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CERVANTES, SCHOPENHAUER, NIETZSCHE & SARTRE

Transformar a filosofia em livro de cabeceira é um sonho de difícil realização, por muitos até mesmo é tido como utopia. Isso se seguirmos os caminhos naturais da filosofia que, como o teatro, a psiquiatria e a religião, têm caminhos absolutos e regras de vida rígidas. Pois podem crer, antes mesmo de se inventarem enredos romanceados em que todos esses elementos culturais elevados servem de pano de fundo para encontros e reencontros de personas, entre nós já havia quem violasse as seitas concitadas, assinando em nome de todos os que fossem do contra.

Nossos jornais destacavam o movimento pós-tropicalista em que o culto do século passado se tornava bem presente, juntados num mesmo sexo os movimentos estéticos contra-culturais dos séculos 19, 20 e 21 – não havia nenhum espaço que trouxesse o passado ou que anexasse o futuro – tudo era hoje, aqui agora. Nada de parece que foi hontem, nem que o futuro a Deus pertence.  A crise existencialista que promete suicídios demorados que terminam no sofá da psicanálise. O demais, tudo é enredo...

As colunas contra-culturais de um guru não assumido – Luiz Carlos Maciel – os escritos sobre Anti-psiquiatria de Ernesto Bono, os conceitos éticos de tablóides como Opinião, tudo dava um tom particular, um diagnóstico para a leitura nacional sobre a Revolução Universal de 1968, passar cada dia como se fosse o último da vida, repetir a mesma vida sempre e eternamente, sem medo da unanimidade burra (Nélson Rodrigues), viver o melhor possível, não deixar que nada fique pior, não deixar nada por não viver... E só então morrer.

Quando a Revolução Francesa assimilou a realidade de que a conquista de conceitos antes filosóficos também competia à política, tornou possível ao homem concretizar uma utopia, torná-la real. Assim foi que a felicidade, até então tratada como um mero sentimento, tornou-se uma exigência de vida, um direito político a ser conquistado, um dever de estado, como consta na Constituição Norte-americana.

Então caros colegas. Desde há muito tempo a felicidade é direito adquirido, desses tais que nem os ministro do STF têm competência para derribar, embora soubessem com muito zelo denegar os direitos adquiridos dos velhinhos aposentados – e isso é a mesma história.

O pseudonegativismo de Schopenhauer é mero jogo de cintura. Se ele afirma como princípio que “A vida é uma coisa miserável” e trata de direcionar seu pensamento nesse conceito, a reta que toma é outra, pois é também da filosofia o direito ao contraditório. Arte de amar, dele próprio é prova disso.

Ademais já não disse Nietzsche quem também soube amparar seu texto na contradição entre a vida animal e a vida humana?  Pois – disse este – a diferença entre o nós e um animal é que o bicho (não) sabe como viver. Quer dizer, ele não colocou aquele não ali entre parênteses, mas fi-lo eu. Dá no mesmo. Pois este outro, o Calderón de la Barca não nos ensinou que “la vida es sueño” e que o maior pecado do homem é ter nascido?
Pois, caros ouvintes, se desde eras remotas a busca da felicidade passava pela utopia – não vê que Demócrito teve a petulância de cegar-se pensando que evitando a visão das coisas fúteis iria alcançar a felicidade? – agora devemos cobrá-la dos políticos e ponto final. Sejamos risonhos como os espectadores do comediante de Kierkegaard: quando ele interrompeu seu número para avisar que o teatro estava pegando fogo, o público respondeu com a maior gargalhada que jamais tinha recebido em toda a sua carreira.

A vida não é uma folhinha de parede, esta aí, cotidiana, no ar, para ser vivida, mesmo se um dia qualquer, em que a ressaca foi maior que o prazer. Mesmo se a gente acorde morto de espanto ao ver o espelho refletir, não a nossa cara de jiló, mas algo travestido com o mesmo terrível pesadelo em que se meteu Gregor Samsa fantasiado de barata gigante. Não caia na besteira de perguntar: afinal eu sou um homem ou um rato? Você é uma barata mesmo! Kafka, que na verdade nasceu na Paraíba, sabia que a vida tem de ser vivida, mesmo se um dia você acorde rato... Ou barata. E foi à luta! O que você faz aí parado?

Por acaso qual foi o exemplo que Sartre deixou? Repetindo Cervantes, Sartre vestiu a carapaça de um moderno cavaleiro andante para ser o libertador do mundo. Mas Sartre libertou mesmo: foi quem obrigou, através de ações nascidas do povo, a França dar liberdade para suas colônias. Ontem como hoje como amanhã, a França faz coisas para serem seguida. Na rabiola todos os povos coloniais lutaram pela liberdade e a era do colonialismo [físico, bem entendido] terminou. Foi o tempo feliz da teoria da autodeterminação dos povos – que era uma lei internacional adotada e respeitada por todas as nações membros ONU. Mas, hoje, afinal, onde está mesmo a autodeterminação dos povos?

Bem se não conseguimos transar a liberdade dos povos, pelo menos vamos viver cada dia como se fosse o último antes dos tanques americanos invadirem nossos quintais.

Seguir sem rumo, infinitamente seguir, laçados um no outro, perdidos na embriaguez, da alma e da carne, estreitamente juntos, enfrentar o amor, desprezar a morte, alimentar a carne que palpita jovem sob o tecido da roupa que nos envolve, que gira e bate como um sudário, antes que se erga a mais dilacerante tristeza que só pode vir da morte, talvez do amor mais triste ainda, nunca da felicidade. Nunca jamais...
Salomão Rovedo
Enviado por Salomão Rovedo em 26/12/2005
Código do texto: T90577
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Sobre o autor
Salomão Rovedo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
10 textos (4128 leituras)
3 e-livros (166 leituras)
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Salomão Rovedo