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Há certos homens que caem de pé

Ao meu primo Rafael Patrício

Há certos homens que caem de pé
Apesar de desde muito cedo ter ouvido falar de ti, do jovem atento espiritual e correcto que eras e de seres uns anos mais novo do que eu, numa altura em que a idade de certa forma interessava, nunca tive a oportunidade de falar contigo, apesar de já te respeitar imenso e do teu nome quando referido inspirar em mim o mais profundo respeito. Tínhamos em comum uma família com muitos anos, cujas origens se perdem no tempo, dado remontarem a à Idade Média, mas provavelmente mais ainda, numa altura em que só a memória registava os factos e as histórias do povo, dado a nossa família ser isso, do povo, sem qualquer nobreza sanguínea, nobreza que tínhamos pela forma séria e honesta de estar perante a vida e perante os outros, algo que nos acompanhou ao longo de centenas de anos, sobrevivendo à mudança desses tempos, estabelecendo um nome que em certos meios é respeitado quando referido. Homens e mulheres crentes, bons trabalhadores, que respeitavam os outros, imunes às intrigas e mexericos que tantas vezes destroem qualquer tipo de relações, fiéis amigos e dedicados familiares, construindo esse nome tendo como base uma série de valores que de facto sobreviveram às imensas mudanças sociais que abalaram o nosso país.
Sempre soube de tal, mas foi na adolescência e entrada no mundo adulto, em que por natureza pomos em causa os nossos valores que dei mais importância a isso, o nosso legado, a nossa herança que não têm preço. Foi nessa altura de imensas solicitações, de imensas (e muitas delas más) influências em que me senti quase a naufragar que o legado familiar veio em meu auxílio e fez de mim o homem moral e ético (sem ser dogmático) que sou hoje em dia e de que me orgulho, capaz de enfrentar as mais duras e diversas tempestades sem se perder, capaz de se orientar no escuro por saber que há sempre uma luz que o guie. No meio deste percurso que penso só ir acabar quando me extinguir, perdi a crença em Deus, mas os valores, esses ficaram intactos, e até mais reforçados.
E foi nessa época que finalmente te conheci pessoalmente numa festa de estudantes da mesma cidade que partilhávamos. Noite bem alta, divertimento no auge, e eis que dei contigo a falar comigo debaixo de uma árvore. Havia música, imensos estudantes, belas garotas a pedir conversa e outras coisas cujo teor não interessa nestas linhas, mas não, debaixo dessa árvore dei connosco a partilhar os valores, a tal herança, ambos fascinados por esse legado, ambos orgulhosos em sermos a próxima geração que a iria imortalizar na figura dos nossos descendentes. Apesar de não nos conhecermos respeitávamo-nos e penso que nos admirávamos mutuamente por tão bem representarmos esses valores. Se já te admirava antes, mais te admirei depois e fiquei muito orgulhoso por alguém tão novo ser tão sábio, achei que serias o veículo perfeito para a transmissão do nosso legado, e até lhe poderias emprestar a honra do teu carácter, melhorando a herança.
Só nos encontrámos dai a um par de anos numa reunião familiar. Falámos apenas brevemente, e reparei que mantinhas o mesmo ar sereno que só os sábios têm o condão de possuir.
Soube mais tarde que mudaras de curso e partiras para Lisboa.
Dai a uns tempos recebi a terrível notícia que estavas muito doente, e rezei então por ti ao Deus dos agnósticos, para que ficasses bem. Soube que te tornaste ainda mais espiritual, ainda mais sábio, e eu ainda mais me orgulhei de ti.
O Rafael, pese embora a vontade de toda a gente que o rodeava acabou por morrer, morrer de pé, em paz. Morreste rodeado do imenso amor e carinho com que viveras e que durante a tua breve existência entre nós tão bem soubeste transmitir e angariar. És um dos meus heróis querido primo, e apesar de ter falado demasiado pouco contigo e de te conhecer apenas de uma forma subliminar, tenho pena que não leias os poemas e as prosas que não paro de gerar, tenho pena que não vivas nas cidades do futuro que vou escrevendo, tenho saudades das conversas que tivemos e das conversas que poderíamos ter tido.
Há certos homens que caem de pé
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 15/04/2006
Código do texto: T139561
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Sobre o autor
Miguel Patrício Gomes
Portugal
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