Profecia de nós dois

Profecia de nós dois



Nossos olhares transformaram-se em anzóis
e nossas almas, uma noutra, estão fisgadas.
Está chegando o nosso instante do “enfim sós”
quando seremos tu e eu de almas rasgadas.

Essa paixão que arde nos corpos qual centelha
se alastrará por um pavio feito em desejos.
Te acenderei lambendo dentro de tua orelha;
me queimarás nas labaredas de teus beijos.

E nossas mãos vasculharão por entre as dobras
das vestimentas que em vão guardam recatos.
Retiraremos cada peça como sobras
de corpos nus que já dispensam aparatos.

Tanta nudez não causará nenhum espanto,
muito ao contrário, há de instaurar o despudor.
O que aos outros é pecado a nós é santo
glorificando a inocência desse amor.

Nos tocaremos um ao outro com prazer
pois o roçar de nossas peles nos atiça;
esse entregar que se consuma em receber
num conquistar de uma postura submissa.

E mãos e bocas se darão nos entrepernas,
descobrirão nossos segredos mais velados,
que habitam picos, montes, vales e cavernas
na geografia de ermos sítios desbravados.

Serei em ti e tu também serás em mim
numa fusão como um só corpo que estremece.
E quereremos vaivéns sem ter mais fim,
porque imortais nos faz sentir essa benesse.

Meu rogozijo provirá de teus gemidos,
satisfação tu sentirás no meu olhar.
Nosso rosnar animalesco e os grunhidos
denunciarão o nosso instinto secular.

Explodirás na liberdade de teus gritos,
me amansarei entre suspiros abafados.
Na fruição desses prazeres tão benditos
nossos humores correrão por todo lado. 

E tombaremos lado a lado após a entrega
de nossos seres que fizeram-se só um.
Amor se tem, amor se dá, amor se nega,
mas o desejo, ou é presente, ou é nenhum.

Somos recíprocos em sina e sortilégio
e nos sabermos já é nossa profecia.
Há um momento e é o destino quem elege-o
e que está próximo, mais dia, menos dia.