Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Uma Rosa para Tristão Araripe

Triste Ana, triste Tristão. 1824. Seca, fome, guerra e peste. O cenário é infernal, a dor geral. A mais bela república do Brasil começava a ruir. Tristão Araripe, seu comandante supremo, sua legenda viva, está só. Restam-lhe poucos: a mãe Bárbara de Alencar, o irmão Alencar e uns poucos que o acompanham até o fim. Triste fim. Sem Ana, a mulher, a revolucionária, a articuladora, a mensageira da Independência e da República, sem os filhos. Traição por sobre traição, deserções, vis ambições, incontáveis assassinatos, vinganças, morte por sobre morte - Leonel Pereira de Alencar, o filho Raimundo e mais 8 parentes são trucidados em Jardim. Bela Jardim ensangüentada.Tristão, nobre Tristão, entre velhacos, resiste. Recusa o falso perdão imperial, a fuga oferecida para os Estados Unidos. Tristão consciente, Tristão romântico, corre pra lá e pra cá a salvar a sua, a nossa Confederação. Conquista e reconquista Aracati e Fortaleza. A Inglaterra, Império do Império Português, quer sua cabeça, oferece recompensa. Faminto, o sertão dos homens desesperados caça sua cabeça de ouro. Tristão luta, até o fim o guerreiro luta.Acossado, naquele barranco jaguaribano de Santa Rosa, sozinho, o primeiro Presidente republicano da primeira República do Brasil resiste. A hora é final, toda hora é final. Fatídico 31 de outubro. Terrível manhã. Todo tiro é brutal, enorme, e vara-lhe o peito, abrindo-lhe um rombo enorme. Tiro desnecessário, puro horror, crueldade por sobre crueldade. Miséria humana total. Cortam-lhe a mão de tantos belos gestos, calam-lhe a voz da Independência, da República, do Abolicionismo, e jogam-lhe pedras por vários dias. Dias imensos, o sol ardente, Tristão insepulto, de braços abertos, amarrado a uma pereira negra. Negro vulto ressequido e evitado. Espantalho vivo da República.Traído e abandonado é como um Cristo amaldiçoado; despedaçado é como Tiradentes esquartejado. Mas não, mas não para sempre. Glória e consciência do porvir. Ninguém amou o Ceará mais que ele. Houve um tempo em que a Confederação vitoriosa poderia ter se separado do Brasil. Bárbara de Alencar, mãe da Independência e da República do Brasil, não quis esta solução. Tristão sim, e ainda que sem discussão aceitasse os conselhos da mãe, quis o Ceará independente, e quem sabe o Ceará país.Romântica República dos romances imortais. Tristão Araripe e Ana, depois Triste de Alencar Araripe, é o mais belo e trágico dos nossos amores célebres. Visto o perigo ele mandou Ana e os filhos para a fazenda do Sitiá e foi para lá que procurou chegar quando o fim se avizinhou. Tivesse ele esquecido o Sitiá e talvez se salvasse, e a República do Equador. Tivesse ele não se desencontrado de Caneca, Filgueiras e Alencar , conforme sustenta Antônio Dantas Alencar, e talvez a Confederação tivesse sido vitoriosa. Tivesse. Belas hipóteses.Hoje é tudo sonho. Sonho e Glória. Legado. Mas 180 anos depois uma pergunta se impõe: por quem, por quais idéias lutaria hoje Tristão? Uma rosa para Tristão. Uma rosa para Ana Triste, triste rosa de Tristão.Oscar AraripePintor e escritor, ex-jornalista do Jornal do Brasil e do Correio da Manhã, hexaneto de Bárbara de Alencar e pentaneto de Tristão Araripe
Oscar Araripe
Enviado por Oscar Araripe em 25/10/2005
Código do texto: T63385
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Oscar Araripe
Tiradentes - Minas Gerais - Brasil, 75 anos
17 textos (1157 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 09:07)
Oscar Araripe