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A NOVA ESCRAVIDÃO



Outro dia ouvi uma amiga relatar que havia comprado quase R$1.000,00 apenas em lingerie no shopping. Confesso que assustei com o que ouvi e meu primeiro pensamento foi: “Puxa, essa não sabe economizar mesmo, onde já se viu gastar dinheiro com tanta futilidade?”. Um momento depois já estava arrependida de ter pensado. Comecei a me recordar das inúmeras aulas de História que enfocavam o início do capitalismo, seu surgimento e todas aquelas teorias famosas que conhecemos. Afinal, com a evolução da sociedade capitalista só poderíamos parar onde estamos mesmo: no consumismo desenfreado e escravista. Ao ir para o trabalho me deparo com inúmeros outdoors que vendem de tudo: carros, restaurantes, aluguéis de casas e etc. Tudo acompanhado de tarjas indicativas de consumo. Com o salário mínimo a R$ 300,00 fica difícil manter uma família na atual situação econômica do país. Porém, mesmo aquelas famílias mais simples já possuem pelo menos um aparelho celular e com certeza, em algum canto do barracão há um televisor ligado na Globo.
Lembro de ter lido um artigo há um tempo atrás que falava sobre a sociedade imperial. Naquele tempo, muitas famílias adquiriram um piano, instrumento aristocrático, símbolo de elegância e bom gosto. Havia pianos de cauda e de armário, comprados à vista, em segunda mão, alugados ou por meio de crediários. Mesmo que o piano virasse um  objeto desnecessário, a procura era grande porque realizar saraus, bailes e serões dava status, era moda. De lá pra cá, nota-se que quase nada (ou mesmo nada) mudou. Uma roupa comprada em lojas populares, mesmo encontrando-se similares em grandes butiques, não tem valor algum perante os olhos da sociedade, que valoriza as mais importantes grifes da moda. Comer em um McDonald’s é sinal de interação, de valorização daquilo considerado bom e, claro, no alvo da moda. Com isso, esquece-se das tradições, dos costumes e até da valorização do que realmente nos importa em detrimento do consumo pregado principalmente pela mídia. Todos os dias somos bombardeados com mensagens consumistas, que nos instigam a gastar até aquilo que ainda não temos apenas para nos posicionarmos melhor diante dos olhos alheios. Os chamados “dias comemorativos” – Dia das Mães, Páscoa, Dia das Crianças – perdem seu real significado ao ligarmos a TV ou o rádio e escutarmos os comerciais nos oferecendo os mais sofisticados eletrodomésticos, brinquedos ou os chocolates importados.
Analisando tantas situações como estas, chego à conclusão que não deveria ter recriminado minha amiga. Ela é apenas mais uma vítima da “nova escravidão” que o mundo está passando. Assim como aquela escravidão conhecida, onde os negros ficavam presos por grilhões e submetidos aos mais cruéis trabalhos e castigos, estamos vivendo uma escravidão inconsciente e bem mais perigosa. Uma escravidão onde somos tentados de diversas formas e não nos damos conta de suas conseqüências e nem de que estamos afundando nela dia após dia. E não há exceções: todos estão sujeitos a ela. Talvez os menos favorecidos, aqueles que ficam à margem de tudo que acontece, estejam mais suscetíveis, porém isto não descarta a alta classe de estar inserida também. O capitalismo talvez encontre seu desgaste,mas ainda teremos alguns problemas com a escravidão do novo milênio: a escravidão que não discrimina raça, classe ou cor.

Lívia Paiva Ribeiro
Enviado por Lívia Paiva Ribeiro em 06/09/2005
Código do texto: T48213
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Sobre a autora
Lívia Paiva Ribeiro
Uberaba - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
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Lívia Paiva Ribeiro