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O que eu escrevo?


(Hull de La Fuente)


A tela ficou branca, sem assunto, sem cor, sem nada. E eu ali diante dela com meu coração vermelho, meus dedos dourados de unhas rosadas, buscando letras pretas pra escrever sobre coisas lilases.

Olho em volta e não vejo nada lilás. É noite e não tem luar. Vejo a parede branca do quarto cheia de diplomas de honra ao mérito, o quadro de medalhas, as fotos do meu filho com os colegas de academia e o pôster do mestre japonês. 
Puxa! Eu nunca tinha reparado como o mestre parece um burrico. É um japonês engraçado, poderia ser comediante. Aposto que os alunos desse mestre não o levaram a sério. Também com um bigodinho ridículo desses. Esse mestre já deve ter desencarnado, o pôster é mais velho do que o meu filho. Vejo ainda ali no canto esquerdo, uns caracteres de escrita japonesa, lembram o esqueleto de um dinossauro. Meu filho me disse que é a palavra “KARATÊ”. Não! Não vou escrever sobre isto. Não gosto de lutas.

Mas como eu posso encontrar idéias lilases no quarto de um rapaz que pratica lutas marciais? Bem que meu filho podia ser um fotógrafo, sim! Desses que andam soltos pelo mundo, retratando as coisas bonitas que existem... Mas ele não é fotógrafo, é diretor de TV, e gosta de ser isto. Diretor de TV, título importante para pouco salário. Taí! Acho que vou pedir pra ele me levar um dia lá no trabalho dele. Quando ele era pequeno eu o levei no meu trabalho, agora é a vez dele fazer o mesmo comigo. Nunca vi os bastidores da TV. Hum! Deve ser um ambiente cheio de fios e detalhes sórdidos.

E se eu escrever sobre as medalhas ali do quadro? Mas falar o quê? Eu nunca assisti a nenhuma luta dele, nem sei como foi que ele ganhou as medalhas... Meu Deus! Que omissão! Nunca fui ver as lutas, os treinos, os campeonatos, nada disso. E o meu medo de vê-lo machucado? E se o adversário fizesse algo como tentar enforcá-lo? Eu tenho certeza de que não suportaria e entraria na luta para defender meu menino. Quando pequena, eu entrava nas brigas do meu irmão Mozart, para defendê-lo. Mordi e puxei os cabelos de muito moleque; por que não subiria no tatame para defender meu filho? Acho que foi por isso que ele nunca me convidou, já pensou o vexame que seria pra ele?

O cachorrinho do incredimail anunciou a chegada de correspondência, mas eu não vou ler ainda, pois justo agora meus olhos descobriram aqui no canto, perto da estante, um outro pôster, em nanquim. Nele aparece a figura de um velho monge chinês, de nome Tao Te King. É um monge magro e ossudo, deve ter passado por maus bocados. Não sei aonde o meu Raulito encontra essas coisas surrealistas, que parecem fugidas das telas de Picasso. Algumas frases mal traduzidas aparecem escritas também em nanquim. Uma delas eu já li duas dezenas de vezes e não entendi:

“O homem ao nascer é suave e flexível, ao morrer fica rígido e duro.”

Qual é a novidade? O meu filho disse que é filosofia oriental, mas eu acho que está faltando algo nessa frase, talvez a conclusão.

Vou parar por aqui. No computador do quarto de um professor de lutas marciais, não encontrarei, definitivamente, inspiração para escrever sobre coisas lilases.

Os dedos dourados de unhas rosadas escrevem com letras pretas o ATÉ LOGO ao coração vermelho, que agora vai dormir. BOA NOITE, MEU FILHO QUERIDO.
Hull de La Fuente
Enviado por Hull de La Fuente em 09/10/2007
Código do texto: T687733
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Sobre a autora
Hull de La Fuente
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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