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CONCUPISCÊNCIA

Meados de 1952. Recém-ingresso na idade alcunhada de adolescência, ainda sob o domínio patriarcal, portanto à margem da remota possibilidade de ser consultado sobre o meu sagrado direito de ir e vir nos próximos sessenta segundos, fui intimado a estudar num colégio misto de freiras, em regime de internato, em Tomazina, norte velho do Paraná. Tinha então doze anos e meio. Um novato e orgulhoso portador de inesquecíveis ralos pêlos loiros que queriam dar sinal de vida em uma zona considerada pudica. Já no colégio, embebedei-me de compulsórias práticas religiosas, que me impeliam aos bocejos e cochilos. Antes e após as refeições, orações. Missas e novenas diárias. Sentindo que mesmo esperneando a ladainha seria inevitável, busquei relaxar e go...orar. Pateticamente, apresentei-me de forma voluntária ao serviço de coroinha, mesmo sabendo que a piazada não via com bons olhos a vestimenta do coroinha. Se soubesse que o vinho do padre era tão bom, teria desempenhado essa função bem antes. Aliás, talvez gozando do apelo inebriante do efeito etílico do saboroso vinho da missa, despertou em mim o desejo de ser padre. Sonho não concretizado, também, por influência paterna. Hoje vejo que a Santa Madre Igreja Católica não perdeu nada. Por quê? Ora, porque o que tive foi muita afinidade comportamental com Santo Agostinho no seu tempo de bad boy. A mãe do santo rezou mais de três décadas pela conversão dele. A minha, me encheu de porrada até pouco tempo. A chamada fase que algum imbecilóide resolveu chamar de melhor idade, me converteu. Voltando ao internato, lembro-me das peladas de futebol que fazíamos nos horários de folga dos estudos. À noite, após o banho, jantávamos, vestíamos os pijamas de flanela, sentávamos na varanda, e, tentando demonstrar coragem, falávamos do enorme dragão que diziam existir debaixo da Igreja e que estava submerso no Rio Cinzas. Quando nossa bola caía na ribanceira, que ia dar no rio, poucos alunos tinham coragem de ir buscá-la. Saí desse colégio com catorze anos. E ainda acreditava em dragões. Vivia a pureza de um jovem que nem conhecia o que é uma televisão. Porém, quando em férias, sempre que havia sessão cinematográfica, lá estava eu. Adorava cinema.
Hoje tenho acesso aos veículos de comunicação. Considero-me um compulsivo navegante da grande rede mundial, great world net. Desse modo, como qualquer terráqueo normal, encontro-me enfastiado de tanto ouvir falar em acrobáticos afanares do dinheiro público. Mensalões? Argh! Virou moda a prática aberrante de avançar no caixa alheio. O lado material está em total alta. Até nas artes, o habitual enlevo espiritual que gera no artista a necessária inspiração para os fantásticos tesouros culturais, está em baixa. É uma verdadeira competição intelectual para gerar um instrumento inovador que possa ser usado para lesar alguém. O toma lá, dá cá, viceja. Mareado nesse oceano de corrupção avisto ao longe a possibilidade de mudanças. Posso dormir tranqüilo, em berço esplêndido, pois navego na crença de que o bem sempre vence o mal, lição aprendida nos saudosos seriados do Zorro e do Roy Rogers.
Confesso que agradeço por ter vivido numa época na qual os pais mandavam, e nós, filhos, obedecíamos.
Quando vejo um pai milionário disputar cela de cadeia com filho milionário, pelo crime de querer mais e mais, sinto-me feliz por ter sido mandado a estudar numa cidadezinha do interior chamada Tomazina. Ter ouvido falar em honestidade, decência, amor e respeito ao próximo e outros valores que algumas pessoas estão empenhadas a fazer com que desapareçam de nosso dia-a-dia. Ter aprendido inclusive que é pecado “experimentar” o vinho do padre na ausência dele.
Tenho certeza que minha esperança é a esperança da maioria dos brasileiros, de que no futuro aportem em Brasília políticos mais criativos que pensem em melhorias sociais e não individuais.
Já que somos obrigados a votar que optemos por alguém que mereça nosso voto. Afinal, CANDANGOS foram os primeiros habitantes de Brasília, não nós.


OBS: Espero que esse texto seja lido no Céu.
— Querido vigário, não me lembro de ter confessado que eu tomava uns golinhos de vinho antes da missa sem o senhor saber, me penitencio fazendo uma confissão pública. Amém!


Sexta-feira, 14 de outubro de 2005/ 21:23


Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 12/11/2005
Código do texto: T70732
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 74 anos
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Luiz Celso de Matos