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"Eu sou um homem de pouca fé"_ARNALDO JABOUR_ Repasse

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Eu sou um homem de pouca fé

Arnaldo Jabor

Estou sendo moldado pela crise. Sinto martelos me esculpindo, sinto lixas em minha sensibilidade e aos poucos uma pele de rinoceronte engrossará meus sentimentos. Graças a Deus, estou perdendo esperanças vãs, ganhando uma nova sabedoria. Quando vejo o ministro Carlos Velloso, do STF, dizer que deu o hábeas-corpus para os malufes porque ficou com “pena do pai e filho na prisão”, percebo que sou um reles desalmado que só penso nos milhares de pretos e pobres que estão atrás das grades com pena cumprida, doentes, com Aids, tuberculose e descubro constrangido que meu coração ainda é primário, ideológico e que eu não capto a fina dor de Maluf e filho, nostálgicos dos 500 milhões de dólares desviados de obras públicas e com a felicidade da família árabe destruída pela solidão na cela da PF. Eu não sei o que é compaixão.

Quando me indigno ao ver que a Assembléia Legislativa de Rondônia absolveu os deputados filmados pedindo propina ao governador, percebo que minha desolação é romântica, pois ainda sonho com uma ética arcaica, ridícula no tempo atual, como bem ensinou a deputada Ellen “sei lá o quê”: “Ninguém pode consertar o mundo, por isso, me dá minha grana aí, porra!” Sim, reconheço que sou um idiota e que essa brava mulher nos lembrou que a História brasileira foi feita com a argamassa da corrupção, a prática dinamizadora dos políticos, muito além de vagos sentimentos “patrióticos”. Hoje percebo que, por baixo de aparentes roubalheiras, há um projeto de país em andamento. Tenho de mudar. Isso me dará um alivio moral, ver que meus pruridos são patéticos e que tenho de me alinhar com a pós-modernidade. Tenho aprendido muito com a crise brasileira. O PT me modificou bastante. Eles não mudarão jamais, pois são feitos de bronze como as estátuas soviéticas, mas eu mudei muito ultimamente. Como tenho aprendido com a férrea prática do que a direita chama insidiosamente de “mentira revolucionária”! Só ela é capaz de resistir aos ataques da mídia, essa raça a que pertenço, sórdida e neoliberal, vendida ao capitalismo selvagem. Santo Deus, como tenho aprendido com Dirceu em seu martírio triunfal, negando tudo para fugir da culpa. Na resistência de homens como Berzoini, duro burocrata, Mercadante, pálido de vergonha mas obediente à revolução, me dou conta de que sou um fraco, um invertebrado neoliberal, sem convicção no futuro socialista. Sou um homem de pouca fé quando critico a união dos chefes petistas expulsando o ex-empregado Delúbio Soares, que, chorando de dor e orgulho, se apresta a subir na fogueira, sorrindo com seus maus dentes, feliz em sua dor, pois salva os comandantes que sempre o orientaram na captação da grana da República (essa mentira burguesa...) para financiar o heróico movimento bolivário-tiradentista-lenino-dirceuzista-lulal . Como pude ser descrente, a ponto de não ver a grandeza de um partido que segue a mais pura tradição do stalinismo (afinal, um grande chefe...) e que faz crer à sociedade civil que dirigentes como Dirceu, o gramcio-stalinista Tarso Genro, Genoino, Gushiken, Gilberto Carvalho não sabiam de nada do que Delúbio organizava. O PT tem de sobreviver e, para isso, nada mais válido que jogar a culpa num delúbio inferior.

Assumo que sou um estraga-prazeres, perturbando a bovina fé da opinião pública em mentiras revolucionárias. Sou um reles incréu, quando ouso pôr em dúvida que o Banco Rural tenha emprestado 20 milhões de dólares ao Valério para ele emprestar ao PT, com um aval de que Genoino não se lembra. Como ouso afirmar também que essa mixaria de “caixa dois do mensalão” não é nada, perto dos três bilhões que estão escondidos no Exterior? Como posso ser um tapado ideológico, ao não sacar a sutileza de homens profundos como o Mangabeira Unger ou o vice Alencar que ingressaram no partido do bispo Macedo, a nova corrente da modernidade, ao qual certamente Lula se unirá para a reeleição? Como sou frívolo, ao não aceitar esses necessários gestos e jogadas de real-politik para se atingir o “grande salto para a frente”: a reeleição de Lula? Tenho sido malicioso em só ver ganância, boçalidade e hipocrisia na cara do sapo barbudo, cada vez mais sapo e mais barbudo (reparem em minha insopitável maledicência...), que só pensa nele mesmo e nunca no país, babujando metáforas burras. Confesso que tenho sido intolerante por não compreender que esta cupidez e estupidez são belos exemplos de uma cultura pura, folclórica, popular? Realmente, não tive grandeza para aceitar que Severino continue a mandar nos 300 picaretas e que 53% das emendas ao orçamento tenham sido dados por Lula a Severino, pois conta com ele para 2006, no comando da imunda jangada (olhem só meu preconceito...) do baixo-clero. Percebo que sou homem sem fé ao não aceitar que Celso Daniel morreu por crime comum... Como sou malévolo, insidioso, ao achar que os sete assassinados depois do crime eram queima de arquivo e de testemunhas!... Como sou pérfido ao concluir que seus irmãos Francisco e Bruno arriscam a vida para provar um esquema de corrupção criminosa do PT em Santo André, esquecendo-me que os irmãos de Celso não passam de instrumentos neoliberais da direita para incriminar o PT? Como posso lançar aleivosias contra os homens puros e duros que lutam na revolução chamada pelas elites de “corrupta” para levar o país ao futuro? Como ouso falar com azedume em “prevaricação, sonegação, lavagem de dinheiro, formação de quadrilhas, superfaturamentos”, assacando essas calúnias contra um partido puro, idealista?

Sei que estou errado, mas já estou me “refundando” e espero um dia chegar à luz da verdade e ser como esses grandes homens que guerreiam pelo bem do povo brasileiro, ignorando minúcias éticas pequeno-burguesas. Se Deus quiser, um dia ainda serei um perfeito filho-da- p*#a .

 
 Vale a pena refletir...
Myriam Peres
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 01/11/2005
Código do texto: T66096
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
473 textos (54600 leituras)
5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres