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Análise da lenda latino-americana Maria Pamonha e uma proposta de mediação do texto na sala de aula.

Faculdade Frassinetti do Recife – Fafire
Pógraduação em Literatura Brasileira
Weverton Duarte Fragoso
Professor Orientador Hugo Monteiro Ferreira

Resumo: Nesse trabalho falaremos da literatura infanto-juvenil e de suas características, bem como analisaremos  o texto Maria Pamonha baseado em uma lenda latino americana.

Palavra chave: Literatura infanto-juvenil; lenda; educação.

A literatura infanto-juvenil  vem no decorrer dos anos servindo de instrumento didático pedagógico. Utilizada nas escolas como mais um recurso de ensino seu potencial “literário” tem sido deixado muitas vezes em segundo plano. Desta forma a criança acaba, muitas vezes, vendo na literatura apenas uma atividade escolar, imposta pelo professor, e não uma fonte de prazer. AMARILHA (1997)
“É somente no século XVIII que se consolida um conceito mais específico do que seja infância. (…) Nasce, assim, uma literatura de cunho didático, em que o lúdico é apenas um recurso para a instrução.

A literatura  infanto-juvenil também vem servindo para a transmissão de ideologias e preceitos de grupos dominantes e da burguesia. Como na época do surgimento dessa literatura no Brasil, a partir de 1900. ZILBERMAN (1993)
“ é fecunda a percepção de certas contradições, inevitáveis num projeto tão permeado pelas ideologias dominantes como foi aquele que presidiu o surgimento da literatura brasileira para crianças”

Por outro lado, depois de Monteiro Lobato, o universo infantil passou a fazer parte integrante das obras de literatura destinada e este público  e os autores contemporâneos, que foram leitores de Lobato, como Ruth Rocha e Lygia Bojunga,  dão novas formas a literatura infanto-juvenil, criando novos contextos e temas que integram-se ao mundo das crianças. Com essa literatura diferenciada, que parte do principio de que a criança será leitora e não apenas estudante do texto estas novas obras e estes autores podem vir a ser trabalhados na sala de aula com uma nova perspectiva, motivada pelos professores,  fazendo as crianças  refletirem mais e construírem seus valores pessoais. Dessa forma aprenderão mais e de uma maneira melhor do que com a simples imposição de textos na sala de aula.

O texto que analisaremos aqui é Maria Pamonha e foi retirado do livro CONTOS TRADICIONAIS, FÁBULAS, LENDAS E MITOS do Ministério da Educação.
Desde o principio da formação da literatura infantil as lendas, fábulas e mitos compõem seu repertório. O texto analisado aqui é baseado em uma lenda latino-americana. Muito popular na Venezuela, mas conhecido de todo o mundo.
Extra textualmente podemos afirmar que se trata de um texto infantil pelo publico que ele se destina. O texto está publicado em uma compilação elaborada pelo ministério da educação  com o intuito de dar apoio a alunos e professores. Intra textualmente observamos uma linguagem clara; palavras acessíveis; um discurso direto com frases curtas; e uma temática atraente ao universo infantil, onde as diferenças sociais são vencidas pelo amor e pela sagacidade da protagonista.
Por outro lado não é este um texto inovador, ele segue características tradicionais e semelhantes a histórias clássicas da literatura infantil, como A gata borralheira e A Bela e a Fera. O final não é surpreendente. As dificuldades vivenciadas pela protagonista, sua superação e o final feliz são temas conhecidos de muitas histórias para crianças.
O texto traz uma narrativa com elementos e figuras de estilo motivadoras como a reiteração dos fatos. A cena do baile se repete 3 vezes de maneira quase idêntica, e assim cria uma perspectiva no leitor para solução do problema: o fato do filho da patroa não reconhecê-la e apaixonar-se por ela.
Na há propriamente elementos fantásticos no texto. Não há a intervenção de fadas, animais falantes ou outros elementos místicos, dando-se a narrativa no campo real. O único elemento que provoca estranhamento é a ingenuidade do filho da patroa ao não reconhecer à Maria Pamonha. Esta por sua vez utiliza-se de inteligência e sagacidade para conquistar a atenção e o amor da pessoa desejada. A seqüência narrativa é linear e os personagens estão caracterizados pela classe social a que pertencem; a patroa, o filho da patroa e Maria Pamonha. Não dispõem nem mesmo da nomes próprios, a não ser Maria Pamonha que já tem esse nome para ressaltar sua condição de criada da casa. A voz narrativa é em 3ª pessoa e onisciente e não há grandes menções quanto ao cenário e o tempo da narrativa, podendo estória se passar em qualquer lugar e a qualquer tempo.
Uma mediação para o texto em sala de aula.
Podemos trabalhar o texto na sala de aula partindo do conhecimento prévio dos alunos do que são lendas e fábulas. E suas leituras prévias de obras que eles já conheçam. Por exemplo: podemos comparar a lenda de Maria Pamonha com e fabula de Cinderela.
Inicialmente perguntamos aos alunos se eles conhecem uma história onde uma menina mal vestida e maltratada na família em que vive tem a oportunidade de ir a um baile. No baile ela está lindamente vestida e bem produzida e assim um homem do baile se apaixona por ela, mas ela sai e ele não a encontra mais até um outro momento. É provável que os alunos reconheçam essa história como a de Cinderela. Podemos usar de imagens para facilitar esse reconhecimento se necessário. Passada essa introdução perguntamos se a outra história com o mesmo enredo apresentamos a lenda de Maria Pamonha com uma leitura para todos.
A partir daí podemos trabalhar as diferenças e semelhanças entre estes textos. Dividindo a turma em grupos e pedindo que anotem quais semelhanças existem entre Cinderela e Maria Pamonha. As semelhanças que já teriam sido abordadas no começo da aula ficariam mais evidentes e então desatacaríamos agora as diferenças, como por exemplo:

O tempo da história ( que não envolve príncipes e nobreza);
Há um personagem malvado em Maria Pamonha?
A inexistência de elementos mágicos;
A pessoa que a ama é a mesma que a maltrata;
As diferenças sociais, que são mais evidentes em Maria Pamonha ( pois Cinderela era nobre, apenas era maltratada pela madrasta e irmãs de criação.);
A esperteza da protagonista. (para Cinderela as coisas acontecem como retribuição a sua bondade, já Maria Pamonha tem que usar de inteligência para ir ao baile e conquistar seu amado).

Finalizando podemos pedir aos alunos que avaliem o comportamento dos personagens dos dois contos. Quem teve as melhores atitudes: o príncipe de Cinderela ou o filho da patroa de Maria Pamonha? O filho da patroa merecia ficar com Maria depois de tê-la maltratado tanto? E ela fez a coisa certa?
As respostas devem vir dos alunos e promoverem um debate na sala de aula. Pontos importantes que surjam como o preconceito, divisão de classes, etc. devem ser destacados..  Após o fim do debate  alunos podem concluir com a produção de um texto desenvolvendo uma cena  posterior ao fim da lenda que leve em consideração o que foi debatido na sala e defendido por eles.  Por exemplo: Se eles acharam o comportamento de filho da patroa reprovável podem escrever u  texto onde Maria Pamonha conversa com o filho da patroa, agora seu marido, sobre esses assuntos e ele se desculpa pelo comportamento   que teve.

Um texto de literatura infantil pode ser trabalhado em sala. O fato dele estar na sala não o condena ou o torna não literário. O que deve ser considerado e trabalhado pelos professores e pedagogos e a sua postura, como educador, diante do texto e o que ele deve representar para o aluno. Um texto, quando lido, sempre educa, sempre deixa mensagens. Claro que podem e devem haver escolhas quanto ao texto. Mas caberá sempre ao professor usar bem esse texto em sala de aula. Histórias antigas ou contemporâneas, com elementos modernos ou não, sempre terão um espaço na sala de aula e nos livros didáticos e o professor será o mediador destes textos e do aprendizado que os textos permitem.
 
BIBLIOGRAFIA
AMARILHA, Marly. Estão mortas as fadas? Literatura infantil e prática pedagógica. Petrópolis: Vozes; Natal: EDUFRN, 1997.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise, didática/ Nelly Novaes Coelho, - 1a ed. – pág, 27 . São Paulo: Moderna, 2000.
CONTOS TRADICIONAIS, FÁBULAS, LENDAS E MITOS. LIVRO DO A L U N O volume 2. Ministério da Educação . Fundescola /Projeto Nordeste/Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000.  Página 114.
ZILBERMAN, Regina & LAJOLO, Marisa. Um Brasil para crianças. Para conhecer a literatura infantil brasileira: história, autores e textos. Global universitária, SP, 1993.



Saturnino Segrel
Enviado por Saturnino Segrel em 10/11/2005
Código do texto: T69509
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Sobre o autor
Saturnino Segrel
Recife - Pernambuco - Brasil, 41 anos
57 textos (6483 leituras)
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Saturnino Segrel