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     Primeiro fui eu mesma: acordei pensando qual seria a minha reação se descobrisse que estava a um passo da morte.Acho que vou me sentir como se levasse uma descarga elétrica muito forte. Eu iria cambalear mas não iria cair.Bom, o que não tem jeito, ajeitado está, eu certamente diria. E continuaria a viver, com a preocupação de colocar tudo o meu em ordem para não deixar amolação para ninguém. Não sei como eu iria fazer isso, porque eu vivo começando a arrumar minhas coisas para deixá-las em ordem e nunca termino. Acho até que deixo mais bagunçadas ainda.Mas resolvido o meu primeiro problema do dia fui até a Padaria, para o encontro regular dos sábados pela manhã. E lá, conversa vem, conversa vai, entre um copo cheio de cerveja e outro, minha amiga disse que teria que desmarcar um passeio minuciosamente planejado. E quando eu perguntei: Por que? A resposta foi muito simples: Eu estou com câncer, vou ter que operar. E a conversa continuou como se ela tivesse dito que iria tirar as amigdalas ou arrancar um dente.É, as coisas estão mudando, pensei. E se não parou por aí, a situação continuou da  forma mais saudável possível com ela se preparando como se a doença não fosse com ela. Algum tempo depois, pouco, eu acordo pela manhã e vou buscar a minha revista semanal e lá está a reportagem: comportamento - Despedida Feliz. Uma fotografia mostrava uma família bonita e sorridente: pai, mãe e três filhos. Será para onde ele vai, pensei: será um astronauta, partindo de viagem para Marte? ou um navegador solitário enfrentando as águas geladas do Ártico? Mas, não era nada disso: ele, o pai, bonito como o príncipe, sorridente como um ganhador da loteria, estava se preparando para a sua última viagem: a morte.
          A Revista então conta a sua história, que eu vou resumir para não dizerem que este meu artigo é plágio, ou roubo de propriedade intelectual.Mas, considerando-se que eu pago pela assinatura da revista acho que tenho o direito de espalhar para quem eu quiser ( mas também aviso a vocês; cuidado com o que lêem). Ele é um professor universitário norte-americano que, quando descobriu que tinha uma doença terminal e que não havia mais nada que pudesse fazer, optou por viver seus últimos dias da maneira mais feliz possível. Mudou-se para uma praia com a família, grava vídeos para os filhos e fará uma despedida especial com cada um deles. A última palestra que proferiu, frente aos seus colegas e alunos da  Universidade teve por título: Como viver os seus sonhos de infância. Fiquei vários dias pensando, refletindo sobre o encadeamento dessas três situações e ardentemente desejando começar a viver os meus dias como se fossem os últimos, no que se refere ao prazer de viver e a premência de fazer coisas. Mas também como se a morte nem existisse e eu tivesse todo o tempo do mundo para ousar e sonhar.Um desses sonhos eu estou realizando agora: escrever, sem me preocupar com nada mais. Apenas escrever. Eu me sento em minha escrivaninha e escrevo. Direto. Artigos, resenhas. Copio os poemas que fiz ao longo da vida e que estão reunidos em vários livros não publicados. Trabalho em dois livros, um de poesias (enquanto rabisco) e um de memórias( Uma casa na frente do rio, um rio no fundo da casa), planejo completar dois romances iniciados: As mulheres da rua do Fogo e o terceiro volume da trilogia Morro Alto: Os filhos de  Abud, que seguirá os dois primeiros já prontos: O Cachorro Amarelo e O Clube do Cravo Vermelho. E assim eu vou vivendo, me preparando a cada dia para viver melhor enquanto a morte não chega. 
Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 07/10/2007
Código do texto: T684849

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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