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ReLer HOMERO

     O primeiro gênero da literatura ocidental é o épico. Com mais de 25 séculos de antiguidade, os dois longos épicos de Homero são os primeiros poemas do mundo ocidental: a “Ilíada” canta a cólera do herói Aquiles e os múltiplos feitos guerreiros dos gregos durante o cerco de Tróia. A “Odisséia” canta o retorno do herói Ulisses da guerra de Tróia.
     Homero, o maior aedo (poeta-cantor) da história da Grécia arcaica, não tinha conhecimento da escrita. Homero foi um autêntico homem-enciclopédia, visto que conhecia de cor os milhares de versos que compõem ambos os poemas. Homero era uma fonte de conhecimento. Na verdade, o poema matriz já existia quando chegou Homero; ele não foi propriamente o autor da “Ilíada” e da “Odisséia”, mas o responsável pela grande síntese daquilo que existia tão-somente na dispersão, pois os poemas homéricos estão carregados de “epos” (palavra ou discurso) inscritos numa longa tradição oral provinda do fundo dos tempos.
     O canto épico dá ênfase aos feitos heróicos de beligerantes personagens míticos. Gregos e Troianos são os protagonistas das epopéias homéricas. Os deuses do Olimpo estão divididos em suas simpatias e intervêm a favor de um lado e de outro. Nobreza, orgulho, elegância e poder são os valores que os antigos gregos tanto admiravam. Na “Ilíada”, de um lado, os heróis gregos Aquiles, Pátroclo, Ájax, Agamênon, Menelau, Ulisses... todos empenhados em recuperar a bela Helena que fôra raptada da Grécia pelo troiano Páris; de outro, os heróis troianos Heitor, Páris, Príamo, Enéias... todos infringindo baixas aos gregos. Na “Odisséia”, o herói Ulisses - dotado de astúcia e conhecido pelos seus “muitos jeitos” ou “rodeios” (algo que nos remete ao famoso “jeitinho brasileiro”) - durante as suas aventuras até o retorno a Ítaca. O canto épico é capaz de rememorar aqueles que morreram. Dessa forma, contra a história dos anônimos, que provocava horror aos antigos gregos, a palavra épica luta contra a morte e o esquecimento, visando perpetuar a lembrança dos heróis.
     Tanto a “Ilíada” quanto a “Odisséia” têm sido lidas por uma vasta diversidade de pessoas através dos tempos. Conforme bem observou George Steiner, há mais traduções dos poemas homéricos do que da “Bíblia”. Os textos de Homero abordam a experiência universal humana de forma insuperável. Eles são fontes inesgotáveis que “deram de beber” tanto à genialidade da literatura ocidental quanto ao imaginário do homem comum. A argiva Helena — a mais bela mulher do mundo — e os seus “olhos-de-cadela” (Ilíada, canto III): a causa da guerra entre os gregos e os troianos. Ah! O apreço de Machado de Assis por Homero: os “... olhos de cigana oblíqua e dissimulada” da Capitu machadiana no mundo de “Dom Casmurro”.
     Simone Weil [1909-1943], além de professora de filosofia na Sorbonne, lecionou francês, ortografia e marxismo para trabalhadores. Combateu na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa. Judia, Simone foi à Alemanha na véspera do nazismo para auxiliar os rebeldes. Anarquista e cristã, Weil participou de movimentos anticolonialistas e pacifistas. Além disso, liderou como porta-bandeira a “Grande Marcha dos Mineiros” num primeiro de Maio. Nos tempos sombrios que se aproximavam, com a ascensão das bestas imundas e assassinas do fascismo, do nazismo, do totalitarismo... Simone, buscando compreender sua conturbada época, lê e relê os historiadores antigos (Heródoto, Tucídides, Plutarco, César, Tito Lívio etc.). Relê a “Ilíada”, Ésquilo e Sófocles, a história das religiões, a epopéia de Gilgamesh, a “Bíblia”... Então, em 1934, por meio de uma corajosa opção pessoal, aluga um quartinho da Rue Lecourbe em Paris, e passa a viver como metalúrgica: torna-se operária na fábrica de automóveis Renault!! e decide escrever textos épicos para os operários.
     Dentre os numerosos estudos de Simone sobre a opressão e a injustiça, existem aqueles que procuram tornar acessíveis as obras primas da poesia grega às massas populares. Um deles é a sua versão da “Ilíada”, interpretada como um poema de força. Num trecho de uma carta de Simone dirigida ao presidente da Renault, lemos o seguinte:

“...acho, com um certo orgulho, que se preparar essas matérias e se elas forem lidas, os operários mais iletrados da Renault saberão mais sobre a literatura grega do que 99% dos bacharéis — e ainda mais!...”
       
     Como lembra Ecléa Bosi - em seu belo ensaio “Simone Weil: a razão dos vencidos”(Brasiliense) -, Simone traduz e interpreta a “Ilíada” para mostrar a pressão diante da qual a carne do homem se contrai. Ela se condoia de todos os oprimidos, do passado e do presente, afirmando:

“A violência às vezes é necessária, mas a meus olhos não há grandeza senão na doçura.”

     Dotada de “caritas” - no sentido cristão (todo homem é importante!) -, a pungente interpretação religiosa que a filósofa francesa Simone Weil confere à “Ilíada” procura enfatizar que o verdadeiro assunto do poema homérico é a força. A força que é manejada pelo homem e que submete os outros homens, desde tempos imemoriais. Consoante Weil, aqueles que imaginavam que a força havia sido relegada ao passado, graças ao progresso humano, podem ver na “Ilíada” um documento que mostra a força como centro de toda a história humana — trata-se, na verdade, do mais puro dos espelhos.
     Simone Weil, essa mulher que conversou com Cristo e discutiu com Trotsky (Simone achava que os operários russos estavam sendo sacrificados pela ideologia marxista-stanilista), e cuja obra é uma autêntica carta de direitos humanos, no fim de sua vida, desamparada e esquecida, murmura:

“Por que, desde que eu caí doente, nenhum de vós vem me visitar? Enquanto eu, se vosso servo adoecia, me apressava em ir vê-lo. Mais duro que a doença é para mim vosso desprezo”.
         
     “Os médicos a advertem de que a recusa permanente da comida a conduzirá à morte”, enfatiza Ecléa Bosi em seu belo ensaio. Em seguida, Bosi sublinha: “Alguns jornais ingleses noticiaram na época que ela se deixava morrer de fome: ‘French Professor’s curious sacrifice.”
     Judia, santa, metalúrgica, professora de Filosofia, cristã, anarquista?!
     Simone Weil estava só quando morreu na noite de 14 de agosto de 1943.
     

(PARA REFLETIRMOS – No alvorecer do terceiro milênio: os bombardeios da Otan e os trágicos acontecimentos ocorridos em territórios da ex-Iugoslávia; inúmeros conflitos e miséria alarmante no continente africano; há pouco, ainda vigoravam os violentos conflitos religiosos na Irlanda; a Índia e o Paquistão disputam, numa guerra insana, o território de Caxemira; guerrilhas na América do Sul; em minutos, o desmoronamento das torres gêmeas sepulta milhares de inocentes; violência generalizada e conflitos por terras, no Brasil... irmã Dorothy, brutal assassinato!!; regiões do Oriente Médio, solo da nossa tradição cultural, são devastadas pela ambição de um insano império; Amazônia em chamas! Homens e mulheres e crianças e velhos... bombas explodem!

QUESTÕES: afinal, quais lições estariam contidas nas duas epopéias de Homero? Como elas poderiam nos auxiliar?)



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
     primavera de 2005








SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 15/12/2005
Reeditado em 18/12/2005
Código do texto: T86080

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
267 textos (352003 leituras)
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SÍLVIO MEDEIROS