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Vandalismo ou desespero?

Em sete meses permaneci calado. Fiquei torcendo pelo ídolo da classe trabalhadora. Nós, tão pobres de heróis e com tantos ídolos forjados pela tela maravilhosa da tv ou do cinema, embora tão efêmeros, pois feitos de ilusão.

O Brasil precisou de quatro eleições seguidas para conduzir à Presidência da República um legítimo representante do povo. Os que pensam criticamente a nossa sociedade, e estavam ao lado de Lula, se sentiram premiados. Agora o Brasil seria de todos. Passou a festa da posse e deu-se início à ressaca da realidade. Nosso país, combalido de tanta exploração, sem resistir à recolonização pelos organismos representantes do Capital Internacional, submisso às políticas do Banco Mundial e do FMI, tinha um desejo coletivo de vingança, pelas mãos do Presidente “trabalhador”, também explorado, um indivíduo com cheiro de povo que levava a crer que a esperança venceria o medo e a exploração iria acabar.

Ouvi muita gente na campanha dizer que o poder cega e iguala todos num mesmo saco de farinha. E eu, revoltado, defendia. É culpa do Capitalismo que impõe sacrifícios à maioria para o benefício dos mais ricos, sejam países, grupos econômicos ou famílias.

Já repararam na forma de abraçar e de sorrir do Presidente, tão diferente daquele candidato! E a sensação de poder? No discurso, há do abrandamento de posições à negação total do que foi defendido em campanha. O FHC mandou esquecer o que escreveu. Quando o Lula pedirá para esquecermos o que disse?
E ficamos diante da televisão pasmados, incrédulos lendo nos jornais, engolindo comparações do tipo ser “inadmissível um professor universitário se aposentar com 55 anos e um cortador de cana com 60”. Lula, entenda um princípio básico, a natureza de duas profissões não pode ser comparada. Eu até poderia estudar a técnica de cortar cana (se o salário fosse vantajoso), fazer mestrado em facão, doutorado em arrumação de cana e ser pós-doutor pela Universidade do Canavial, mas jamais seria um usineiro. Somos classes antagônicas, esqueceu, companheiro? Ou poderia me alistar para juntar lixo no Rio de Janeiro, nenhum problema, ambas as profissões são dignas, indigno é o salário de quem as exerce. E não é por culpa do professor universitário. Mas, afinal, quem iria ensinar as nossas crianças para no futuro serem políticos, juristas e/ ou garis?
Volto ao título. Por ocasião do protesto dos servidores públicos, dia 06/08/03, contra a reforma da previdência, os noticiários tacharam os “servidores” que quebraram algumas vidraças do Congresso de “baderneiros”. O que levaria homens e mulheres a sair de suas casas para quebrar vidraças? Vandalismo ou desespero?

Se eu estivesse lá, o “companheiro” Presidente poderia usar em seus discursos um novo estigma para o professor universitário. Sugiro até a frase: Vamos limpar a Universidade desses professores vândalos. E eu, no meu desespero, mandaria você, meu Presidente, para umas aulinhas de como pagar empréstimos bancários a juros escorchantes; como livrar-se dos agiotas precisando deles; como comprar livros, manter um computador compatível com a atualidade do conhecimento; como escrever tese, assinar revista e jornal e, no dia da criança ser um pouco agradável, presenteando os filhos com, além de beijos e abraços, presentes, objetos de seus desejos infantis. Como não se desesperar, ser digno e não cair na tentação de jogar pedras, se as pedras estão no meio do caminho?
Gildemar Pontes
Enviado por Gildemar Pontes em 17/07/2005
Código do texto: T35169
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Sobre o autor
Gildemar Pontes
Fortaleza - Ceará - Brasil
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