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APENAS MAIS UM CASO DE AMOR

Para melhor aproveitar a leitura deste texto é necessário se situar no ano em que o objeto de seu tratamento, a edição do Plano Cruzado, se deu - 1985.   1985 marca o fim do regime militar iniciado em 64.  Sobre esse movimento falaremos em outro artigo (já no forno) e garanto que sua leitura servirá, também, para auxiliar o entendimento dos fatos abordados pelo presente.  Já no ano seguinte (86), distúrbios de rua, nos principais centros do país, tornaram evidente o que foi uma grande frustração.  O que segue é a simples interpretação dos fatos na visão de um patriota traído.   Oxalá nossos dirigentes entendam que demagogia e populismo, embora produzam calorosas e fáceis demonstrações de apoio imediato, não são bons conselheiros.


Como  disse o economista canadense John Kenneth Galbraith (1908-2006), em A Era da Incerteza, “NADA IMPÕE LIMITES TÃO RÍGIDOS À LIBERDADE DE UMA PESSOA QUANTO A FALTA DE DINHEIRO”.   Esta frase revela  o sentimento de dor provocada pelo mau gerenciamento econômico ou ainda pela formulação de uma  política equivocada.  Senão, vejamos:

No dia16/11/86 fomos brindados pela severa fala, em cadeia nacional de rádio e TV, do Excelentíssimo Senhor Ministro da Justiça, Dr. Paulo Brossard, acerca das manifestações de revolta ocorridas há poucas horas em Brasília.  No entanto, torna-se imperioso que desmascaremos algumas hipocrisias.

1ª – Em Brasília, o local dos protestos foi exatamente o mesmo que a população usara em tempos recentes para dar as boas-vindas a esse mesmo Governo que ora a condena, em função das mensagens que prometia ainda em sua fase de campanha pré-eleitoral (resgate da soberania nacional, das liberdades individuais, da justiça econômica e social, etc.) e que a população entendeu como a essência do chamado e badalado Plano Cruzado. Portanto, é incoerência e hipocrisia condenar essa mesma população por ter se manifestado em local onde há pouco fora por ela ovacionado efusivamente e sem restrições.     Registre-se, ainda, que Brasília, pelo seu traçado, malandramente coloca a geografia do Poder muito distante da geografia da Nação.
 
2ª – Esse Governo da Nova República captou muito bem seu excelente nível de aceitação por quase toda a nacionalidade, estabelecendo com ela um verdadeiro namoro, tal a identidade de pontos de vista e mútua confiança conquistada através de conversas ao pé do ouvido, cuidadosamente elaboradas e apresentadas diariamente pelo Presidente Sarney em seu programa Conversa ao Pé do Rádio.

Atuando como bom amante, tudo fez para agradar sua parceira, no que concerne à explicitação de propósitos, sabendo dizer-lhe, exatamente, o que ela queria ouvir.  Dela, mais, muito mais que simples aplausos, conseguiu sua fervorosa adesão quando lhe presenteou, não com um pacote, mas com um vestido de reforma econômica sem saber, no entanto, qual o manequim de sua amada.  O impacto inicial foi tão favorável que foi possível identificar naquele momento um amor à primeira vista.  E como toda  forte paixão, revestida do caráter da mais intensa impulsividade.

Lembro muito bem, quando da edição do Cruzado, que vi e os órgãos de imprensa noticiaram fartamente, atos de vandalismo contra casas comerciais (o apedrejamento seguido de arrombamento do Bob’s da Av. Pres. Antonio Carlos, no Rio, foi um exemplo emblemático) e diversas outras formas de insanidades cometidas pela população que, por atenderem aos propósitos do Governo (eram os "fiscais do Sarney" em ação), não foram merecedoras de qualquer reprimenda por parte de nenhum Ministro cioso de seus deveres de manter a paz e a ordem.  Foram tratadas como manifestações justas, decorrentes de um sentimento de alívio – “o final da opressão econômica!” materializada por uma sádica e burra inflação.    A Alemanha de Hitler também viu isso...

Quando as partes acordaram que já era hora de transformar esse namoro em casamento, o 15 de novembro registrou uma festa magnífica!  O Governo comemorava o resultado das eleições dos candidatos do PMDB aos executivos de quase todos os estados, amargando derrota em apenas um.  Mas o fato é que a noiva havia sido traída.  Já no dia seguinte, em plena lua de mel (como nos piores casamentos), o noivo mostrou a que veio.  Ao acordar, decretou realinhamento de preços, pondo fim ao então amado congelamento.  Foi quando ela se deu conta de que não havia conquistado um marido, um protetor, mas um impostor de péssima linhagem!

Tudo isso se deu porque o Presidente de fato, deputado Ulysses Guimarães, então Presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados, impediu que o Presidente de Direito, José Sarney, cumprisse a principal prescrição técnica de seus formuladores liderados pelo Ministro da Fazenda, Dilson Funaro, qual seja, uma imprescindível correção de preços após determinado prazo, para evitar distorções no ambiente econômico.  A postura demagógica apresentou seu preço.  Houve abundância de escassez nas prateleiras dos supermercados; confiscos de gado e de produção agrícola e suspensão de crédito internacional em função de uma suicida decretação de moratória unilateral.  Frustrada, a população se rebelou de norte a sul, promovendo quebra-quebras, incendiando carros, etc. tal qual enfurecida vítima de adultério.

Na obra O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millor, Millor Fernandes diz: “O amor, em si, é incoerente.  Normalmente chega de forma discreta.  Cresce.  E quando morre, é aquele quebra-quebra!”

De minha parte, só restou o pedido de divórcio.  Fui  afogar minhas mágoas num copo de chopp do Bracarense, cantarolando Elis:
 
“Fica junto dos seus, boa sorte e adeus....”
Dom AFONSO
Enviado por Dom AFONSO em 02/12/2007
Reeditado em 07/12/2007
Código do texto: T762393

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Sobre o autor
Dom AFONSO
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 70 anos
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