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A quem interessa a violência urbana?

                      A quem interessa a violência urbana ?
                                                                               
     Temos ouvido diariamente boatos de que a população de Esquesópolis (onde tudo é esquecido com facilidade) não agüenta mais o clima de violência que assola as cidades grandes. Isto nos faz pensar que a maior parte da sociedade está pronta para pressionar seus zelosos representantes nas câmaras no sentido de adotarmos rápidas medidas (simples) para reduzir os índices a níveis suportáveis. No entanto, o tempo passa e nada melhora, pois tal pressão não acontece. Na verdade, existem diversos segmentos interessados neste estado de calamidade. Observemos alguns:
                                                                               
01) Políticos - notícias dolorosas desviam a atenção de escândalos fiscais e desvios de verbas.
02) Padres - defender o vilão comove mais do que ajudar o vitimado.
03) Seguradoras - a venda de seguros prolifera.
04) Indústrias - aumentam escoamento da produção de novos objetos para substituir os furtados.
05) Bancos - comandam ou financiam seguradoras.
06) Mídia - noticias sobre boas ações não entusiasmam os leitores e ouvintes. Vende-se mais se a vítima for uma personalidade.
07) Polícia - maus policiais aumentam sua renda através das propinas.
08) Oposição - este é um prato cheio para atacar o governo perto das eleições.
09) Governo - tem mais um motivo para pedir empréstimo no exterior.
10) Miseráveis - torcem para que a classe média caia no buraco com eles.
11) Hospitais - aumenta a demanda, propiciando novas “licitações”.
12) Laboratórios - pegam carona com os hospitais.
13) Funerárias - se mantém vivas com a morte em alta.
14) Escolas particulares - apregoam segurança em suas instalações para justificar aumento das mensalidades.
15) Ferramentarias - a venda de grades vai de vento em popa.
16) Firmas eletrônicas - atrás das grades, vem um circuito interno de tv.
 17) Advogados - tem processos para defender durante os próximos 20 anos.
18) Abutres estrangeiros – reforçam sua tese de que somos um país de selvagens e que não merece ser ouvido nas decisões mundiais.

     Dentro de 30 segundos você vai começar a acreditar que a violência é a mola que vai impulsionar este país, aumentando a produção e criando novos empregos para a população desesperada e sem esperança de dias melhores! E não está longe de ser verdade, pois o comércio de armas e drogas movimenta mais de R$ 1 BI por ano apenas no eixo Rio-SP.
     E assim vamos sendo levados como rebanhos sem termos certeza de voltarmos vivos para casa a cada dia. Armadilhas mortais são colocadas em nossos caminhos a cada esquina. Quando morrem trabalhadores humildes e algumas famílias ficam ao relento sem sustento, não recebem visitas de comissões de ONGs de direitos humanos para averiguar o que está sendo feito para acabar com isto. Quando um facínora morre em condições violentas, estas entidades (apoiadas por vários padres "protetores de criancinhas") aparecem na mídia como grandes defensoras dos "direitos do cidadão". Mas como nada se faz, este modelo de vida deve ser muito agradável para o povo que se diz oprimido mas se satisfaz com cigarro, cerveja, novelas fúteis, Big-bobo-Brasil-n, samba e mulheres quase nuas nas propagandas da tv.

     E quem é contra isto?  Os poucos trabalhadores, inocentes úteis que sustentam uma grande corja de canalhas e golpistas que se instalaram no poder há décadas. A cada pleito, apenas servem de coadjuvantes na novela cujo final feliz sempre premia os membros da elite patrocinadora das campanhas eleitorais.
                                                                               
     Este quadro nos está levando para uma futura convulsão social. Será que as autoridades do país não percebem isto?  Seus assessores (são dezenas) não lhes passam as noticias sobre as penúrias que este povo sofre?  Vão continuar a levar sustos após verem o programa "fanático" no domingo?  Ou já possuem algum bom esquema de fuga e pouco se importam com o fim da paciência da população, que certamente redundará em conflitos entre irmãos? Não basta ficarmos passeando em volta da lagoa com camiseta branca gritando "Viva Ri(c)o". Temos de investir duas horas por semana (no mínimo) já dentro do condomínio, onde nossos jovens vagueiam dentro das gangs que se formam apenas para furtar carros dos moradores e usarem drogas para encherem suas cabeças sem esperanças. Deste segmento já corroído pelas drogas malditas, não surgem idéias para aumentar o nível de qualidade de vida das comunidades que gravitam em torno dos luxuosos condomínios que se iludem com a “segurança” pela qual pagam caro e pouco recebem de volta.

     O irônico deste fato, é que as maiores violências são efetuadas com canetas nos gabinetes da Côrte, quando medidas provisórias e permanentes são editadas, contratos escusos são assinados com empreiteiras, cheques fantasmas são descontados aos domingos, leilões-doações são encenados, “mensalões” são colocados na “pizzaria” do Planalto e desvios de verbas são efetuados sem que os mentores de tais atos (mesmo conhecidos) sejam penalizados. Este conjunto de fatos leva o povo daqui ao desespero perdendo o sentido de cidadania. Quando um fato chocante consegue agrupar uma boa parcela do povo numa ação que poderia servir como balizador de futuras atitudes similares, fabricam algum novo escândalo para ocupar as manchetes dos noticiários. Serve algo como meia dúzia de crianças desaparecidas em hospitais, idosos falecidos em clínicas suspeitas, queda das bolsas de valores no extremo do planeta, romance de presidente estrangeiro com dançarina de 17 anos ou explosivos em torres de energia, que podem ocasionar a perda da novela diária. E assim, o fato importante, que deveria mobilizar a Sociedade na busca integrada de seus direitos, é convenientemente colocado em segundo plano até ser esquecido pela comunidade.

    Para levar a galera no "bico", as autoridades gastam verbas editando panfletos sobre segurança, contendo incoerências do tipo: "no momento do tiroteio, não deixe sua cabeça de fora. Não seja curioso, pois uma bala perdida pode encontra-lo!" - mais à frente, orienta para que se "forneça a placa de carro, o tipo físico do atirador, o modelo da arma" - mas como ?  Não estava com a cabeça escondida?

    Que tal editar cartilhas a serem aplicadas nas escolas de base, onde crianças ainda sem vícios graves de comportamento possuem alto potencial de captar e reter orientações no sentido de praticar cidadania honesta? Que tal manter presos todos aqueles que desviam as verbas sociais e recuperar os valores aos cofres públicos? Seria um exemplo fortificante para sustentar as palavras que se perdem com as ações contraditórias e hipócritas.

    Ouvimos declarações de governantes afirmando que não é possível colocar um policial em cada esquina. Os moradores do lugar já sabem disto. Sabem que não é inaugurando um presídio por semestre que a violência será reduzida. Também não é possível ter um gari em cada esquina. Nem um médico a cada quarteirão. Todos sabem que é preciso atacar os problemas nas origens. Violência se combate com educação básica e profissional, procurando ocupar os jovens de forma que tenham a possibilidade de transformar seus ideais em realidade. Limpeza urbana se consegue evitando que a população suje o lugar onde mora e transita. Para que se torne hábito, tem de ser ensinado nas escolas, desde cedo. Com multas (não perdoadas) aos infratores. Redução de doenças vem em função dos hábitos de limpeza periódica.

    Em paralelo aos ensinamentos oferecidos nas escolas as autoridades devem criar (e usar) mecanismos que evitem entrada de armas no país, evitar fabricação de remédios falsos, impedir que os golpistas arrombem os cofres públicos usando suas imunidades, manter a coleta regular de lixo e outras dezenas de obrigações para as quais estas autoridades são pagas para administrar. Podem experimentar prender os mentores e praticantes de atos que prejudiquem a coletividade. Isto daria uma injeção de ânimo, confiança e esperança aos moradores do país, que assim, passariam a juntar as peças para montar sua identidade ainda fragmentada. Não adianta ficar espancando camelôs na Rua Uruguaiana para exibir no jornal das sete.

    Se parece tão fácil, por que não se faz?  Simples!  Mantendo-se o caos, cria-se o desespero em diversos segmentos da população. Cada nicho carente serve de curral eleitoral para os que precisam justificar sua permanência no poder. Se entidades sérias, apoiadas pela mídia independente (rara) comandassem um movimento similar ao que derrubou Collor, nosso problema poderia ser minimizado em menos de um ano. Mas dentro do cenário de interesses, conflitos e vaidades entre os poucos interessados na solução curta (ou média), com sorte teremos resultados em 99 anos.
Haroldo
Enviado por Haroldo em 27/11/2005
Código do texto: T77054
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Sobre o autor
Haroldo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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