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DIA DA MULHER - DIA DE FESTA?

[Publicado a 08/03/2002]

Todos os anos a mulher é fartamente festejada no dia 8 de março. A mídia se encarrega do barulho maior. E ele continua pelas ruas, grupos que se organizam e, em pontos estratégicos, entregam botões de rosa às mulheres que por um motivo ou outro chegam àquele ponto. O dia é lembrado em escolas, em grupos feministas, nas famílias. Neste dia exaltam-se as grandes conquistas da mulher nos últimos anos, discutem-se os muitos pontos de desvantagem que a mulher tem em relação aos homens, assim como o massacre da violência que a atinge declarada ou disfarçadamente. Depois, tudo volta ao normal, a mídia se cala após a meia-noite, ninguém mais se lembra da mulher, de sua luta, de seu papel no mundo e na família. Os fatos importantes que foram levantados ontem voltam para a gaveta à espera de nova discussão no ano que vem... Quem sofria violência certamente não teve tréguas nem no chamado seu dia e vai continuar da mesma forma por mais um ano.

Confesso que não tenho grande entusiasmo pela instituição dessa data. A própria instituição de uma data especial já deixa declarados a segregação e o preconceito. Ela já foi instituída como forma de compensação pelo massacre que a mulher sofreu secularmente. Se não é por isso, por que ninguém nunca se lembrou de instituir o dia do homem? Simplesmente porque o machismo acha que o homem é tão mais, tão superior, que não precisa ter um dia. O machismo acha que dia do homem são todos os dias.

Não nego todas as conquistas das mulheres nos últimos tempos. E não apenas não nego, mas louvo. Cada conquista foi resultado de uma luta que a própria mulher empreendeu em defesa de seus próprios direitos. A mulher saiu a campo, ergueu corajosamente a voz, mostrou as injustiças, reivindicou direitos, ocupou seu lugar de pessoa, não apenas por ser é mulher. E a luta continuou, talvez nunca termine, pois a luta é contra um machismo tradicional eternamente alimentado por uma sociedade viciada que vê o homem como ser superior. E essa sociedade é composta por homens e mulheres que exercem o machismo de forma natural, como se fosse impossível mudar um mundo nele consolidado.

Sinceramente, não consigo participar dessa festa. Não, enquanto estiver assistindo à continuidade da injustiça a que a mulher é submetida. Não enquanto vejo a própria mulher educando seus filhos para o machismo: os meninos para a glória e as meninas para a submissão. E isto é provado por frases tão comuns no ambiente doméstico: "ele pode porque é homem", "homem não chora", "ele desarruma e a menina arruma", "o menino pode chegar tarde, não a menina", "eu vou contar pro teu pai", etc... A mulher confirmando, no dia a dia, sua aceitação da inferioridade. Isso no doméstico. Fora dele os fatos tomam proporções assustadoras. E sabemos que isso não vai mudar enquanto homens e mulheres não se olharem como seres complementares e não concorrentes, com méritos iguais e iguais direitos. Enquanto as mulheres tiverem que se sobressair em qualquer setor para ser respeitada e não simplesmente porque todos os seres humanos merecem respeito.

Por mim, dispenso as homenagens. Quero ser mulher e mulher cada vez melhor, todos os dias. E quero ser homenageada todos os dias porque sou uma pessoa que luta e que conquista e não por um detalhe genético que determinou meu sexo à minha revelia.

Para reflexão de homens e mulheres, deixo este magnífico poema.

MULHER LONGEVA

[Renata Pallottini - (Extraído da Agenda da Tribo do ano 2001)]

Quando nasceu menina
O pai disse: "que pena".
Cresceu apesar disso,
Uma criança morena.

Conseguiu completar
O quarto ano do grupo.
Ajudava na casa.
E se acabou o estudo.

Casou jovem e virgem.
Não lhe valeu de nada.
Fez docinhos caseiros,
O marido a espancava.

Também fez seus 3 filhos.
Para não fazer mais
Aceitou coito oral,
Aceitou coito anal,
Aceitou coito anual.

Hoje, aos setenta anos,
Faz fila em hospitais,
Recebe uma pensão
De cem reais mensais.

E está aí, sobrevivente,
Incomodando o Presidente.

Sal
Enviado por Sal em 10/01/2006
Código do texto: T96657
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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Sal