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SE FICAR, O BICHO COME...


“A escola, pouco a pouco, assumiu um perfil quase familiar,                    e os pais, pouco a pouco, se colocaram no papel de auxiliares do ensino escolar “

Rosely Sayão


A suspensão tem sido a última e mais radical  medida , tomada pela escola, para tentar alertar os pais quanto às dificuldades de seus filhos para se adequarem às mínimas normas de boa conduta, estabelecidas pelas instituições de ensino, e criadas para que haja respeito aos demais colegas de sala e aos professores que matam um leão por dia para conseguir realizar  bem seu  trabalho, ou seja, dar aula.
Mas alguns pais não entendem a mensagem.
Alguns chegam a sugerir , por escrito, em cartas manuscritas endereçadas aos administradores e educadores do colégio , se “ não seria interessante, ao invés de deixar o aluno em casa, fazê-lo se ocupar na escola , de algum trabalho referente ao seu erro”  .
Possivelmente a diretora de um colégio municipal de Petrópolis, Maria do Rosário, seguiu à risca a sugestão de uma dessas mães: colocou um dos alunos que estava sem uniforme para limpar banheiros e salas de aula.
Conseqüência : foi parar nas páginas da revista  Época , numa nota denominada “Humilhação na sala de aula” .
Isso posto, e não tendo como objetivo agradar a gregos e troianos, o educador deve agir de acordo com suas convicções e princípios , não tendo a preocupação de, no final do ano, ser convidado  para ser patrono ou patronesse nas formaturas.
O professor Júlio Groppa Aquino , da Faculdade de Educação da USP , foi muito feliz em seu artigo intitulado “A dor da lucidez”, publicado na Revista da Educação: ele propõe , contra o  que denomina “afeto pedagógico” , uma antítese cabal : a solidariedade intelectual.
“Trata-se da atitude daqueles que não desejam nem fomentam nenhuma admiração pessoal, nenhum compartilhamento de intimidade, nenhuma sedução para agradar a freguesia.  São rigorosos, mal-humorados até, exatamente porque não negociam com seu posto profissional. Pagam um preço alto por suas escolhas. Apenas alguns alunos , talvez, os compreenderão mais tarde, quando já não estiverem mais por perto. Com eles aprendemos que só pode haver educação onde houver gerações em saudáveis confrontos. De um lado , o mais velho lutando para impor um olhar voltado ao passado, um olhar vagaroso e atento aos detalhes do mundo. De outro, o mais novo , lutando com todas as forças para não deixar macular seu olhar inaugural sobre a vida, um olhar quase sempre plasmado no presente e suas exigências.  Dessa mútua incompreensão nasce, lentamente, o germe da solidariedade intelectual: uma atitude que em nada se assemelha ao comungar, respeitar ou dialogar, mas antes ao constranger, rivalizar, guerrear — sempre em nome de determinadas idéias que merecem durar no mundo quando dele já tivermos desertado. Uma atitude de interpelação constante, sem limites, sem piedade. A atitude de um Professor. E ponto final “.
É como disse Rosely Sayão, psicóloga e escritora , em seu artigo “A difícil relação entre pais e escola”, na Folhaequilíbrio : “ vida escolar significa, também, aprender a viver coletivamente, a conviver com situações nem sempre agradáveis, a se frustrar por não conseguir o que queria, a sofrer por ser apenas mais um entre tantos”.
A vida escolar deve ser um vestibular  para  a universidade da vida.
Prefiro ficar, e ponto final.
Tórtoro
Enviado por Tórtoro em 13/07/2005
Código do texto: T33856
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Sobre o autor
Tórtoro
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 67 anos
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