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AS MIL E UMA NOITES DE SANGUE!
J.B.Xavier


“Quem não compreende num relance, também não compreenderá numa longa explicação!” Este provérbio árabe, antiquíssimo, sintetiza bem o que o resto do mundo sente em relação ao Oriente Médio.

Não somos capazes de compreender verdadeiramente a mentalidade do Médio Oriente. Nem mesmo aqueles que se dizem especialistas em questões árabes têm conseguido acessar o âmago de um sentimento inculcado por milênios de história.

“A violência é o medo dos ideais dos demais” disse um dia Mahatma Gandhi. E por ter um ideal, o Oriente Médio representa perigo aos olhos do resto do mundo. Essa falta de compreensão, e ao mesmo tempo a compreensão superficial de que um povo com tais tradições é praticamente inamovível em suas crenças básicas, tem, em última análise, levado às soluções violentas.

A velha Bagdá, que já foi a Babilônia de Nabucodonosor, de Hamurábi, dos Jardins Suspensos, das Mil e Uma Noites, está em chamas.

O termo “Babilônia” que no idioma babilônio se pronunciava “Bâbili” significa “Porta de Deus”. Mesmo após ter sido conquistada pelos persas, eles mantiveram o significado do termo, com uma palavra própria para isso: “abirush”.

Nem Nero em seus mais doentios delírios teria pensado em um cataclisma de tais proporções, que tenta impor à força uma cultura estranha a um povo milenar, e que ao faze-lo, despersonaliza uma nação inteira, tornando-a, se persistirem nesse propósito, um território de parias apátridas, que por não encontrarem sentido no sistema que se lhes impõe acabarão por extinguir-se como cultura.

Já não bastasse o genocídio que deixará marcas indeléveis nas futuras gerações de iraquianos, ainda se tenta subtrair-lhes a cultura.

Só há um crime maior do que aniquilar seres humanos: É anular seu pensamento.

Como é possível que “especialistas” tenham concluído que seria possível cancelar as idéias de um povo em cujo território praticamente teve início a saga humana?

Como falar de leis e de democracia a um povo que há 3.700 anos já dispunha de um código de leis, formulado por Hamurábi, que governou a Babilônia entre 1792 e 1750 a . C., e que era tão bom governante quanto bom general, qualidades que nenhum dos governantes do mundo atual têm?
Quando escavações arqueológicas na Mesopotâmia encontraram importantes obras de literatura, o universo babilônico, hoje Iraque, revelou ao mundo uma das mais valiosas e magníficas coleções de leis, que estiveram em vigor por volta do século XVIII a.C..

Essa coleção recebeu o nome de Código de Hamurábi, porque foi criada por esse imperador, que escreveu na estela onde publicou suas leis:

“Quando Marduk me constituiu governador dos homens para os conduzir e dirigir, estabeleci a Lei e a Justiça sobre a Terra, para o bem do povo”.

Triste ironia, que após 40 séculos esse mesmo povo tenha que “engolir” outro código de justiça feito para destruí-lo.

Como é possível falar de cultura, de leis, de direitos, a um povo cuja estrutura social, organização econômica, arte, arquitetura, ciência, literatura, sistema judicial, crenças religiosas e empreendimentos culturais deixaram uma profunda impressão no mundo antigo, e particularmente nos hebreus e gregos?

A influência babilônica é evidente nas obras de poetas gregos como Homero e Hesíodo, na geometria do matemático grego Euclides, na astronomia, astrologia, heráldica e na própria Bíblia.

A civilização babilônica, existiu do século XVIII ao VI a.C. São doze séculos – mil e duzentos anos de cultura ativa – tempo contra o qual a existência de seu atual dominador – os E. U. A . – parece um nada!

Esta fantástica civilização já conhecia o urbanismo quando nem nós, nem as nações das quais descendemos sequer sonhávamos existir!

Descendente de outro grande povo, os Sumérios, a organização babilônica tinha caráter urbano, embora baseada mais na agricultura do que na indústria. O país era constituído por 12 cidades, cercadas de povoados e aldeias. No alto da estrutura política estava o rei, monarca absoluto que exercia o poder legislativo, judicial e executivo. Abaixo dele havia um grupo de governadores e administradores selecionados. Os prefeitos e conselhos de anciãos da cidade eram encarregados da administração local.

Povo essencialmente dinâmico, os babilônios modificaram e transformaram sua herança suméria, adequando-a à sua própria cultura, e com isso influenciaram os países vizinhos, especialmente o reino da Assíria, que adotou praticamente por completo a cultura babilônica.

Juntamente com o Código de Hamurábi, as escavações arqueológicas encontraram importantes obras de literatura, documentos e cartas pertencentes a diferentes períodos, que proporcionam um amplo quadro da estrutura social e da organização econômica do império da Babilônia.

E hoje, a velha Bagdá, que já foi a Babilônia de Nabucodonosor, de Hamurábi, dos Jardins Suspensos, das Mil e Uma Noites, está em chamas.

Vergonha! Vergonha para um mundo que já colocou um homem na lua, mas que - como disse Erasmo Carlos na música “Análise Descontraída” – “ainda não sabe da Atlântida, do Homem das Neves ou do Monstro de Lock Ness”!

Vergonha para um mundo que criou – como diz outro trecho da mesma música – “trinta milhões de leis para se fazer cumprir os Dez mandamentos”!

A despeito das orações do Papa, da comoção dos que se sentem ofendidos ao verem tanta barbárie, tenho a impressão que o ódio está vencendo a batalha entre o Bem e o Mal, e que veio para ficar.

Uma mancha vermelha espalha-se pelo que outrora foi a Babilônia, enodoando sua história gloriosa.

Quem poderia imaginar que um país com essas qualidades, com esse carisma, com essa poesia, poderia um dia fazer o ser humano de fantoche, dilacerar a carne e manchar o mundo com a história sangrenta de uma luta inglória.

Bagdá está ferida, e do seu ferimento verte o sangue do mundo! Não há talvez na história universal exemplo mais irredutível de uma mentalidade tacanha, sustentada por um regime de força. Não há talvez nenhum registro, nem mesmo no Império Romano, nem mesmo nos grandes impérios mongóis, das atrocidades que aconteceram neste país, e que ainda acontecem, a troco de nada! Digo a troco de nada, porque de Bagdá não se tira nenhuma lição, não se aprende nada, a não ser, a constatação de que o ódio alimenta o próprio ódio.

O Presidente Peruano, Alejandro Toledo – um intelectual, PhD em Recursos Humanos Por Stanford - em recente reunião de cúpula no Brasil, disse: “As vezes é muito mais fácil ganhar a guerra do que ganhar a paz”.

Esta frase lapidar, encerra uma verdade irretocável. Para ganhar a guerra basta ter o aparelhamento necessário e um motivo que justifique os atos ignominiosos que serão cometidos, mas para ganhar a paz é preciso o desarmamento do espírito, coisa que nenhuma das partes, nem a vencida, nem a vencedora estão jamais dispostos a fazer.

O brasileiro Vieira de Melo, morto ontem no Iraque, demonstrou ter conhecimento profundo do significado das palavras do presidente peruano. Ele disse: “Quem gostaria de ver seu país invadido por tanques estrangeiros? Eu não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana!”

Ao dizer isso, ele demonstrou que entendia perfeitamente a situação dos oprimidos e dos vencidos.

Se não desarmarmos o espírito, não venceremos a guerra, no sentido de conquistarmos a paz. E sem paz, adianta muito pouco ter vencido a própria guerra.

Guerra e paz, portanto, são partes indissociáveis de uma mesma problemática, e não se pode esperar haver paz depois de uma carnificina, a que elegantemente chamamos “guerra”.

Entre os vencidos sempre estarão os grandes machucados, os grandes ofendidos, aqueles que perderam o senso de direção e já não sabem mais para onde estão caminhando.

Entre os vencedores sempre haverá a prepotência que se sobrepõe ao bom senso ao final do período de conflitos.

Todos, enfim, se esquecem das palavras do grande Salomão, quando disse: “Ilusão...É tudo uma grande ilusão...Tudo se repete, tudo volta...”

Esquecem-se também de que na verdade, quem concorda comanda...

E novamente Gandhi faz o alerta: “O que se obtém com violência só poderá ser mantido com violência”.

Ao olharmos a história humana do alto de 5 mil anos, podemos ver não somente o quanto avançou a espécie humana, mas o quanto mais poderia ter avançado. Certamente foi pensando nisso que Einstein exclamou:

“Há somente duas coisas infinitas: O universo e a estupidez humana, e do primeiro não estou tão certo...”



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JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 03/11/2005
Reeditado em 16/01/2011
Código do texto: T67014
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Sobre o autor
JB Xavier
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