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A TELEVISÃO DESALFABETIZA AS PESSOAS?

Arnaldo Pinheiro Mont’ Alvão Júnior*
Leodete de Sousa Rocha**
Elismar Bertoluci Araújo Anastácio***


RESUMO: Com um interminável aumento de telespectadores e a violenta procura das empresas para conquistar infinitos espaços na acirrada concorrência do mercado, as emissoras ditam as regras, transformando os cidadãos em aplicados alunos na lição de consumir. Os programas de televisão são de péssima qualidade, mas possuem um poder de deixar os telespectadores num estado de torpor eterno. Diante desse parâmetro, nasce uma preocupação dos profissionais da educação: como evitar que a televisão desalfabetize nossas crianças? Partindo desse pressuposto, pesquisas bibliográficas foram realizadas visando colaborar com a comunidade escolar, trazendo as concepções de alguns profissionais da educação de forma mais coesa, conduzindo o cidadão a  refletir sobre o uso adequado desse veículo.

Palavras-chave: Televisão, educação, banalização, competência do professor, influência.

1.  INTRODUÇÃO

Devemos atentar com mais responsabilidade, tato, minúcia e como verdadeiros pesquisadores, quanto ao poder que a televisão (TV) exerce sobre os cidadãos, seja na educação, seja na formação de opinião pública. Informar é uma das funções mais pertinentes que o meio de comunicação de massa deveria proporcionar aos telespectadores, além de educação e lazer. Razão essa, que nos levou a realizar uma pesquisa bibliográfica, como o objetivo de colaborar e dividir nossos anseios com relação ao verdadeiro papel da televisão, bem como sua intencionalidade para com os consumidores.  O tema proposto nesse artigo “A televisão desalfabetiza as pessoas?”, será apresentado com base em coletâneas de diversos artigos publicados. Para isso, abordaremos os seguintes tópicos: mídia e educação,  como a mídia faz a sua cabeça e a formação do telespectador.


*   Então acadêmico do 6o Semestre do curso de Letras na UNIDERP – Licenciatura Plena e Bacharelado, Campo Grande-MS, 2003.
** Acadêmico do 6º semestre do curso de Letras na UNIDERP – Licenciatura plena, Campo Grande-MS, 2003.
*** Professora orientadora.
2.  OS EFEITOS E FUNÇÕES DA TELEVISÃO


Hoje, a televisão é o veículo de comunicação mais utilizado pela população. A facilidade que tem de persuadir o telespectador com imagens, sons e diálogos rápidos, faz da mídia uma fábrica de devaneios, ampliando seus horizontes e preocupando os profissionais da educação desde a década de 80:
[...] teme-se que as imagens estejam criando futuras gerações de não-leitores, fazendo diminuir o interesse dos jovens pela leitura de livros, e também obstaculizando sua capacidade de expressão tanto verbal como escrita (MARCONDES FILHO, 1988, p. 102).
Por ser um veículo de comunicação em massa, as grandes empresas procuram os canais de TV para divulgar seus produtos e suas marcas. Quanto maior a audiência, maior será a procura pelo programa e mais caro será o preço da propaganda. O principal objetivo das emissoras de televisão é promover programas campeões em audiência, travando uma guerra onde quem perde são os cidadãos.
A qualidade dos programas que as emissoras criam, piora a cada dia. Os programas não exigem raciocínio e não permitem uma reflexão devido à velocidade em que são exibidos. Não trazem assuntos interessantes e iludem as pessoas com uma promessa de milhares de prêmios, fama e sucesso. Um exemplo disso é a programação de domingo. Enquanto uma emissora mostra mulheres seminuas se insinuando o tempo todo diante das câmeras de TV, uma outra oferece um caminhão cheio de móveis e eletrodomésticos com uma casa e um carro na garagem, deixando os telespectadores vidrados na frente da televisão.
Não há convivência familiar diante da TV. A sala de televisão transforma-se em sala de jantar, o pai não brinca com o filho para assistir ao programa de esportes, a esposa não conversa com o marido para não perder a novela, os irmãos não querem brincar porque está passando o desenho do Pica-pau, e assim por diante. Segundo Bucci (2002c), professor de Ética Jornalística na Faculdade Casper Líbero,  é impossível tirar a TV do nosso mundo. O Brasil pararia de funcionar, seria um país fora do mundo e fora de si.



E não é somente a qualidade dos programas que preocupa os profissionais da educação. Outro inquietante ponto, mas muito despercebido pela população, envolve o nosso inocente futuro: as crianças assistem, em média, 6 horas por dia de televisão. Estão sendo alfabetizadas pelas imagens, aprendendo a ler marcas e logotipos. Querem comer o sanduíche, vestir a roupa, beber o refrigerante, colecionar somente aquelas figurinhas que viram na propaganda da televisão. Destarte, as emissoras vão educando-nos, transformando-nos em aplicados alunos do capitalismo - grandes consumidores de produtos de seus clientes.
Os pais se acomodam com isso. Preferem ter seus filhos presos em casa assistindo TV, do que vê-los nas ruas, expostos ao perigo. Essa conformação impede que simples soluções venham à tona, pois não vêem o prestígio de substituir o televisor por belos livros e atividades pedagógicas.
As crianças estão expostas a uma imensa rajada de programas de TV que trazem assuntos fúteis, prejudicando o desempenho de seus raciocínios. Além disso, os programas prejudicam o processo ensino-aprendizagem, caracterizando a escola e os educadores de forma terrível. Na lhaneza de um desenho animado, observa-se vários fatores que prejudicam a imagem do professor: as personagens são castigadas, sendo obrigadas a se trancarem em seus quartos para estudar. E sempre vão chorando para a escola, querendo ir embora com os pais. A professora é aquela figura terrível. Uma mulher malvada, feia e fedida que grita com seus alunos, despeja tarefas difíceis e reprova todos.
O mesmo fato ocorre quando se trata de programas para adolescentes. Os alunos sempre estão conversando na sala de aula com o professor fazendo fundo musical para a fofoca: [...] Trabalho, estudo, religião, arte, essas esferas em que de fato a vocação humana pode se realizar, não passam de esferas coadjuvantes. Bucci (2002a).  E realmente, personagens de seriados não trabalham, não criam, não lêem e não estudam. Colam nas provas, matam aulas, conversam enquanto a presença do professor não faz nenhum efeito. As matérias são utilizadas apenas para ilustrar ou introduzir uma discussão de viagens, curtição, etc.

Preocupadas com esse panorama nacional, entidades, fundadas e administradas pelas mesmas emissoras, criam programas de TV voltados para a educação. São aulas divertidas onde lindos, jovens e sorridentes atores apresentam as matérias de uma maneira simples, objetiva e descontraída. Não existe apostila, caderno, lápis ou qualquer outro material que lembre da escola. “Aprenda brincando” é o fabuloso clichê utilizado pelos programas educadores.
Então, cria-se um mito de que o aprendizado somente é possível quando trabalhado dessa forma. E a imagem da escola é outra vez banalizada. O conteúdo proposto nas salas de aula passa a ser transmitido de forma arcaica, giz e quadro-negro, com aquele professor barrigudo falando o tempo todo e fazendo piadinhas sem graça para prender a atenção dos alunos. Agora, as aulas na escola são enfadonhas e não se aprende nada nelas.
Para Bucci (2002d), [...] existe hoje um endeusamento da TV como ferramenta da educação. É um endeusamento indevido. O raciocínio não é entretenimento, mas trabalho mental. Não se aprende a raciocinar vendo TV... A TV pode ajudar o professor, mas jamais substituí-lo. Pode até ilustrar as lições, mas jamais guiar o pensamento abstrato, feito de palavras e números.
Assistir muito TV é bloquear o nosso pensamento, descaracterizar a nossa criatividade, impedir o nascimento de idéias e conclusões próprias.
Em artigo da revista Nova Escola, Bucci (2002b) faz referência a Platão dizendo que [...] aquilo que percebemos com os sentidos (paladar, tato, olfato, visão e audição) é apenas o primeiro passo na caminhada do conhecimento. Os passos seguintes são dados não mais com os sentidos, mas com o pensamento.
É necessário dosar com medidas corretas a apreciação pela televisão, pois, vista por um outro lado, a TV não passa de um aparelho quieto e inofensivo quando está desligado. Devemos fugir da ganância e do poder de hipnose das emissoras, encarando esse mal com uma correta disciplina. É uma forma de entretenimento, mas não a única. Pode ser utilizada na educação, mas nunca assumir completamente o controle dela.


3.  COMO A MÍDIA FAZ A SUA CABEÇA


Quem não se lembra da inocente e criativa propaganda da Coca-Cola? Pode-se dizer que é uma das mais veiculadas na superfície terrestre. Ela é tão profunda que atinge toda camada social e seres que mal conseguem pronunciar a palavra “papai”: as crianças que ainda estão iniciando seu processo de alfabetização; apesar de não possuírem competência lingüística (leitura). São seduzidas pelas cores, sons, imagens, etc. Mesmo sendo iletradas, ao passarem diante de um “outdoor”, propagandas em revistas, bares, jornais, mercearias e mercados que ostentam o logotipo Coca-Cola, elas fazem associação e dizem com entusiasmo: Coca-Cola!
O que está em jogo, porém, não é o fato delas estarem ou não preparadas para saber discernir o supérfluo da necessidade, mas o prazer que o produto proporciona. Neste caso, alegria, lazer, fantasias, alívio, frescor... De tanto ser veiculada no ar, com cores vibrantes, como o vermelho, uso do verbo na forma imperativa, beba, e atualmente com a presença de seres pertencentes a contos de fadas, sete anões,  ela atinge a todos. Basta ligar a televisão, e o telespectador recebe uma ampla carga de imagens, sons e movimentos que agem no seu subconsciente, levando-o ao consumo. Entretanto, cabe aos pais, às pessoas letradas e instruídas, o dever de conduzir de forma clara e objetiva, os efeitos e dimensões que a mídia faz para atingir sua cabeça.


4. FORMAÇÃO DO TELESPECTADOR

A ciência e a própria língua evolui, barreiras são ultrapassadas, surgem novas descobertas, padrões e estilos de vida sofrem alterações. Tudo isso graças à tecnologia. Logo, o homem deve estar atento a essas mudanças e preparado de forma que não seja ultrapassado e substituído por uma máquina.
E a TV, onde fica nesse contexto? Com certeza ela não é perfeita, nem tão pouco tirânica como veremos: [...] A banalização das cenas de violência e sexo tem conduzido telespectadores à imitação de seus ídolos. É ingênuo pensar que a tevê pode abrir mentes ou fechá-las entupindo pobres crianças com valores horrendos (OLIVEIRA; LOMBARDI, 1997, p. 59).
Podemos observar que nesse discurso os autores têm opiniões distintas, mas que servem para refletirmos. Esse meio de comunicação de massa depende da aceitação do público. Afinal, excetuando os absurdos gritantes como deturpação de costumes de um determinado grupo social representado numa novela; preconceito, sexo e leis básicas de trânsito, entre outras, ela cumpre seu papel: “informar”.
Partindo desses princípios, devemos levar em consideração a idade, o meio social, o grau de instrução, bem como o contexto que o telespectador está inserido. Hoje é notável que os pais trabalham fora o dia inteiro. Mal têm tempo para levar os filhos à escola. Resultado: a criança fica a mercê dos empregados, que infelizmente possuem um grau mínimo de instrução. E à televisão, cabe o papel de educar, pois há pesquisas afirmando que elas ficam diante da TV por aproximadamente seis horas diárias. E finalmente, a escola complementa esse ciclo vicioso.


5. CONCLUSÕES

Que será desse futuro cidadão que cresce sem saber pelo menos os limites. Como se explica o porquê de cinco jovens de classe média atearem fogo num índio, em Brasília. E o caso mais recente da jovem de São Paulo, com ajuda de seu namorado e cunhado, exterminou a vida de seus próprios pais. Estes e outros acontecimentos são explorados e manipulados pela imprensa que acaba tornando um pesadelo para o telespectador. É o caso de o Congresso fazer leis limitando a liberdade de imprensa? Por que criar uma lei específica sendo que inexiste para médicos, advogados, engenheiros, etc? Agindo assim não iria de encontro à Constituição/1988? Como fica o verdadeiro papel dos pais frente a essa problemática?
Contudo, é necessário que as informações transmitidas pelos pais às crianças, sejam eficientes, claras e objetivas, assim como os produtores de “Marketing” expõem seus produtos. Para isso, é importante saber que a TV tem muito poder, mas a influência dela sobre nossos filhos depende da forma como os pais ensinam o que acreditam ser o certo e o errado. Eles não podem se esquivar dessa função. Da mesma forma, o educador pode e deve utilizar esse meio auxiliar em sua sala de aula. A escola deve ser o local de reflexão e de situações de aprendizagem, não espaço de transmissão e recepção do saber. No entanto, deve-se mudar o jeito de ensinar, pois a TV não desvaloriza quem ensina e jamais poderá ser utilizada como uma válvula de escape ou muleta pelo educador. Mudar não é fácil nem rápido, mas é absolutamente urgente e necessário para não ficar atrás do novo milênio. Educar não é passar conteúdos, mas prepará-los para a vida numa sociedade moderna e exigente.

REFERÊNCIAS

BUCCI, Eugênio. A aula virou fundo musical. Nova Escola, São Paulo, n. 154, 2002a.
____________. Ler imagens e criticar imagens. ____. São Paulo, n. 153, 2002b.
____________. Minhas férias. ______. São Paulo, n. 155, 2002c.
____________. O raciocínio e o entretenimento. ____. São Paulo, n. 150,2002d.
MARCONDES, Ciro Filho. Televisão: a vida pelo vídeo. São Paulo: Moderna, 1988.
OLIVEIRA, Siro Darlan; LOMBARDI, Carlos. Você acha que as novelas prejudicam a formação das crianças? ISTOÉ, São Paulo, p.59, 1997.



Arnaldo Pinheiro Mont Alvão Júnior
Enviado por Arnaldo Pinheiro Mont Alvão Júnior em 22/08/2007
Código do texto: T619407

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Sobre o autor
Arnaldo Pinheiro Mont Alvão Júnior
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 35 anos
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