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TALLER OU TALHER: EIS A REFEIÇÃO

Atenção senhores passageiros! Por favor, primeiramente, antes que alguém se sinta agredido, gostaria de adverti-los de que o significado dessa minha interferência não é outra coisa senão pura curiosidade ou em último caso eu seja apenas um oportunista aproveitando uma deixa para exercitar a escrita. Lo que pasa es que recebi um convite para o I Encontro de Talher Espírito Santo / Programa Fome Zero. A priori, imaginei que fosse uma sigla. Arrisquei, por exemplo que TALHER pudesse ser Trabalhadores Armados em Luta e Honra pela Erradicação da Rasura ou, ainda, Tintureiros Amantes Lembrando Homero na Escada Rolante, aliás, fiz uma série de conjecturas e não fui capaz de desvendar tal mistério.
Numa das últimas tentativas, resolvi levar em conta o termo mesmo, ao pé da letra, ou seja, "talher", ipsis litteris e conforme alguns esvaziamentos de significados e nossa cultural dependência dicionaresca, recorri ao Larousse que me disse: "conjunto das três peças (garfo, colher e faca) de que as pessoas de servem para comer". Agora, sim, supunha vislumbrar algumas pistas para a minha empreitada em compreender o que não havia compreendido. Cheguei a acreditar que eram sinais muito evidentes e que acabavam por colocar em dúvida minha capacidade de jogar. Parecia ser muito simples, ou seja, só podia ser um movimento de garçons ou garçonetes, cozinheiros ou cozinheiras, donos ou donas de restaurante.
Só me restava agora saber quais deles (no caso de um movimento meramente corporativista) ou se estavam todos envolvidos (levando em conta a luta de classes e o duelo opressor/oprimido). Aliás, acabei – no mínimo – lembrando da máxima de um sujeito que dizia: - "antigamente eu dava um boi pra não entrar numa briga e, hoje, entro na briga por causa de um bife".
Pasmem, senhores passageiros! Sofro de um problema muito sério: por não acreditar nas respostas prontas, todos os dias ao acordar continuo me perguntando de onde vim e pra onde vou, mesmo sem me preocupar com a resposta, mas para ter pelo menos uma noção de como voltar para casa ou passar a noite fora. Num determinado momento, tomei emprestado do castelhano a palavra taller que quer dizer "oficina de trabalho manual", embora eu já tenha participado de talleres em Cuba, Chile, Espanha, etc. sem que necessariamente tivesse que fazer algo com as mãos. Como ponto de partida, resolvi resumir: taller = oficina. Mas não me bastou e continuei cabreiro e, como não bastasse essa mania de especular o óbvio, ainda recebi munição da deusa Mnemósine, ou seja, lembrei-me de um episódio em Pudahuel, Santiago de Chile, quando eu e integrantes do Grupo Tarahumaras almoçávamos com uns chilenos rojos. Havíamos sido convidados na noite anterior depois de termos apresentado o espetáculo "Para acabar com el juício de diós" Agora, estávamos num quintal onde se improvisou uma grande mesa com a participação de vários vizinhos.
Foi um grande encontro. Disseram coisas geniais sobre Las Hormiguitas e suas lutas. Las Hormiguitas (As Formiguinhas) é um movimento de mulheres muito importante por sua atuação e atividades nas camadas mais carentes da sociedade. Mas não se trata de um movimento de mulheres pequeno-burguesas ou religiosas tentando dar sentido para a nulidade de suas existências. São mulheres das próprias comunidades que se organizaram e promovem oficinas para dar continuidade ao conhecimento pré-colombiano de plantas medicinais, de arte e artesanato, confecção de objetos necessários para a sobrevivência sem a dependência do espírito consumista. O interessante é que elas não aceitam doações de nenhuma seita e tampouco de partidos políticos, sejam de direita, esquerda, centro ou beirada. Ficamos sabendo que as mesmas criaram em diversas regiões, Consejos de Vecinos (Conselhos de Vizinhança). Esses conselhos, além de estarem sempre prontos para acudir um vizinho que cai em dificuldades como vítima de uma doença, um incêndio, uma enchente, também cuidam da convivência entre os moradores, conscientes que já foram alijados de um processo e que se faz necessário que estejam harmonizados para criarem um projeto em prol da superação dessa realidade.
Em meio ao bate-papo, o almoço e o vinho, de repente e, como dizia Vinícius, não mais que de repente surge um sujeito do nada que, além do silêncio, provocou um certo constrangimento entre os presentes.
- Quien es?
- Un actor social. – alguém respondeu quase entre dentes.
O certo é que esse tal agente do governo ou actor social já tinha quebrado o ritual e eu, depois de uma longa e vinhática jornada, acabei discutindo com o sujeito e criticando o caráter assistencialista de sua função. Função essa que não o deixava questionar a política de Pinochet supostamente afastado do governo, apesar de comandante maior das forças armadas e ainda mantendo diversos de seus partidários em cargos estratégicos. Função essa que o cegava para o fato de que um trabalhador chileno percebia apenas um salário de 66 (sessenta e seis) dólares, além de não contar com previdência social.
- Esse proyecto es de Cardoso. – vociferava ele.
- No me gusta el Cardoso. – em me defendia.

É dizer que, esgotado seus argumentos, numa última investida, o tal actor social quis me responsabilizar por aquilo que eu abominava. Pelo simples fato de Fernando Henrique ser brasileiro e, durante seu "exílio" no Chile ter esboçado, juntamente com outros intelectuais daquele país, esse projeto "solidário" (vide versão "comunidade solidária") de estratificação numa sociedade dividida em classes e subdividida em credos.
Bem, que me perdoem os missionários da semiótica, pois – para quem sabe ler – um pingo pode até ser um sinal, mas não é letra.

Wilson Coêlho
Enviado por Wilson Coêlho em 02/04/2005
Código do texto: T9190
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Sobre o autor
Wilson Coêlho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 57 anos
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Wilson Coêlho