido omissa ao tratar da questão “evasão”, pois, em seus instrumentos normatizadores, como o PPP – Projeto Político Pedagógico, ainda não contempla as questões relacionadas à realidade especifica de jovens e adultos. Nesse contexto, para ARPINI (2003)
É através desse mecanismo que a escola exclui implicitamente seus alunos, pois, ao não fazer nenhuma tentativa de atender suas demandas, ela os joga para fora, fazendo parecer que saíram espontaneamente, quando, na verdade, a instituição não cria as condições para garantir sua permanência (ARPINI, 2003, p.158).

Dessa forma, mesmo sem se dá conta, a escola está contribuindo para a evasão. Nessa perspectiva, o processo metodológico e político no ensino para jovens e adultos tem que ser contemplado com novas práticas que atendam as perspectivas de seus educandos, estimulando-os e motivando-os de forma consciente.
Dentro dos questionamentos, foi solicitado aos professores que citassem algumas ações consideradas importantes para a redução dos índices de evasão da EJA nesta escola e o mesmo se traduz nas falas a seguir:

“É preciso, antes de qualquer coisa, reorganizar o Projeto Político Pedagógico da escola, pois este documento orientará todas as ações desenvolvidas na escola”. (entrevista, 2011).

“Oferecer aulas mais dinâmicas; criar um ambiente mais atrativo; trabalhar para aumentar a auto-estima dos alunos; motivar os professores”. (entrevista, 2011).

“Criar alternativas educacionais apropriadas aos alunos da EJA, pois esse público é específico, tem suas peculiaridades (...). (entrevista, 2011).

Diante dos relatos, constata-se que a evasão está interligada a muitos fatores, intra e extra-escolares e cabe à escola refletir e questionar sobre o seu verdadeiro papel e buscar metas e ações que possam amenizar esta problemática.
Assim, é preciso considerar que o problema da evasão escolar está dentro de um amplo contexto e que os fatores sociais e econômicos interferem neste quadro, mas as escolas não estão ainda preparadas para lidar com os problemas extra-escolares. É preciso buscar formas eficientes e eficazes para construir uma EJA comprometida com a formação humana, considerando quem são esses sujeitos e valorizando suas especificidades, e isso só será possível se houver o comprometimento de todos os envolvidos no processo educativo.

5- CONSIDERAÇÕES FINAIS

A evasão escolar é um problema complexo, que faz parte da realidade do processo educativo em âmbito nacional, e que se faz ainda mais evidente na modalidade da educação de jovens e adultos, visto que trata-se de sujeitos que já passaram pela fase de desenvolvimento psicológico e que já trazem consigo conhecimentos, valores e atitudes muitas vezes desfavoráveis para o processo de aprendizagem.
Diante dos estudos e questionamentos realizados no decorrer deste trabalho, pode-se ter um diagnóstico mais aproximado dos principais motivos que levam ao alto índice de evasão na Escola Estadual Maria Meriam dos S. C. Fernandes, constatando-se que tais motivos se fazem presentes também na maioria das escolas públicas do país, o que leva ao entendimento de que são necessárias políticas públicas mais eficazes no sentido de assegurar a universalização da educação e garantir não somente o ingresso dos estudantes na escola, mas sua efetiva permanência durante todo o processo de formação escolar.
Considerando que a pesquisa realizada apontou a falta de interesse dos alunos como um dos fatores mais relevantes na evasão escolar, torna-se imprescindível indagar, o que a escola e os educadores podem fazer em relação a isso, nos limites de suas atribuições? Será que as práticas metodológicas aplicadas pelos professores estão convergentes com a proposta da EJA? A motivação é fundamental para qualquer atividade humana, nesse sentido, para despertar o interesse dos alunos, cabe aos educadores desenvolver estratégias para resgatar entre estes a vontade de aperfeiçoar seus conhecimentos, estimulando-os a pensar e agir de forma crítica e consciente, possibilitando o entendimento de que a educação é fundamental para seu processo de inclusão à sociedade. Nesse sentido, PICONEZ (2002) observa que:
 “[...] ainda que admitamos que a educação dependa de decisões políticas, a verdade é que qualquer mudança concreta no sistema educacional tem no professor seu principal agente mediador entre a educação escolar e a sociedade em que ela está inserida” (PICONEZ, 2002, p. 11).
Nessa perspectiva, é primordial que o sistema público de ensino, priorize a oferta de uma educação de qualidade e ofereça aos professores que atuam na EJA uma formação permanente específica para esta modalidade, tornando-os efetivamente capazes de atuar de forma positiva na vida escolar destes estudantes dando-lhes oportunidades de se tornarem cidadãos autônomos, críticos e conscientes.
Outro ponto de grande relevância observado nesta pesquisa é quanto à incompatibilidade dos horários de trabalho dos alunos, com os horários da escola, nesse aspecto, a oferta de horários flexíveis para atender a necessidade dos alunos trabalhadores merece uma atenção especial, visto sua especificidade.
Diante das diversas situações apresentadas neste estudo, pode-se perceber que muitos são os fatores preponderantes na questão da evasão escolar, principalmente na EJA, dentre eles, fatores sócio-econômicos, culturais, políticos e históricos que se interligam aos fatores internos da escola, ocasionando, de forma cada vez mais acentuada uma desestruturação humana. Mas, cabe, principalmente à escola, ter uma visão mais consciente de sua importância e mobilizar seu corpo docente para que haja o resgate de valores inerentes ao conhecimento, onde cada um faça sua parte com empenho e responsabilidade. No entanto, não se pode ignorar que a evasão escolar também é responsabilidade de todos os segmentos sociais, e que as políticas voltadas para a valorização da educação devem ser eficazes e atuar de forma conjunta na busca pela minimização da evasão escolar.



6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AQUINO, Júlio Groppa. Erro e fracasso na escola – alternativas teóricas e práticas. 2ª ed.São Paulo: Summus, 1997.

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Guiovane Alves
Enviado por Guiovane Alves em 28/10/2011
Reeditado em 25/02/2014
Código do texto: T3302393
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Guiovane Alves
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