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O negócio da China

     - a diferença dos 25 -
Bastava abrir o jornal e lá estava sempre o artigo de um ideólogo petista fazendo todo o tipo de malabarismo retórico para apresentar o partido sob cores favoráveis. Nada abalava aquela certeza cega que se demonstrava em relação a pureza do PT.
O partido chega ao seu jubileu de prata seguindo uma trajetória vitoriosa. Cresceu em termos institucionais, espalhou-se pelo território nacional, se estruturou, se modernizou e hoje está no comando do país. Ao mesmo tempo, foi também por esse percurso que o PT se burocratizou e se descaracterizou, distanciando-se de suas origens, até se tornar um partido entre outros: perdeu ou manteve apenas laços residuais com os movimentos sociais e de massa; viu a sua velha militância ceder espaço a um exército de mercenários nas campanhas; incorporou para si as estratégias de marketing que antes criticava na direita; tornou-se uma máquina eleitoral e passou a acumular escândalos à medida que foi conquistando governos; por fim, abandonou progressivamente suas bandeiras históricas para aderir à ortodoxia econômica liberal e a um discurso reformista de contorno suave e conciliador.
O partido decepou a velha esquerda por oportunismo baixo. Deixou órfãos alguns dos últimos movimentos sociais. Fundado para ser um partido socialista ou operário democrático, ao menos social democrata de fato, em menos de uma década tornou-se um partido do santo operário, aparelhado pelo sindicalismo de carreira, versão esperta do sindicalismo de resultados.
Em 1995, o cientista político César Benjamin, um dos coordenadores da campanha de Lula a Presidência, tomou conhecimento de que integrantes do partido estavam fazendo captação de recursos ilícitos. Alertou a todos, nada conseguiu e abandonou o partido.
Em 1997, o economista Paulo de Tarso Venceslau revelou que integrantes do partido estavam tomando dinheiro de prefeituras administradas pelo PT. Essa denuncia de Venceslau teve grande repercussão e ele terminou expulso do partido.
Em 2002, o prefeito de Santo André, Celso Daniel manda desativar um esquema para recolher dinheiro para o caixa do PT junto a donos de empresas de ônibus. O prefeito foi assassinado.
Em 2003, Fernando Gabeira, deixa o partido afirmando ter "sonhado o sonho errado" no PT.
A pureza ideológica era uma máscara para esconder a corrupção sistemática praticado pelo PT.
A grande filiação desconhecia, mas os partidários fundadores, os intelectuais e os que dizem ter dedicado os melhores 25 anos de suas vidas ao PT, sabiam de tudo e, como avestruzes, enterraram a cabeça na areia para não ver a bandalheira. Pois, esses esquerdistas achavam que os fins (fazer justiça social) justificariam os meios (assaltar a elite e o bolso do contribuinte para conquistar o poder). Os fins só ficou nos meios e jamais será atingido pelos dissidentes e adoradores de Fidel que teimarem oportunisticamente, vender novamente as mesmas esperanças, com os velhos discursos da ignorância de realidades econômicas básicas, chorumelas contra o "neoliberalismo" e jargões decorados do tipo: delinqüentes de luxo; elite dominante capitalistas e outros. Esses, antes de tentarem convencer a sua seita de seguidores, de serem os melhoristas dos velhos discursos, devem aprender as lições de 25 anos da política capitalista chinesa, o "negócio da China", que voou da miséria a riqueza.
Em 1980, partindo de um patamar de miséria, a China conseguiu crescer à média de 9,9% nos anos 80 e 10,3% nos anos 90. A China é doze vezes mais rica hoje do que 25 anos atrás. Sua economia equivale a soma das existentes no Brasil, México e Rússia. A entrada da força chinesa no capitalismo global será uma bomba com potência para produzir efeitos durante pelo menos, cinqüenta anos.
A China iniciou sua modernização em 1980, depois de trinta anos de aplicação de um estilo extremado de comunismo, que tinha chavões marxistas-leministas de uma lado e racionamento de gêneros alimentícios do outro. O trabalho físico era realizado com instrumentos medievais. As árvores eram consideradas simples combustível e os jardins, nada mais do que caprichos burgueses. O comunismo produziu um desastre econômico e ecológico na China.
As lutas de classe foram substituídas pela luta em prol da produção e da produtividade, com clara distinção entre partido e Estado, com redução acentuada na estatização, trocando a crença em slogans ideológicos por incentivos materiais
Combina-se na China uma fórmula de abertura econômica com autoritarismo político. Hoje em dia, no país de 1,3 bilhão de pessoas, o regime só é comunista e igualitário na retórica, estimulando a instalação de uma capitalismo extremado em certas áreas, com atenção especial para a atração de investimento estrangeiros. As autoridades chamam esse modelo de "socialismo com características chinesas".
O fenômeno asiático é de crescimento econômico ultra-rápido com dimensões jamais presenciadas. Na China florescem indústrias de automóveis (o país abriga a terceira maior do mundo), fabricas de produtos eletrônicos (a China, com 350 milhões de assinantes, tem a maior quantidade de celulares no planeta), produtores de peças para o setor aeroespacial, computadores, têxteis, calçados. Um quinto da humanidade estão sendo puxados pelos cabelos para fora da zona de miséria. Os chineses compram em supermercados de padrão ocidental e em shopping centers mais ricos (com as mais admiradas grifes internacionais) e maiores do mundo. Os cineses rodam em automóveis das marcas, Mercedes-Benz, BMW e Audi. Os aeroportos estão lotados de chineses tomando jumbos para viagens internas e na construção civil, elevam-se os mais altos edifícios do mundo, com arrojada arquitetura pós-moderna e restaurantes com culinária das mais sofisticadas e iguarias exóticas, como: serpentes; escorpiões e roedores, herança alimentícia da miséria onde tudo que se movia, se comia. Habitação popular, nas periferias enfileiram-se conjuntos de prédios de quarenta, cinqüenta andares para a massa trabalhadora. A China investe com volúpia na remessa de jovens talentos para doutorados no exterior. Além das redes públicas de ensino, foram abertas 1300 universidades privadas a partir dos anos 90.
O homem que está por trás dessa revolucionária mudança no status econômico da China não é normalmente colocado no panteão dos grandes estadistas do século XX, onde deveria estar. Seu nome é Deng Xiaoping, herói da modernização chinesa. Com pouco mais de 1,50 de altura, aos 92 anos, sem nenhum apreço por ideologias, Deng Xiaoping nunca achou que um regime de liberdade política pudesse manter nos trilhos uma população de mais de 1 bilhão de habitantes.
Mao Tsé-tung morreu em setembro de 1976 e Deng Xiaoping foi devagar limpando o terreno para a aplicação daquilo que era sua idéia de "revolução". A partir de 1980, anunciou reformas das instituições econômicas e políticas da China que levaram o país ao crescimento acelerado. Para as multinacionais que queiram instalar-se na China, o governo reduz os impostos, dá isenções, permite remessa total de lucros para o exterior. A carga tributária é baixa, os juros estão por volta de 5% ao ano e a inflação em torno de 1%.
Hoje, com uma reserva de 700 bilhões de dólares, é a China que financia o gigantesco déficit público americano, comprando títulos dos Estados Unidos.
Passou-se 25 anos, os Sapos daqui, os desbravadores da esperança, prisioneiros de uma ilusão, estão se afogando em seus lodaçais, e lá do outro lado do mundo, os Dragões cresceram muito mais do que se esperava.

Fonte:
Folha de S.Paulo: 09/02/2005
Revista Veja, edição 1920 - ago./2005
Plínio Sgarbi
Enviado por Plínio Sgarbi em 05/09/2005
Reeditado em 05/09/2005
Código do texto: T47849
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Plínio Sgarbi
Jaú - São Paulo - Brasil, 54 anos
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