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LEITE POUCA VIDA

Lúcio Alves de Barros*

É o fim da picada! Um desastre! Um absurdo! Uma vergonha! É até difícil de escrever sobre os últimos acontecimentos associados à saúde pública no Brasil. Quando se pensa que tudo já aconteceu, que pouca coisa ainda é capaz de assustar o brasileiro, ainda sobra criatividade para os escândalos. O problema do leite! Logo o leite! Pelo amor de Deus! Só pode ser brincadeira! Preciso acordar, pois é inacreditável.

Segundo as últimas notícias, e olhem que são assustadoras, duas empresas sediadas em Minas Gerais, adulteravam o leite das vaquinhas mineiras. No alimento branco e antes de boa qualidade era inserido, com requintes de ciência, água oxigenada e soda cáustica. Sinceramente, na minha pequena e humilde percepção, sempre pensei que soda cáustica era para desentupir a pia ou a privada da vizinha, principalmente quando ela estava sozinha. A água oxigenada, no meu pequeno universo, era utilizada ostensivamente para deixar loiros o cabelo e os pelos das mulheres feias e bonitas. Quem diria que um gênio pensaria em colocar tais produtos no leite e que este ficaria tal como (ou melhor) ao do que sai das tetas da vaquinha?

Coitadas das vaquinhas. Creio que não devemos culpá-las, são exploradas e há muito pagam pela mais valia. Mas, partindo do pressuposto que cerca de 450 mil litros de leite abasteciam São Paulo e Minas Gerais, é óbvio que se faz necessário procurar e punir os culpados. Deixemos as vaquinhas em paz. É bom olhar o empresariado que enche a boca de ética e a barriga de cerveja porque o leite eles não tomam. Mais que isso, não podemos deixar de perguntar onde andava a fiscalização governamental que vive de nossos impostos. Se for verdade o que está estampado nos jornais e na televisão temos, aproximadamente, mais de 20 anos de leite adulterado. Talvez seja por isso que no país muitas mulheres e homens tenham ficado loiros. Não é da minha conta a cor dos cabelos de ninguém. Contudo, sequer sabemos, a despeito de alguns químicos falarem o contrário, das conseqüências de tais produtos no organismo humano. Não ficarei assustado se uma criança de meses aparecer loira, com problemas no estômago, cega ou com braços e dedos a mais. Não entendo de mutações humanas.

Todavia, é inescapável o pensamento de que a fiscalização em solo brasileiro anda de mal a pior. O Brasil é o país do depois. Não existe prevenção em nada. Primeiro as coisas devem acontecer e quanto mais escandalosas melhor: depois é um tal de abafa pra cá; cala a boca pra lá; a culpa é de fulano... é de cicrano... e a gente já acha que, no caso do leite, está tudo bom e nada como uma criança perguntando, “tomo”?

Sim! Creio que tomamos mais uma “traulitada”, e, quando vejo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária batendo cabeça, penso até em tomar mais leite para começar minha vida de dependente de drogas ilícitas. Mais que isso, se for verdade que o governo já sabia do escândalo desde o final de 2005 e que tudo estava sendo “sigiloso”, confirma o que há muito sabemos: “esse país não é sério”, e o povo que nele vive é pior ainda. Com leite ou sem leite, não é possível que tudo isto esteja acontecendo. Pior que está, e agradeço a Deus por ter mais de 30 anos e não ser muito chegado a tomar leite. Talvez seja por isso mesmo, uma boa hipótese, o leite que há muito estou tentando tomar anda me fazendo mal, me causa náusea e a famosa diarréia. Deve ser a soda cáustica entrando na privada. Pelo amor de Deus! Não mais consigo acreditar na integridade das vaquinhas, aquelas coitadas, mas ainda acredito no ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, que chegou a afirmar que tomaria somente leite em pó.
A “brincadeira” no Brasil tem que acabar, às vezes penso que é difícil acreditar na existência e na salvação deste país. Veja bem, a coisa pode ser muito mais séria e complexa. Poucos ainda pensaram na magnitude do problema. Para isso, basta pensar nos derivados do leite e lembrar que as empresas em Minas Gerais atendiam duas grandes multinacionais, a Nestlé e a Parmalat. Tais empresas são líderes no mercado e vendem outros produtos derivados do alimento branco. Não se sabe ainda o tamanho da “sacanagem” deste novo escândalo. O que posso afirmar é que não entendo nada de engenharia química e que estou torcendo para que as crianças estejam bebendo nada mais do que o velho e bom leite das vaquinhas. Estou realmente convencido que devo acreditar que somente alguns lotes passaram dos “padrões de qualidade” e que o leite não acabou com muitos casamentos, haja vista que não levou a efeito muitas mutações. Desejo crer que existe ética no campo empresarial e que os gatos que andam morrendo por aí não tenham experimentado o leite das empresas mineiras.
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*é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela UFJF, mestre em Sociologia e doutor em Ciências Humanas: Sociologia e Política pela UFMG.

Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 05/11/2007
Código do texto: T724833
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros