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PÁSSAROS CATIVOS

Recebo correspondência sempre que publico, há anos, textos falando de animais, como os poemas "Dor", "Terror em Porto Primavera", "Martírio". Aqui, quero falar especialmente de Pássaros. Algumas mensagens me dão incentivo, vêm de pessoas sensíveis que jamais prenderiam um pássaro. Outras apresentam dúvidas porque acham que o pássaro é bonito e "foi feito" para nos alegrar. Não entendo bem por que o homem sempre acha que tudo que existe no mundo é em função dele... Outros ainda acham que o pássaro que nasce em cativeiro deve ficar cativo porque não sabe procurar o próprio alimento e pode morrer sem proteção. E, infelizmente, isso é uma cruel verdade. Acho que essas pessoas, e outras que não se manifestam, merecem algumas explicações.

Antes, quero situar o leitor no espírito dos poemas. O primeiro (http://www.recantodasletras.com.br/poesias/70862), fala de passagem na dor de meu cotidiano, lancinante e constante, ouvindo "pássaros que trinam seus lamentos nas gaiolas da ignorância". Nem sei se a dor maior é ver o pássaro cativo ou se é ver o homem insistindo em ficar preso à própria ignorância. O segundo (http://www.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=78439) foi feito quando abriram-se as comportas para que as águas alagassem a hidrelétrica de Porto Primavera e não foram tomados cuidados essenciais como a retirada dos animais da área. Com o alagamento, muitos animais morreram afogados e, os que conseguiram se salvar, principalmente macacos que galgaram as árvores, ou morreram de fome ou optaram pelo suicídio e se atiraram nas águas para a morte mais rápida. Já não havia como salvá-los. E eu pergunto, no poema: "e o Ibama, onde está?" O terceiro (http://www.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=86540) fala, mais uma vez, da situação que vivo no cotidiano, ouvindo sem intervalo o canto triste de pássaros que são caçados e engaiolados (na maioria para venda) pois uns saem e outros entram constantemente. Consciente do problema e da ilegalidade do ato, denunciei e pedi ajuda à Polícia Florestal, dando todas as dicas para que o infrator fosse pego e, no mínimo, trazido à razão. A polícia veio após duas denúncias, constatou o fato, confiscou os pássaros. O caçador continuou. Denunciei para o Ibama e reforcei a denúncia junto à Polícia Florestal. E nada mais aconteceu, a caçada continuou e, com isso, meu sofrimento, grande sofrimento embora menor que o dos pássaros caçados. Um certo dia recebi a visita da Polícia dizendo que o caçador estava providenciando seus papéis como criador e, pasmem, até ameaças me foram feitas para que eu parasse com as denúncias. Mas eu só parei quando sua licença como criador foi efetivada e isso me foi informado pela própria Polícia. A mesma polícia que esteve aqui e confirmou o confisco, depois negou quando interpelada por um interessado, a meu pedido. Minha conclusão: infelizmente a polícia nada faz, e ainda pergunto: "e o Ibama, onde está?" (Um parêntese: Não estou generalizando. Polícia e Ibama contam também com pessoas corretas e acima de qualquer suspeita.) Eu tinha dado as dicas suficientes, fiz isso insistentemente durante cerca de seis meses. As leis a respeito são claras, só não sei ainda para que ou para quem foram elas feitas e passadas ao público. Vemos na mídia grandes apreensões de animais caçados em nossas matas. As leis só vigoram nesses casos? Os pequenos caçadores solitários que a infringem não contam?

Mas não sou apenas legalista. Sou uma cidadã consciente e, o mais importante, sensível. Não concordo em absoluto com argumentos de criadores ou de qualquer pessoa que se diga amante dos pássaros e os mantenha presos. Ninguém nasceu para viver em cativeiro. Dentro do universo, todos nascemos para viver em harmonia, cada um segundo sua espécie. Nós nascemos para andar, os pássaros para voar. Se perguntássemos ao pássaro se ele preferia a gaiola à liberdade, qual seria sua resposta? Cantar é bom e bonito, mas nem todo canto é alegria, muitas vezes é lamento, pode até ser bonito mas é triste e só é produzido à custa de dor. Prender um pássaro, a meu ver, é o mesmo que amarrar as perninhas de uma criança para que ela não aprenda a andar. Crime, portanto.

Aqui, ilustro com uma historinha apenas, apresentada na mídia. Haveria uma exposição com concurso para o pássaro melhor cantador. O repórter visitava um criador famoso. Numa das cenas mostradas, duas gaiolas encostadas uma à outra e cobertas com um pano. O criador explicou que numa estava um macho e, na outra, uma fêmea. Eles eram colocados um ao lado do outro sem que pudessem se encontrar para que o macho, em seu instinto e desesperado pela solidão a que estava condenado, cantasse melhor. Alguém conhece tortura maior?

Se amamos os pássaros e curtimos seu mavioso canto, temos muitas maneiras de gozar esse prazer. Reserve uma pequena economia, compre alimentos que os atraiam, plante em seu jardim ou quintal árvores e arbustos que dêem flores e frutos, alimente ao seu redor pássaros livres e felizes e seja livre e feliz com eles. Eu faço isso e a cada dia me sinto mais livre, pelo simples respeito à liberdade deles, pela certeza que tenho que é deles o céu.

Mais ainda, não sejamos omissos, defendamos nossa natureza e toda a beleza vital que nela existe. Tenhamos a coragem de denunciar os que a agridem ou a destroem. Tenhamos a hombridade de conscientizar os que agem por ignorância. Nós, escritores, porque temos o dom da palavra, assumimos uma responsabilidade maior ao fazer uso dela. Se estivermos bem informados e conscientes do valor absoluto da vida, não aceitemos argumentos, até bem intencionados às vezes, mas não verdadeiros ou justificáveis. Saiamos a campo: é hora de semear!
Sal
Enviado por Sal em 17/12/2005
Código do texto: T86922
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
507 textos (44790 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 14:39)
Sal