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O FAMOSO SUPEREGO

O Dicionário Aurélio define assim o Superego: “Instância da personalidade formadora de ideais, e que age inconscientemente sobre o ego contra as pulsões suscetíveis de provocar sentimento de culpa.”

Eu, mais popularmente, defino assim o superego: é aquele cantinho de meu cérebro que guarda as definições todas que recebi na vida a meu respeito, a respeito do comportamento que devo ter, o que é certo ou errado, o que é bom ou ruim, virtude ou pecado (perdoem-me os psicólogos pela intromissão na sua seara...). É ali que ficam guardadas milhares de informações que vão pautar minha vida inteira, traçar caminhos, tudo firmado como verdade acabada. Ali estão todas as regras, em geral normas rígidas, que devo seguir detalhadamente, pois foram ditadas por adultos e autoridades respeitáveis, ou seja: pais, avós, tios, irmãos e primos mais velhos, comadres, padrinhos, vizinhos, padres, pastores, professores... e por aí vai. E isso tudo vai me chegando desde a mais tenra infância até eu ter capacidade para pensar e resolver sozinha o que quero ou não quero, o que devo ou não fazer. Melhor dizendo: até que eu tenha condições de filtrar o que me enfiaram goela abaixo e formar minha própria opinião a respeito dos conceitos prontos que recebo.

Quem não aprende a pensar e a decidir, vai armazenar muito mais informação pela vida afora até que se estabeleça total confusão e não consiga mais selecionar nada. E, então, vai sair pela vida repetindo, como papagaio, o que ouve, sem critério nenhum, atuando em novos superegos indefesos e formando novos papagaios. Dessa confusão sai grande número de frases feitas, as tais frases de efeito que um pensa, bola com palavras até de peso, edita cuidadosamente e esparrama pelo público desavisado. Tudo inventado sem passar pelo menor questionamento. As tais frases fazem o efeito desejado e se proliferam, são incansavelmente repetidas. Bem, mas as frases feitas não vão ser esmiuçadas aqui, vão merecer um artigo somente para elas...

Aqui vamos falar um pouco dos conceitos passados, grande parte deles tornados preconceitos, o que existe de mais triste no mundo.

A criança é sempre indefesa, ouve e registra, não tem ainda as ferramentas de filtro, não sabe ainda discernir e armazenar apenas o que ela própria julga aceitável, o que seria a primeira peneirada. Ela tem como modelos, ainda pequenina, pai, mãe e familiares. O que eles dizem é sempre, para ela, a mais pura expressão da verdade. Mais tarde vêm os professores, as autoridades religiosas, os amigos mais velhos. E aí o perigo. Se os adultos parassem pra pensar, não passariam para a criança ou adolescente tantos conceitos que não foram devidamente questionados por eles próprios, teriam mais cuidado antes de entulhar com possíveis inverdades o cabecinha de crianças e jovens. Antes os ensinariam a pensar e repensar tudo o que ouvem e nada aceitar como verdade sem antes examinar cuidadosamente, o que os ajudaria a ir aprendendo a formar sua própria opinião.

Se entendermos isso e pusermos em prática, estaremos formando pessoas inteligentes, criativas, verdadeiramente personalizadas. E, o que é melhor, estaremos diminuindo muito o preconceito que grassa no mundo e que torna infelizes a todos: os que os alimentam e suas vítimas.

Mesmo quem já está bastante crescido e achando que aquilo que diz e transmite é verdade absoluta, pode parar, se examinar, questionar o amontoado de conceitos que emite com base no que ouviu de terceiros e, a partir dessa revisão, mudar o que achar necessário. Isso exige coragem e nunca será causa de vergonha, pois mudar é característica do ser humano. E, quando emitir sua opinião, não custa dizer: “é o que eu penso, tire você suas conclusões”, uma forma delicada de respeitar o que o próximo pensa e de incentivá-lo a questionar também seu pensamento.

Vejamos os preconceitos mais em voga: os de raça, os de orientação sexual, os moralistas, os políticos, os de idade, os de crença ou não-crença religiosa. E muitos mais, cada um pensará no seu, se o alimenta e reconhece. Todos são idéias preconcebidas e sem fundamento algum, ao menos sem fundamento inteligente.

Vamos tentar modificar esse quadro? Vamos abrir nossa cabeça e nossos horizontes? Vamos respeitar aqueles que são diferentes de nós? Vamos tornar este mundo melhor para todos? – Boa sorte pra nós e... se algo incomoda e não presta, pau no superego!!!

Eu, pessoalmente, até hoje lhe dou minhas pauladas! Estou sempre limpando a casa que outros entulharam.

O grande segredo, portanto, é desenvolvermos nossa capacidade de julgamento para poder discernir, perceber claramente o sentido daquilo que recebemos como verdade, usando nossa inteligência. Numa palavra: o exercício do pensar. Isso é assumir e viver a própria liberdade!
Sal
Enviado por Sal em 13/11/2005
Código do texto: T70866
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
507 textos (44785 leituras)
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Sal