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VIDA LOUCA VIDA

A face da vida real é taciturna. Não permite brincadeiras, não admite falhas e raramente sorri.
A vida real é feita de cartão de ponto, de relatórios imensos, de atas cheias de burocracias, de horário para chegar, para sair, de contracheque no final do mês e do estresse para fazer o salário mínimo render mais que uma semana – coisa quase milagrosa.
Na vida real tudo é sério. O patrão é sério, o funcionário tem que ser sério, o cliente também é uma pessoa séria e tem que ser tratada também com muita seriedade.
Tem fila para tudo na vida real, desde o berçário até o funeral, sem falar da fila do banco, da lotérica, do diabo a quatro.
Gostaria de saber porque existe tanta pressa na vida real. Porque todo mundo está sempre correndo como se o mundo fosse acabar no próximo segundo.
E os carros passam apressados, pelas motos apressadas e as bicicletas com seus homens apressados, os olhos procurando não sei o quê observam tudo, meio que zumbis.
Não sobra tempo para ver a beleza das coisas que nos cercam, coisas simples como a andorinha sentada no fio, observando a nossa loucura lá de cima, namorando o seu parceiro e fazendo as mesmas perguntas que eu – para quê tanta pressa?
Coisas simples, como fazer uma visita a um amigo sem lhe avisar, fazer uma surpresa. Pensar na namorada, comprar um presente, mandar flores mesmo sem ser o dia dos namorados ou a data do seu aniversário.
Simples mesmo, como parar na rua, sentar na calçada e escrever um poema para não perder aquele momento único de inspiração.
As pessoas da vida real diriam que isso é uma coisa de maluco, irresponsável até. Afinal, algo está deixando de ser realizado em prol da pressa, em prol do progresso, em prol, em prol, em prol...
Todo mundo quer ser rico nesta vida besta, mas real, todo mundo vive preocupado com o PIB, com a alta dos juros e do dólar, com o crescimento econômico, com o aumento das importações, com as relações internacionais, com essas coisas que podem afetar o bolso de quem já possui muito dinheiro.
Só os sonhadores ainda falam em amor, paixão, poesia, essas coisas que não trazem nenhum benefício financeiro ao bolso de ninguém. Mas não há muito espaço para esta gente na vida real.
Não vê os poetas? Coitados, vivem por aí, sonhando, poetando, viajando em seus devaneios e execrados pelos homens da vida real.
Mas, acredite, os poetas são felizes. Talvez porque os loucos também são felizes e, na vida real, só os loucos  e os poetas possuem este dom raro e belo que é o dom de sorrir mesmo diante da correria de tudo.
Faço parte da última categoria, sou louco. Louco pela poesia nossa de cada dia, pelo canto dos passarinhos, pela canção da água dos rios, pelo verde dos campos, pelas coisas que o mundo não pára mais para ver.
Não tenho tempo para ser rico, nem quero ter, se o tivesse, ainda assim não seria. Tenho um tesouro maravilhoso, desses que ladrão nenhum neste mundo pode roubar.
Tenho uma família que me ampara, mesmo quando cometo as minhas maluquices, tenho um milhão de amigos e não os troco por um milhão de dólares, tenho uma pena e um pedaço de papel onde rabisco meus poemas, tenho dias de sol e noites de lua.
Gente como eu não sobrevive na vida real.
Caio César Muniz
Enviado por Caio César Muniz em 02/10/2007
Código do texto: T677450

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Sobre o autor
Caio César Muniz
Mossoró - Rio Grande do Norte - Brasil, 44 anos
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Caio César Muniz