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A FORÇA DO SEXO

A força do sexo, e da fome, e da sede, e do sono, e da necessidade de ir ao banheiro... Ou seja: A FORÇA DA NATUREZA. Força que todos conhecemos, experimentamos no dia-a-dia, e nem sempre compreendemos ou encaramos com naturalidade.

Quero me deter aqui na força do sexo por ser ela a mais incompreendida e a que mais perturba. Todo mundo entende a fome. Ninguém reprovaria alguém que pedisse um pão porque tem fome. Entretanto, como reagiríamos se alguém nos abordasse na rua e dissesse: por favor, me dá sexo que estou morrendo de vontade? (risos) Escândalo, chama a polícia, tem lei pra isso... Entretanto, a fome de pão é tão natural como a fome de sexo.

Por que raciocinamos, o mistério milenar que envolve o sexo nos envolve a todos. Não conseguimos ser naturais como os animais, nossos companheiros de espécie mas destituídos de raciocínio. Nosso raciocínio carrega toda uma carga de informações, de conceitos ideológicos, pseudocientíficos, religiosos. Na nossa mente estão gravadas frases antigas como “tira a mão daí”, “isso é feio”, “é pecado”, “faz mal”... Então desenvolvemos todos um jogo de sedução que não deixa de ter sua validade e seu sabor, mas que é um jogo e nem sempre se ganha nesse jogo. Não conseguimos ter a simplicidade de desejar alguém, olhá-lo de frente e dizer simplesmente “eu te desejo”, “me dás tesão”... Como diríamos a qualquer um: “me dá um pedaço do teu lanche que estou com fome”...

Somos os grandes beneficiários da recente revolução sexual que abriu todas as comportas e quebrou todos os tabus. E nos acreditamos livres e libertos. Vivemos num tempo onde basta dar um clique, invadir a internet, entrar numa sala de sexo, fazer um contato e colocar para fora todos os nossos demônios, de forma até certo ponto segura, sem medo de qualquer censura, escondidos em apelidos que nos garantem o anonimato. Ali sim, chamamos o(a) companheiro(a), convidamos, insinuamos ou dizemos abertamente do que gostamos e como gostamos, nenhuma ou quase nenhuma inibição, em poucos momentos estamos nus, falando com a linguagem que quisermos sobre o nosso prazer e sobre o prazer do outro. E saímos até satisfeitos sem perceber que ficou a frustração da falta da pele, da falta do som, da falta do contato físico essencial e indispensável. Mas foi melhor que nada... E isso sem contar os virtuais telefônicos, onde pelo menos o som é fator desencadeante de orgasmos um tanto mais próximos do real, mas também frustrante.

Estamos num tempo em que se multiplicam os sexshops. Neles encontramos todo tipo de objetos que nos excitam e nos levam à excitação e posterior orgasmo. E, com a ajuda deles, fazemos o que eu chamo de “o amor sozinho(a)”. Sim, não há nenhuma dúvida quanto à validade da masturbação, hábito saudável e já liberto de rótulos mentirosos e obtusos. Com ou sem os “brinquedinhos” que podemos comprar facilmente, cada vez mais conhecemos nosso corpo e suas exigências. Essa a vantagem do amor solitário. Ele vai ser grande suporte para o amor a dois.

A inspiração para escrever essas reflexões eu tive ao ler o conto de Fernando Tanajura - “Anna Louca”. Se você não leu, leia. Anna teve um casamento feliz, ficou viúva e se entregou à tristeza, reprimindo desejos. Depois de anos absolutamente só, represando qualquer sinal de desejo sexual, resolveu ligar o computador que o marido deixara e acessou uma sala de sexo, onde, dentre os muitos convites, encontrou o amante que precisava. Retomou a alegria, saiu de sua concha e era feliz com o sexo virtual. Um dia, tendo quebrado o micro, entrou em desespero, confusa que já era, e enlouqueceu de vez.

É um conto, mas nos dá a indicação de um perigo que corremos. E aqui falo especialmente com a mulher, secularmente reprimida em sua sexualidade. Pensar em loucura pode ser exagero, talvez não existam mais mulheres reprimidas como Anna. Mas pensar em depressão é algo bem razoável, tão comum é esse mal. Existem ainda muitas que não se admitem livres o suficiente para procurar seus caminhos, opções outras que não seja um casamento certinho e muitas vezes também repressor. E muitas que, dentro de um casamento, pouco sabem de prazer. Tentemos abrir nossas mentes para nossa natureza rica e sábia, essa que nos faz sentir fome e sede, da mesma forma que nos faz sentir o desejo, o tesão. Tentemos manter um equilíbrio razoável, mas lancemos mãos do que temos à disposição: o virtual, o telefone, os brinquedinhos e, principalmente, nossas mãos carinhosas e companheiras. Não é feio, não é vergonha, ao contrário, é criativo e realizador. E vamos caminhando para o dia de mantermos esse diálogo simples, puro e verdadeiro:
- Oi, estou com fome...
- Quer pão?
- Não. Quero você!
- (RISOS...)

Esse deve ser o diálogo dos bichos quando se procuram e se amam. Sem pedirem licença para serem naturais. Sem vergonha do cio.
Sal
Enviado por Sal em 21/10/2005
Reeditado em 21/10/2005
Código do texto: T61775
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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