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PREFÁCIO PARA UMA MITOLOGIA MODERNA: a lírica da Metro-Pólis

PREFÁCIO PARA UMA MITOLOGIA MODERNA: A LÍRICA DA METRO-PÓLIS


     “O surrealismo é o último instantâneo da inteligência européia”, enfatiza Walter Benjamin, em seu notável ensaio sobre o Surrealismo (1); dentre alguns de seus representantes estão André Breton, Guillaume Apollinaire, Paul Éluard, Louis Aragon... Levar a vida literária até os limites extremos do possível: Iluminação Profana. No Surrealismo são as experiências que estão em jogo e não teorias: o poeta moderno não entende mais o sentido das coisas. Desse modo, o poeta entrega-se ao fluxo da palavra, à linguagem que vai além dele. Se por um lado, o homem clássico contemplava o objeto, de outro, o homem moderno é levado pelo fluxo da vida...
     A cidade de Paris: a Paris - em instantâneos da primeira metade do século XX - é lírico-onírica. Trata-se de uma cidade hiper-significada, porque ditada pelo inconsciente. Assim, a cidade dos surrealistas aceita a escrita ditada pelo fluxo da linguagem em total liberdade! Escrita automática, anti-retórica... Então, o poeta-camponês a perambular por Paris prefacia o esboço de uma mitologia moderna:

“Hoje não se adoram mais deuses sobre as alturas. O templo de Salomão passou (...) Mas há outros lugares que florescem entre os homens (...) A divindade ainda não os habita. Ela se forma neles, é uma divindade nova que se precipita nessas modernas Éfesos (...): nossas cidades são assim povoadas por esfinges desconhecidas que não detêm o passante sonhador se ele não volta para elas sua distração meditativa, esfinges que não lhe colocam questões mortais.” (Aragon 1996,  pp.43-4)

     Cidades, metrópoles, territórios da memória. “Nós” da experiência pessoal e da experiência coletiva: “Baudelaire amava a solidão, mas a queria na multidão (...) ‘Corro a cortinas contra o Sol que agora foi dormir, como de hábito; doravante não vejo outra luz senão a da chama do gás. A Lua e as estrelas já não são dignas de menção.’” (Benjamin :1989). Com efeito, o poeta moderno é um visionário por um longo e imenso desregramento de todos os sentidos: ele toma as palavras e, no rodopio sintático das palavras, submete-se à força das palavras.
     A cidade é Berlim, a “Berlim Alexanderplatz” - de Döblin. A prosa poética é música! Eis a sinfonia da metrópole! A cidade é uma paisagem, uma floresta de signos, a cartilha do homem moderno. A cidade é um livro em “neon-barroco”. Uma explosão colorida: a cidade com suas múltiplas facetas de sonho e de desencantamento. A cidade é, enfim, um jardim surrealista:

“Uma vez viveram no paraíso duas pessoas, Adão e Eva. Tinham sido colocadas ali pelo Senhor, que também fez animais e plantas e céu e terra. E o paraíso era o belíssimo jardim do Éden. Flores e árvores cresciam ali, animais brincavam por toda parte, ninguém atormentava ninguém. O sol nascia e se punha, e a lua fazia o mesmo, o dia todo era festa no paraíso.
Assim começaremos alegremente. Vamos cantar e nos mexer: com as mãozinhas palma, palma, palma, com os pezinhos, pé, pé,pé, uma vez pra lá, uma vez pra cá, uma voltinha, isso é o que dá!


Franz Biberkopf entra em Berlim


Comércio e indústria

Limpeza urbana e transportes

Serviço de saúde

Construção subterrânea

Arte e educação

Tráfego

Caixa Econômica e Banco Municipal

Companhia de Gás

Corpo de Bombeiros

Finanças e Impostos..."
                         (Döblin 1995, pp.43-4)

     Um rodopio, e a descida aos infernos. “Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo decente possa resultar disso.” (Benjamin: 1985).
     O surrealismo e a ilustração da mente inconsciente. Palavra de ordem: _Devemos conscientizarmo-nos do potencial da imaginação! Paranóia crítica e “Breton anota: ‘Silêncio, para que eu passe onde ninguém jamais passou, silêncio!... Eu te seguirei minha bela linguagem.’” (Benjamin: 1985)

                                   
                  DE VOLTA AO COMEÇO

“14 de julho. Desde o ‘Sacré-Coeur’ fogos de artifício se derramam sobre ‘Montmartre'. O horizonte atrás do Sena arde. Os rojões sobem e se apagam sobre a planície. Na encosta íngreme se apinham dezenas de milhares de pessoas a fim de acompanhar o espetáculo. E essa multidão encrespa sem cessar um murmúrio igual às pregas de uma capa quando o vento brinca com ela. Se apurarmos o ouvido, o que ressoa é algo diferente da espera dos foguetes e rojões luminosos. Não estaria essa surda multidão à espera de uma desgraça bastante grande para que, de sua tensão, salte a faísca , de incêndio ou fim do mundo - qualquer coisa que transformasse esse murmúrio aveludado de mil vozes num único grito, como quando um golpe de vento põe a descoberto o forro escarlate da capa? Pois o claro grito de horror, o terror pânico, é o reverso de todas as genuínas festas populares. O leve estremecer que aos poucos percorre os inumeráveis ombros anseia por ele. Para a multidão, em sua existência mais profunda e inconsciente, festejos e incêndios são apenas jogos, nos quais se prepara para o momento de emancipação, para a hora em que pânico e festa , irmãos separados por longo tempo, ao se reconhecerem, se abracem na insurreição revolucionária. Com todo direito celebra-se na França a noite de l4 de julho com fogos de artifício."
                            (Walter Benjamin. “Belo Horror”)




                      NOTAS

1.Cf. BENJAMIN, Walter. “O surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia”. In ‘Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura’. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985, pp.21-35.


                   BIBLIOGRAFIA

ARAGON, Louis. “O camponês de Paris”. Tradução Flávia Nascimento. São Paulo: Imago, 1996.

BAUDELAIRE, Charles. “As flôres do mal”. Tradução Jamil A. Haddad. 2 ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.

____. “O spleen de Paris: pequenos poemas em prosa”. Tradução António Pinheiro Guimarães. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.

____. “Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna”. Org. Teixeira Coelho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

BENJAMIN, Walter. “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo”. Tradução José C. Barbosa, Hemerson Alves Baptista. In: ‘Obras Escolhidas’, v.3, São Paulo: Brasiliense, 1989.

____. “Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história  da cultura”. Tradução Sérgio P. Rouanet. In ‘Obras Escolhidas’, v.1, São Paulo: Brasiliense, 1985.

____. “Sobre a arte, técnica, linguagem e política”. Tradução Maria L.Moita, Maria A. Cruz, Manuel Alberto. Lisboa: Relógio D’Água, 1980.

DÖBLIN, Alfred. “Berlim Alexanderplatz: a história de Franz Biberkopf”. Tradução Lya Luft. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.



  PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, 31 de dezembro de 2005
SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 31/12/2005
Reeditado em 31/12/2005
Código do texto: T92614

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS