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Os meus heróis não morreram de overdose

Não que eu e tantos outros sejamos obcecados pelo rigor do patriotismo. Na verdade, nem mesmo sei se existem esses tantos outros, pois a cada  dia que passa percebo a redução do interesse, que deveria existir, pelas causas nacionais, naqueles que chamamos de “massa”. Extremismos à parte, penso que, aos poucos, com as milhares de decepções que vimos colecionando ao longo de anos a fio, fomos misturando os fatos e pessoas ruins com os valores de nosso povo. Como se estivéssemos confessando e passivamente aceitando que não há mais jeito para nada, num conformismo que chego a considerar patológico.
Dias atrás, nos Estados Unidos da América, centenas de milhares de brasileiros comemoraram o Brazilian Day. Não deu pra deixar de assistir, pelo menos em parte, os shows de grupos brasileiros e outras celebridades daqui, que lá se apresentaram para o deleite de brasileiros e até pessoas de outras nacionalidades. A festança foi linda, principalmente pelos sorrisos e lágrimas de saudade daqueles que um dia partiram em busca de melhores condições de vida, deixando para trás familiares e amigos e tudo mais que os pudessem prender. Afinal, eu concordo com qualquer um que me diga que faltam oportunidades aqui. Não os condeno. Talvez se eu mesmo tivesse um pouco mais de coragem teria feito a mesma coisa. Mas não é esse o ponto básico deste tema. Deixar seu país por falta de melhores oportunidades não os torna, a meu ver, desmerecedores da sua brasilidade. Muitos, com certeza a grande maioria, pretendem algum dia voltar à “terrinha”. Piores são aqueles que estão aqui e permitem que “o país tropical, abençoado por Deus” vá  escorregando pelas encostas, como a transformar tudo num umbral. Lugar sombrio e de penitências.
Por coincidência, logo após a ocorrência do Brazilian Day, caiu no meu colo um daqueles momentos de “papo cabeça”, com um rapaz de dezoito anos de idade, com suas posições bastante definidas acerca de temas variados. Conversa vai, conversa vem, este “papo” tomou um rumo que eu jamais poderia supor que tomasse. Perplexo, fui ouvindo dele próprio que ele não dava a mínima importância para o Brasil, que se ele pudesse iria embora sem olhar para trás, que não dava o menor valor à sua nacionalidade. Perguntei-lhe, então, se tinha alguma ambição por outra nacionalidade. Ele me respondeu que não sabia.
Dado momento, já com o meu sangue iniciando um processo de ebulição nas veias, mas ainda me contendo, sugeri, e não sei de onde tirei essa idéia, que ele fosse à ONU e em algum secretariado de lá se declarasse como um apátrida, e tentasse posteriormente ver se era possível se encaixar em algum país por aí.
Hoje, após diversas reflexões sobre este ocorrido, prefiro crer que tenha sido apenas um rompante, uma bravata, um gesto desafiador de um pobre rebelde sem causas, embora eu reconheça que ele seja dotado de excelente nível cultural, e muito provavelmente não se desse a este tipo de postura gratuitamente. E se não for apenas isto? Que possa ser um indicativo  de que as coisas continuarão a não estar bem em nosso futuro? Digo, futuro aqui no Brasil. Isto porque também me vem à mente que outras centenas de milhares de jovens, não só não creiam como até mesmo se envergonhem de serem brasileiros. E lá vou eu me enveredando nas reflexões sobre esta possibilidade, que reconheçamos não seja de todo absurda. É razoável pensar que isto esteja ocorrendo, e mais, já há bastante tempo. Se isto se confirmar, as causas podem advir das mais variadas direções. Agora, eu creio, que dentre estes fatores incidentes nesta, ainda,  situação hipotética,  esteja o germe da impunidade. Gerado e robustecido pela antiga Lei de Gerson. Os mais maduros ainda devem se lembrar daquela propaganda amplamente divulgada nos anos setenta, onde o ex-tricampeão mundial, numa propaganda de cigarros, dizia que o importante era levar vantagem em tudo. E para minha tristeza muitos levaram, mesmo. Bilhões, em dinheiro, desviados dos caixas públicos, contas fantasmas no exterior, mordomias pagas pelo suor e lágrimas de um povo crente nos seus líderes. E por aí vai.
Mas, não são somente estes descalabros todo o teor de nossa história. A origem da história brasileira, embora recente se comparada com a de outros povos, tem exemplos de desprendimento, doação pessoal e atos de bravura sempre focados no bem estar de um povo.  Sem querer cair na pieguice, insisto que estes valores foram perdendo o seu lugar e por culpa de todos nós, principalmente de muitos educadores e quem os comanda ou comandou. Preocuparam-se demais com a forma e menos com o conteúdo. Bem sabemos que não se mudam pensamentos e comportamentos sociais do dia para a noite, só que é necessário buscar sempre a mudança para melhor.
Eu, por minha vez, e mais do que nunca, vou tentar contribuir a partir dos meus filhos. É o mínimo que posso fazer.
Se ainda estivesse vivo, e eu pudesse lhe dizer pessoalmente, o poeta, cantor e compositor Cazuza, dotado de uma sensibilidade acima da média, ouviria de mim: “Meu querido Cazuza, sou e sempre serei seu fã, mas, os meus heróis não morreram de overdose.”

Winnet
26/09/2007
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Enviado por winnet em 26/09/2007
Reeditado em 28/09/2007
Código do texto: T670060
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Sobre o autor
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Maringá - Paraná - Brasil, 55 anos
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