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GULLAR CONTRA PLATÃO-O “POEMA SUJO” COMO CORRUPTOR DA JUVENTUDE

1. Platão contra Homero

“Ao escutarmos as palavras de um herói trágico que se queixa dos seus males e se porta com paixão, sentimos prazer e entregamo-nos inteiramente nas mãos do poeta. Seguimo-lo arrastados pelo movimento de simpatia dos nossos sentimentos e celebramos como bom poeta aquele que melhor sabe produzir em nós estas emoções”. (...) O Gregos viram pela primeira vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente. ‘Constituído de modo correto e sem falha, nas mãos, nós pés e no espírito’, tais são as palavras pelas quais um poeta grego dos tempos de Maratona e Salamina descreve a essência da virtude humana mais difícil de adquirir. (...) Impõem-se aqui algumas observações sobre a ação educadora da poesia grega em geral e da de Homero, em particular. A poesia só pode exercer uma tal ação se fizer valer todas as forças estéticas e éticas do homem. (...) Mas só pode ser propriamente educativa uma poesia cujas raízes mergulhem nas camadas mais profundas do ser humano e na qual viva um ethos, um anseio espiritual, uma imagem do humano capaz de se tornar numa obrigação e num dever. A poesia grega nas suas formas mais altas não nos dá apenas um fragmento qualquer da realidade; ela nos dá um trecho da existência, escolhido e considerado em relação a um ideal determinado”. Werner Jaeger

O texto do qual a seguir faço algumas considerações, serviu de base para a elaboração do artigo “Gullar versus Platão - O Poema sujo como corruptor da juventude”. Este texto está inserido no livro de Werner Jaeger¹ “Paidéia - A formação do homem grego”, citado no fim do texto, cujo capítulo está em parte reproduzido no final, porque é de extrema importância para a compreensão da poesia e, portanto, leitura necessária aos novos e velhos poetas. Convém contar como esse livro me chegou às mãos. Zé Andrade, artista plástico que tem seu ateliê no bairro de Santa Teresa (Rio de Janeiro), quis adquirir mais conhecimento sobre o significado da Paidéia, expressão muito grafada por Torquato Neto² em muito de seus textos contraculturais que marcaram época.

Mas a Paidéia de Torquato Neto era a mesma, por exemplo, de Gaudí: fractal, o caos sem ordem e a ordem do caos – desde que esse itinerário indique uma saída. Era a inimaginável Paupéria, a Geléia Geral. O bom Zé Andrade deu de cara com o volume “Paidéia” num sebo, adquirindo-o no ato. Seja pela complexidade que a própria expressão provoca (pela amplitude do significado educativo da expressão³), seja pelo calhamaço do volume de mais de 1.300 páginas, Zé Andrade se deu por satisfeito com o que assimilou e já se preparava para se desfazer do livro. Por sorte ou azar eu estava presente e ao ler o índice encontrei as referências sobre a pinimba que Platão tinha com Homero, sobre a influência da poesia na formação do homem grego como civilização. Essa conotação da Paidéia acabou por se estender mundo afora. Recebi o regalo como um desafio e a simultaneidade com uma das muitas releituras do “Poema Sujo” de Ferreira Gullar tornou a provocação uma realidade.

Eis, pois. Para tal Werner Jaeger, em “Paidéia”, encerra a análise de “República” discorrendo sobre o caminho pelo qual Platão transita para desqualificar o que ele chama de “o valor educativo da poesia”. É evidente e natural que, sendo filósofo, Platão confrontasse o pseudo-valor-educativo-da-poesia com o também pseudo-valor-educativo-da-filosofia, atraindo para os filósofos a responsabilidade da educação do jovem. E também fica evidente que Platão é conhecedor de todos os meios, máximo e mínimo, da matéria para vencer a batalha com muita facilidade, combate esse de todo incabível.

A questão é típica: trata-se de um combate puro e simples, uma queda de braço, uma disputa de poder, igualzinho ao que ocorreu nos séculos seguintes, quando se trata de uma questão social sobre as diversas manifestações políticas da luta de classes. Aqui também é uma “luta de classes” – Filosofia versus Poesia – porque para Platão era de importância magna atrair para os filósofos tanto a educação dos jovens e dos guardiões, quanto a educação (leia-se: controle) dos dirigentes (leia-se: políticos). Hoje, séculos passados, podemos constatar que a invenção do Estado Perfeito idealizada por Platão na República era uma utopia, da qual o filósofo não se dá conta porque não é da natureza da Filosofia construir castelos no ar. Para Platão torna-se claro que o Estado não sobreviverá sem o comando educacional do filósofo. Jaeger volta com a palavra, neste texto de vital importância para os poetas, porque ninguém como ele tem a capacidade de transformar utopias em realidades. Essa é uma das funções da poesia desde antes de Homero...

Outra questão que nos deixa de orelha em pé são as razões por que Platão resolveu escolher Homero para combater essa luta. Nesse caso dá para se perceber que, quanto mais alto e valoroso for o oponente, maior será a expansão dos objetivos a alcançar. Platão escolheu Homero porque Homero era o maior, porque Homero construiu sua reputação com obras sólidas nas quais narra não só a história, mas a tragicidade das guerras, os reflexos que as batalhas causavam nas cidades, as agressões que o habitante sofria e a catástrofe que produzida pela guerra de conquista, entre elas a escravidão, a peste, a fome. Além do mais muitas das guerras resultavam vazias, eram apenas uma demonstração de força que ao final deixava a terra, a cidade e os habitantes arrasados. Homero não cantou somente os heróis, tratou de mostrar à gente que não participava da guerra, ao habitante que só recebia as notícias e assistia os desfiles dos vitoriosos, tratou de registrar que existia um outro lado das batalhas que era invisível para a realidade do cotidiano. Daí porque, como Jaeger bem observa...

Um fato relevante nos leva a procurar saber se Platão tinha razão para encontrar um determinado “valor educativo” na poesia e que esse valor se justificasse em importância, que o fizesse detonar um ataque a Homero de tal maneira obstinado e demolidor como o executou. A literatura não tinha então status material, só existia criação em forma de poesia, teatro ou crônica, textos cuja interdependência, ainda assim, não era claramente delineada. Não havia uma literatura intertextual como chegou até nós, capaz de se interagir entre si, entre si e o público e entre si e o leitor. Então, em princípio, não havia como localizar elementos educativos nem na poesia nem na crônica. Mas a poesia narrativa de Homero era educativa. Por quê? Homero conseguiu mesclar na poesia épica elementos históricos com fragmentos míticos, segmentos trágicos com bases contemporâneas, sinalizando uma saída para o labirinto nuclear da história do seu tempo. A guerra para ele era uma tragédia cheia de mitos, mas também uma ação que apontava os heróis como seres humanos, trazidos do campo de batalha para o dia a dia, o cotidiano onde mitos e heróis reencarnavam de novo em seres humanos, agora com as mazelas que a guerra cravou em suas almas. À vista da juventude o mito se tornava humano, o herói perdia muito cedo a láurea, a conquista muitas vezes se mostrava vã por trazer em seu bojo um vazio que se traduzia na escravidão importada apenas para satisfazer a elite dominadora.

Platão queria pulverizar esses elementos atrativos que havia na poesia de Homero e que o fez popular entre os jovens. Nesse ponto é que a poesia de Homero agrega elementos educativos, não por ter sido escrita com essa finalidade, mas porque Homero conseguiu juntar em seu texto a fidelidade do historiador, cuja visão tem de considerar o distanciamento necessário à compreensão dos fatos, sem descartar os fragmentos míticos ancestrais e ainda usar o seu tempo não apenas como um elemento decorativo, mas aderindo-o à idéia de que os dias que vivia eram o resultado mais claro das batalhas levadas em terras distantes. Por algum motivo a juventude se colocou na posição de alvo para essas assertivas e Homero passou da qualidade de poeta e historiador para a de verdadeiro herói nacional. Um tipo de heroísmo que Platão não considerava válido para a república sonhada. Havia assim elementos que justificavam o ataque à poesia, primeiro transformando-a em “valor educativo”, para depois adicionar o fato de que a filosofia, sim, trazia os valores necessários capazes de educar não só a juventude, mas também de dirigir o Estado, a República. Platão choraria ao ver que os seus desígnios se fizeram pó, porque a Filosofia não sobreviveu nem ao Estado nem à Poesia.

Agora cabe averiguar se a segunda assertiva de Platão tem seus fundamentos: é a poesia uma fonte corruptora da juventude? Para nossa alegria, na forma que a poesia transitou durante seu percurso desde o desconhecido até os dias de hoje, sim. Sim! A poesia, mãe de todas as literaturas segundo muitos de seus admiradores, historiadores e críticos, a poesia traz em seu corpo elementos capazes de corromper a juventude. E neste momento nem é necessário nem me atrevo a transgredir esta crônica para os caminhos didáticos da literatura, para tentar provar e/ou/a justificar – mediante argumentos fantasiosos e disparatados – por tantos e quais fatores a poesia é corruptora. Encaminho-me diretamente à comparação com o Poema Sujo, o tempo e o espaço de transita desde a sua elaboração, o caminho que percorreu até o conhecimento público, o efeito que provocou nas altas camadas cultas e culturais, a forma como voraz e veloz contagiou a juventude, tirando-a de uma letargia imposta pelo Estado e corrompendo-a em definitivo. Daí o porquê de fixar – como na visão de Platão – o Poema Sujo como corruptor da juventude...

2. O “Poema Sujo” corruptor da juventude

“A censura mais grave (de Platão sobre a poesia e, por extensão, à poesia de Homero) é a de que a Poesia corrompe os nossos juízos de valor”. Werner Jaeger

“A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. Só ela possui ao mesmo tempo a validade universal e a plenitude imediata e viva, que são as condições mais importantes da ação educativa”. Do que resulta que a poesia tem a vantagem sobre qualquer outro ensino intelectual e verdade racional, assim como sobre as metódicas experiências acidentais da vida do individuo, sejam elas de caráter material ou imaterial, mas que resultem no autodidatismo.

“Estas observações não são, de modo nenhum, válidas para a poesia de todas as épocas nem sequer, sem exceção, para a dos gregos”. Quer dizer que, se hoje vivemos numa sociedade administrativamente globalizada, cujo controle exacerbado atinge as raias do inimaginável, tal e qual preconizou Maquiavel e mais recentemente Aldous Huxley e George Orwell, não há sombra de dúvida que devemos a Platão a precocidade de tais idéias. Ou seja, nem O Príncipe, nem Admirável Mundo Novo, nem 1984 existiriam como obras avassaladoras se Platão não tivesse escrito A República.

Para se entender a tentativa de Platão para enquadrar o ser humano dentro de uma regra global (prenúncio da Aldeia Global?), para ele considerada ideal, primeiro se deve ter em conta que o objetivo principal era fixar as normas de regência da cidade (país) e da sociedade (povo), desde que estabelecidas de modo a ser regidas, administradas e controladas pelo Estado. O conceito de justiça – para fixar o tema como raiz de tudo – ”converteu-se numa nova força formadora do Homem, análoga ao ideal cavaleiresco do valor guerreiro nos primeiros estados da cultura aristocrática”.

Neste caso cabe o ataque à poesia como corruptora da juventude, visto que ela, “a poesia, só pode exercer uma ação educadora se puder impor-se a todas as forças estéticas e éticas que municiam o cotidiano do homem. Só pode ser educativa a poesia cujas raízes mergulhem nas camadas mais profundas do ser humano, na qual viva um “ethos”, na qual resida um anseio espiritual, uma imagem do humano, se for capaz de se tornar uma obrigação e um dever”.

Com Platão, a obediência às leis do estado ganhou um conteúdo palpável, ainda inimaginável, mas também status conceitual de justiça oficializada. Ora, esse é o mesmíssimo conceito que adveio com o cristianismo (mas que já existia em várias religiões, inclusive as de raízes judaicas), que veio a determinar a “virtude cristã” como obediência necessária (e cega), aos preceitos divinos. Platão tenta estabelecer idéias para cimentar os direitos e as obrigações do homem. Assim, o ”conceito de justiça, tida como a forma de Arete que engloba e satisfazem todas as exigências do perfeito cidadão, supera naturalmente todas as formas anteriores”.

Conta Platão que era opinião espalhada no seu tempo ter sido Homero o educador de toda a Grécia. Aqui se pode imaginar a importância dos fãs do poeta, que não só o enaltecem como fonte de prazer artístico, mas também como guru, guia espiritual de uma geração que passou a pensar na cidade e na vida, como focos alternativos às guerras de conquista e à carreira política.

A concepção do poeta como educador do seu povo – no sentido mais amplo e profundo desta palavra – foi familiar aos gregos desde a sua origem e manteve sempre a sua importância. Como esse status se perdeu? Como e por que o poeta foi vencido como elemento educador? Por que a poesia perdeu o “ethos” educativo? Para que a poesia chegasse a esse momento crucial sem dúvida prevaleceu a iniciativa e o poder das idéias de Platão, quando ele se dispôs a converter a democracia grega como exemplo a ser seguido.

Quando hoje se sente o olho, o cérebro, os braços e punhos de ferro do big brother cuidando da gente, não há como achar que tudo isso é novidade. Vem de bem longe o desejo de dividir a humanidade entre domadores e domados, controladores e controlados. Só que, após inúmeras tentativas – nas quais todos os recursos humanos e inumanos são utilizados, porém rechaçados, um a um – é de se questionar no que redundará a persistência em manter sob o tacão a maioria (produtiva, mas silenciosa), ação na qual são empregados todos os poderes do Estado.

Sim, caro cidadão, todos os poderes, sustentados por uma democracia camaleônica, tanto o legislativo, quanto o judiciário e o executivo, estão movidos por uma máquina na qual todos embarcam a cada mandato, tendo como destino final o controle absoluto do citadino (objetivo esse ao quais todos os governantes, de todas as legendas políticas, aderem incondicionalmente). Dessa raiz surge a convicção que também as forças sociais circundantes – profissionais de saúde, legisladores, advogados, juízes – todos se convencem que também fazem parte da máquina controladora e cada um cumpre com perfeição seu destino.

Cada vez que a natureza humana frustra esse desígnio, o Estado perde a razão, se transforma em ditadura, se torna violento e terminam por acrescentar ao somatório de todas as engrenagens cada vez peças mais agressivas, mais virulentas. É quando os indomados acabam sendo os humilhados, os perseguidos, os injustiçados. E por conseqüência os revoltados, os dissidentes, os rebeldes. Nesses casos retornamos à “Paideia” original, na qual todo o poder se sustenta numa força policial gigantesca, que sempre é ativada quando periga a derrocada do “pathos” constituído. Nada se perde nem se ganha sem a violência da força...

Nenhuma épica de povo algum exprimiu de modo tão cabal e tão sublime o sentido universal do destino e verdade perdurável de vida como na poesia de Homero. Só mais algum tempo depois surgiu Dante e a Divina Comédia, que vieram desempenhar um papel análogo ao de Homero e suas epopéias, não só na vida da sua própria nação, como também de toda a humanidade. O “pathos” do sublime, destino heróico do homem lutador, é o sopro espiritual da Ilíada, do Poema Sujo e da Divina Comédia, nutridos por um universo de grandes tradições de resistência, de urgência e exigências que atingem a esfera mais alta da vida, da qual toda poesia se nutre. A poesia grega desenvolveu com plena consciência, degrau a degrau, sempre num crescendum, o espírito educador.

No entanto, entregando-se enfim à força da realidade, Platão nomeia o êxtase poético como uma das mais belas ações do delírio divino e aceita a conexão com ele de outro fenômeno original que se manifesta no poeta, ou seja, a inspiração. No caso de Gullar, por exemplo, a posse e o delírio causado pelas musas se apoderam da mente sensibilizada pelo exílio, despertando-a em êxtase e palavra, na criação poética que glorifica o passado – e assim educa para o futuro, o futuro mais imediato, aqui e agora. Ferreira Gullar, muito mais do que na sociedade ativamente política daquele instante (e de modo imperceptível), encontrou na juventude emergente, nas cabeças ainda em formação, o campo necessário para a seara. O Poema Sujo, passado o primeiro momento de espanto da classe média, exerceu numa sociedade que ainda não existia de fato, uma brutal influência, num tipo de inserção pelo qual a poesia ainda não havia experimentado.

No entanto, por que, muitos milênios passados após essa tentativa frustrada de estabelecer uma sociedade – Paidéia – cuja atividade global (significa dizer a própria existência – Arete), fosse regulada dentro de limites estreitados por regras falhas (pois saídas da mente humana) – porque não deu certo? Por que tudo não ocorreu como Platão e a sociedade que ele representava queriam?

Neste caso também, não há sombra de dúvida, coube à poesia fazer desmoronar tudo aquilo que Platão preconizava em A República, para pré-estabelecer uma vida politicamente estável e socialmente feliz, mas absolutista e controlada, tendo submetido o ser humano às regras do perfeito cidadão. À poesia, sim, que foi o princípio da educação, antes da educação existir como agente política. A fórmula era simples: a poesia educava o povo, o povo se educava através da poesia.

A rigor, a existência cultural da poesia como importante fator auto-educativo nasce de duas contracepções que se fixaram como norma de modo natural. Se por um lado “o Estado constitucional nasce já do espírito racional e, por isso, não tem qualquer parentesco de origem com a poesia (...), em contrapartida, a esfera da intimidade pessoal do Homem, totalmente alheia à vida política, abre um novo mundo de experiências à poesia, que avidamente lhe explora as profundezas”.

Então, a pinimba que Platão tinha não era com Homero, o alvo escolhido era a poesia, não somente como criação, mas que ela se tornara fator educativo para a juventude intelectualmente mais saudável, que costumava ser direcionada para as armas, para a política e para uma cidadania dominadora. Já imaginou deixar nas mãos dos poetas a educação cidadã do jovem? Seria uma catástrofe impensável. Nesse e em outros temas de controle da população, o Estado venceu. Por isso não se pode dizer que Platão enfrentou Homero naquela ocasião em que eram estabelecidos os alicerces do Estado Moderno. Platão agiu como um ditador para que a via democrática (leia-se controle Estatal) dos gregos atravessasse os primeiros tempos intacta, com saúde bastante para exportar sua influência.

O valor educativo da poesia – que Platão combateu no último volume de A República – estava intrínseco. Enquanto narrador das epopéias, Homero exaltava o valor das conquistas do soldado e da armada grega. Em seguida registrava a vida devastadora dos ex-combatentes mutilados e a feição que a cidade tomava com a presença incômoda dos soldados aposentados que, como hoje, não aprendiam a viver numa comunidade que vivia em paz cuidando das atividades cotidianas. A juventude grega era educada para a guerra.

Esse mesmo valor educativo (alguns diriam mal educativo) se encontra no Poema Sujo. Em contraposição à luta coletiva de nação contra nação, a guerra de conquista empreendida pelo Estado, Gullar trava a batalha da liberdade pessoal e da mazela que significa o exílio. O Poema sujo é um épico de si mesmo, mas, da mesma forma com que a Ilíada e a Odisséia cresceram na sociedade grega, o poema de Ferreira Gullar foi de encontro aos anseios de uma comunidade avassalada pela agressão militar. Como de fato, nada é mais catastrófico para o cidadão do que se ver atacado pelo seu próprio exército, seus próprios soldados, seus próprios parentes, ainda mais por aqueles que, em tese, deveria defendê-lo.

Quando o Poema Sujo chegou até nós em 1976 havia um setor livre das agressões sofridas pela sociedade, quer dizer, um segmento que não era atingido de modo letal pelo poder do regime militar: era a juventude estudantil com idade entre 14 e 18 anos, que cursava o segundo grau escolar, projetando-se para alcançar a universidade. No entanto, essa parte da juventude não era de todo alienada, como as cabeças pensantes julgavam, ao contrário, havia um estado de atenção a tudo que ocorria em seu redor. E se na ocasião essa massa jovem se abstinha de tomar decisões políticas, havia um dedicado esforço em compreender a História que vivia diariamente.

Desse alicerce, bem preservado das agressões, num futuro próximo nasceriam os cara-pintadas, já trazendo no bojo de sua filosofia as reivindicações políticas e éticas para um futuro próximo. Cumpre ressaltar, que nesse exato momento o mesmo não ocorreu com os intelectuais, cientistas e parte dos “formadores de opinião”, um pensamento análogo. Houve, sim, uma fragmentação inesperada e depois um vácuo – a força pensante se fragmentou entre o exílio, a morte, a fuga, a adesão.

Nessa ocasião eu estava no Méier, tinha uma biblioteca razoável e era constante a presença de parentes, estudantes, amigos dos parentes, indicados, que ouviram falar, e outros tantos que chegavam para ler, pesquisar, ouvir, copiar. O Poema Sujo chegou diretamente da Rua 7 de setembro e o livrote em formato de caderno escolar da editora Civilização Brasileira correu de mão em mão, datilografado e copiado numa pirataria saudável, foi lido, dissecado, declamado entre risos, dramas, choros e chorinhos. Era o início de uma educação através da poesia, que induzia as jovens cabeças a enfrentar riscos para encontrar a saída pacífica do labirinto em que uma geração confusa estava prestes a se perder. Se houvesse a possibilidade de fazer um paralelo, o Poema Sujo fez o mesmo papel que o samba Vai Passar, de Chico Buarque, representando um passo decisivo ao encontro dos caminhos da liberdade.

Não obstante o Poema Sujo ter sido apresentado por Vinicius de Moraes pela primeira vez  à elite intelectual do Rio de Janeiro, que o levou de imediato a São Paulo, numa segunda etapa sua divulgação se transportou para as universidades e mais adiante aos cursos e escolas secundárias de todo o país. Foi nesse ponto que sua divulgação se fez através do meio de comunicação mais primitivo – o boca a boca – transformando o Poema Sujo num tipo de literatura de cordel, quando era recitado, de cor e salteado, entre os jovens, que, num trabalho de formiga, multiplicava as cópias fazendo-as circular de mão em mão. Entre os jovens foi nesse momento silencioso que se iniciou o movimento histórico, prontamente acelerado e logo incontrolável, que não poderia ser detido senão com a mudança da direção do país, o fim da ditadura, o enterro do regime militar.

Aqui Ferreira Gullar enfrentou Platão, quando o Poema Sujo, esse épico da individualidade, se transforma em instrumento de educação, despertador de uma letargia atemporal, num condutor de novas idéias, libertador do “acomodismo” implantado pelo Brasil do ame-o ou deixe-o.

Ferreira Gullar no exílio soltou o grito que todos os jovens tinham preso na garganta, na alma. Um berro que ecoou em todas as cabeças jovens e se multiplicou através do país tornando-o uníssono. Foi assim que o Poema Sujo se firmou como elemento corruptor da juventude. Enfim Platão estava cheio de razão: como o filósofo preconizou há milênios, o poder educativo da poesia é capaz não de corromper os juízos de valor, mas de revelá-los quando se escondem sob o manto diáfano da opressão! Sobre todo o demais a História já disse tudo. Ah, esses poetas...

¹ Werner Wilhelm Jaeger (30/07/1888 - 09/10/1961) nasceu em Lobberich, Alemanha, estudou na Universidade de Marburg, recebeu o  Ph.D. na Universidade Humboldt de Berlim em 1911 com a dissertação sobre o Metaphysics de Aristóteles. Aos 26 anos Jaeger foi para a Universidade de Basel na Suiça. Um ano depois foi para a Universidade de Kiel. De 1921 a 1936 ficou em Berlim, de onde emigrou para os Estados Unidos, fugindo do regime nazista. Ensinou na Universidade de Chicago entre 1936 e 1939, depois foi para a Universidade de Harvard, em Cambridge, onde lecionou até a sua morte em 1961. Jaeger ficou conhecido pela obra “Paideia; die Formung des griechischen Menschen", a mais extensa, completa e profunda reflexão filosófica sobre a prática e a natureza da educação na Antiga Grécia. Com essa obra Jaeger recuperou os valores positivos da Europa em suas origens helênicas. Principais obras: Aristoteles; Grundlegung einer Geschichte seiner Entwicklung (1923); Platons Stellung im Aufbau der griechischen Bildung (1928); Humanistische Reden und Vorträge (1937); Paideia; die Formung des griechischen Menschen, 3 vols. (1934); Humanism and Theology (1943).

² Torquato Neto (Teresina-PI, 9/11/1944-Rio de Janeiro-RJ, 10/11/1972). Estudou em Salvador, em 1962 foi para o Rio de Janeiro, onde se destacou no jornal Última Hora com a coluna Geléia Geral. Participou do LP “Tropicália ou Panis et Circenses”, produzido por Rogério Duprat (músicas: Mamãe, Coragem e Geléia Geral). Ao completar 28 anos de idade suicidou-se na madrugada do dia seguinte.  "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar" - escreveu no último bilhete.

³ Paidéia seria “o processo de educação do homem em sua verdadeira essência e forma, na sua real e genuína natureza”. Ora, a educação envolve todas as formas éticas e estéticas, tudo aquilo que a arte abrange ou não, o estado, a empresa e a política, etc. Isso torna a expressão Paidéia simplista ao extremo, posto que o horizonte amplia-se de tal forma descontrolada, que é impossível definir tudo aquilo o que ela representa.

Salomão Rovedo
Enviado por Salomão Rovedo em 25/10/2007
Código do texto: T710142
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Sobre o autor
Salomão Rovedo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 75 anos
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Salomão Rovedo