Vida e obra de Padre Antonio Vieira

PADRE ANTONIO VIEIRA VIDA E OBRAS

Origem do Padre Antonio Vieira

Sacerdote jesuíta, (orador e líder político no Brasil Colônia)

nasceu em 06 de fevereiro de 1608, na Rua dos Cônegos, na cidade de Lisboa (Portugal). Vinha de uma família modesta, tendo como pai Cristóvão Vieira Ravasco, de origem alentejano e neto de uma serviçal mulata, e como mãe Maria de Azevedo, filha de Brás Fernandes, armeiro da casa real. Com o casamento, seu pai recebeu como parte do dote um oficio de justiça ou fazenda, que fora obtido por Brás Fernandes como carta de lembrança a quem se casasse com sua filha. Cristóvão Vieira Ravasco parte então para a Bahia, em 1609, com o intuito de ocupar o cargo de oficio de escrivão de agravos e apelações da relação da Bahia, retornando para Lisboa em 1612, para buscar mulher e filho.

Antônio Vieira tinha 6 anos quando veio para o Brasil, ingressando pouco depois no Colégio dos Jesuítas. Como noviço na Companhia de Jesus, em 1624 foi encarregado de escrever a carta Ânua – o relato anual das atividades dos jesuítas aos superiores em Lisboa, esse documento narra de forma pormenorizada os acontecimentos relativos a invasão holandesa na Bahia e da resistência dos portugueses, destacando o papel dos jesuítas no referido confronto, principalmente ao que se refere ao apoio espiritual aos soldados.

Tem uma classificação complexa quanto à nacionalidade: passou mais da metade de sua vida no Brasil, e o próprio povo, quando ele caía em desgraça, chamava-o de «Judas do Brasil»; mas foi importante figura na política interna e externa de Portugal, para não falar na cultura. Vieira faleceu na cidade de Salvador (Bahia) em 1697.

No ano seguinte, fez seu voto de castidade, pobreza e obediência, deixando a condição de noviço para iniciar os estudos de Teologia. Foi professor de Retórica em Olinda no ano de 1627, pregador na Bahia em 1633, ordenando-se em 1638. Como pregador, defendia os interesses do Brasil contra a ganância da Metrópole, defendia os escravos, os judeus e insistiu numa ação decisiva contra o invasor holandês. Fundou a Companhia Geral do Comércio do Brasil e foi ministro em Haia, em 1646, quando escreveu o documento Papel Forte, pelo qual foi apelidado em Lisboa de "Judas do Brasil".

Em 1662 foi expulso do Brasil para Portugal, onde exerceu a função de confessor da regente Dona Luísa e pregador da Capela Real. A mando do novo rei, Dom Afonso VI, foi desterrado para a cidade do Porto. Preso pela Inquisição e posto em liberdade por Dom Pedro, obteve sua absolvição quando viajou para Roma, em 1675. Retornou ao Brasil em 1681, instalando-se na Bahia. Os sermões e cartas que deixou são considerados verdadeiros monumentos da literatura barroca e da ciência política. Também deixou fragmentos de um livro de profecias, que tinha o nome de Clavis Prophetanum, publicado em 1718 sob o título de História do Futuro.

Nascido em lar humilde, na Rua do Cônego, perto da Sé, em Lisboa. Seu pai serviu a Marinha Portuguesa e foi, por dois anos, escrivão da Inquisição, tendo mudado-se para o Brasil em 1609, para assumir cargo de escrivão em Salvador, na capitania da Bahia. Em 1614 mandou vir a família para o Brasil. António Vieira tinha seis anos.

Vieira e sua vinda ao Brasil

Estudou na única escola da Bahia: o Colégio dos Jesuítas em Salvador. Consta que não era um bom aluno no começo, mas depois se tornou brilhante. Juntou-se à Companhia de Jesus com voto de noviço em maio de 1623. Obteve o mestrado em Artes e foi professor de Humanidades, ordenando-se sacerdote em 1634.

Em 1624, quando da Invasão Holandesa de Salvador, refugiou-se no interior, onde se iniciou a sua vocação missionária. Um ano depois tomou os votos de castidade, pobreza e obediência, abandonando o noviciado. Não partiu para a vida missionária. Estudou muito além da Teologia: Lógica, Física, Metafísica, Matemática e Economia. Em 1634, após ter sido professor de retórica em Olinda, foi ordenado e em 1638 já ensinava Teologia.

Quando da segunda invasão holandesa ao Nordeste do Brasil (1630-1654), defendeu que Portugal entregasse a região aos Países Baixos, pois gastava dez vezes mais com manutenção e defesa do que o que obtinha em contrapartida, além do fato de que os Países Baixos eram um inimigo militarmente muito superior na época. Quando eclodiu uma disputa entre Dominicanos (membros da inquisição) e Jesuítas (catequistas), Vieira, defensor dos judeus, caiu em desgraça, enfraquecido pela derrota de sua posição quanto à questão do Nordeste do Brasil.

Vieira em Portugal

Após a Restauração da Independência em (1640), em 1641, iniciou a carreira diplomática pois integrou a missão que veio a Portugal prestar obediência ao novo monarca Impondo-se pela viveza de espírito e como orador, foi nomeado pelo rei pregador régio. Em 1646 foi enviado à Holanda no ano seguinte à França, com encargos diplomáticos. Era embaixador (o pai, antes pobre, foi nomeado pensionista real) para negociar com os Países Baixos a devolução do Nordeste. Caloroso adepto de obter para a coroa a ajuda financeira dos cristãos-novos, entrou em conflito com a Inquisição mas viu fundada a Companhia de Comércio do Brasil

No Brasil, outra vez

O povo de Portugal não gostava de suas pregações em favor dos judeus. Após tempos conturbados acabou voltando ao Brasil, de 1652 a 1661, missionário no Maranhão e no Grão-Pará, sempre defendendo a liberdade dos índios.

Diz o Padre Serafim Leite em «Novas Cartas Jesuíticas», Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940, página 12, que Vieira tem «para o norte do Brasil, de formação tardia, só no século XVII, papel idêntico ao dos primeiros jesuítas no centro e no sul», na «defesa dos Índios e crítica de costumes». «Manoel da Nóbrega e António Vieira são, efetivamente, os mais altos representantes, no Brasil, do criticismo colonial. Viam justo - e clamavam!»

Em Portugal, outra vez

Voltou para a Europa com a morte de D. João IV, tornando-se confessor da Regente, D. Luísa de Gusmão. Com a morte de D. Afonso VI, Vieira não encontrou apoio. Abraçou a profecia sebástica e por isso entrou de novo em conflito com a Inquisição que o acusou de heresia com base numa carta de 1659 ao bispo do Japão, na qual expunha sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro. Expulso de Lisboa, desterrado e encarcerado no Porto e depois encarcerado em Coimbra, enquanto os jesuítas perdiam seus privilégios. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de pregar, mas, seis meses depois, a pena foi anulada. Com a regência de D. Pedro, futuro D. Pedro II de Portugal, recuperou o valimento.

Em Roma

seguiu para Roma, de 1669 a 1675. Encontrou o Papa à morte, mas deslumbrou a Cúria com seus discursos e sermões. Com apoios poderosos, renovou a luta contra a Inquisição, cuja atuação considerava nefasta para o equilíbrio da sociedade portuguesa. Obteve um breve pontifício que o tornava apenas dependente do Tribunal romano.

Em Portugal

Regressou a Lisboa seguro de não ser mais importunado. Quando em 1671 uma nova expulsão dos judeus foi promovida, novamente os defendeu. Mas o Príncipe Regente passara a protetor do Santo Ofício e o recebeu friamente. Em 1675, absolvido pela Inquisição, voltou para Lisboa por ordem de D. Pedro, mas afastou-se dos negócios públicos.

No Brasil, pela última vez

Decidiu voltar outra vez para o Brasil, em 1681. Dedicou-se à tarefa de continuar a coligir seus escritos, visando à edição completa em 15 volumes dos seus Sermões, iniciada em 1679, e à conclusão da Clavis Prophetarum. Suas obras começaram a ser publicadas na Europa, onde foram elogiadas até pela Inquisição. Já velho e doente, teve que espalhar circulares sobre a sua saúde para poder manter em dia a sua vasta correspondência. Em 1694 já não conseguia escrever de próprio punho. Em 10 de junho começou a agonia, perdeu a voz, silenciaram-se seus discursos. Morre a 18 de Julho de 1697, com 89 anos.

Obras

Deixou obra complexa que exprime suas opiniões políticas, sendo não propriamente um escritor e sim um orador. Além dos Sermões redigiu o Clavis Prophetarum, livro de profecias que nunca concluiu. Entre os sermões, dois são os mais célebres: o Sermão da Quinta Dominga da Quaresma e o Sermão da Sexagésima.

Lendas

Existem muitas lendas sobre o padre António Vieira, incluindo a que afirma que, na juventude, a sua genialidade lhe fora concedida por Nossa Senhora, e a que, uma vez, um anjo lhe indicou o caminho de volta à escola quando estava perdido.

Obras de Vieira

• Sermão da Sexagésima

• Maria Rosa Mística

• Sermão de Santo António aos Peixes

• Sermão de Nossa Senhora do Rosário

• Sermão da Quinta Dominga da Quaresma

• Sermão do Mandato

• Sermão Segundo do Mandato

• Sermão de Santa Catarina Virgem e Mártir

• Sermão Histórico e Panegírico

• Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

• Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650)

• Sermão da Primeira Dominga do Advento (1655)

• Sermão de São Pedro

• Sermão da Primeira Oitava de Páscoa

• Sermão nas Exéquias de D. Maria de Ataíde

• Sermão de São Roque

• Sermão de Todos os Santos

• Sermão de Santa Teresa e do SantíssimSacramento

• Sermão de Santa Teresa

• Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma (1651)

• Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma (1644)

• Sermão de Santa Catarina (1663)

• Sermão do Mandato (1643)

• Sermão do Espirito Santo

• Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640)

• Quarta parte, licenças e privilégio real

• Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal

• Sermão da Segunda Dominga da Quaresma (1651)

• Maria Rosa Mística Excelências, Poderes e Maravilhas do seu Rosário

• Sermão das Cadeias de São Pedro em Roma pregado na Igreja de S. Pedro. No qual sermão é obrigado, por estatuto, o pregador a tratar da Providência, ano de 1674

• Sermão do Bom Ladrão (1655)

• Sermão da Dominga XIX depois do Pentecoste (1639)

• Sermão XII (1639)

• Sermão XIII

• Sermão de Dia de Ramos (1656)

• Quarta Parte em Lisboa na Oficina de Miguel Deslandes

• Sermão do Quarto Sábado da Quaresma (1640)

• Sermão XIV (1633)

• Sermão Nossa Senhora do Rosário com o Santíssimo Sacramento

• Sermão XI Com o Santíssimo Sacramento Exposto

• Sermão da Quinta Dominga da Quaresma (1654)

• Sermão nas Exéquias de D. Maria da Ataíde (1649)

• Sermão de São Roque (1652)

• Sermão Segundo do Mandato (II)

• Sermão do Mandato (1655)

• Sermão da Epifania (1662)

• Sermão da primeira Oitava da Páscoa (1656)

• História do Futuro (vol. I)

• História do Futuro (vol. II)

• Esperanças de Portugal

• Defesa do livro intitulado Quinto Império

• Total de 52 sermões

2. Padre Vieira e seus biógrafos

A obra de Vieira, vasta e complexa, possui elementos que possibilitam as mais variadas interpretações. Muitos falaram a sue respeito, procurando o sentido de seu discurso e de sua vida. No Brasil, privilegia-se a sua postura como missionário, principalmente no período em que esteve na Província do Maranhão (1651-1661). Porém, outras caracterizações acerca do jesuíta já foram apresentadas. Como nos indica Eduardo Hoornaet:

Sua figura histórica foi bastante controvertida: seu primeiro biografo, André de Barros (1746), o descreve como o jesuíta modelo, dedicado e santo, enquanto o bispo de Viseu, Francisco Alexandre Lobo (1826), apresenta-o como um homem vaidoso e ambicioso, seguido nisso pelo historiador maranhense João Francisco Lisboa (1865). No final do século XIX, dois autores, Carel (1889) e Cabral (1900), realçaram sua vida sacerdotal e religiosa enquanto o português João Lucio de Azevedo (1918-19210 pôs em evidencia sua personalidade política e Serafim Leite, na sua História da Companhia de Jesus no Brasil (1938-1950), fez dele retrato proeminentemente apologético. Vieira foi descrito como político por Hernani Cidade (1955), missionário por Máxime Haubert (1964), pregador por Luis Gonzaga Cabral (1901) e teólogo por Raymond Cantel (1960). Enfim, qual a imagem verdadeira! Quem foi Vieira na verdade! ( HOONAERT, p.63).

Assim, para melhor compreendermos os seus escritos faz-se necessário uma especial atenção ao contexto em que sua obra é produzida, pois se negligenciarmos tal aspecto teremos um entendimento fragmentário dela. Ao traçarmos seu perfil biográfico, a eleição de um elemento norteador, para que não nos percamos na infinitude de questões tratadas pelo jesuíta, para tanto utilizaremos, além dos escritos de Vieira, de quatro de seus mais respeitados biógrafos: João Francisco Lisboa, João Lucio de Azevedo, Hernani Cidade e Serafim Leite.

A biografia intitulada “Vida do Padre Antonio Vieira”, de João Francisco Lisboa (maranhense, jornalista e deputado), não deve ser entendida como uma única obra, mas sim como duas produzidas em momentos distintos e com objetivos também distintos. A primeira parte, “Vida do Padre Antonio Vieira (na Europa)”, é uma obra inacabada e sem revisão, publicada pela primeira vez após a morte de seus autores, em 1901, juntamente com suas obras completas. Possui uma narrativa linear, dando destaques para as atividades políticas e diplomáticas do jesuíta. Privilegia, como indica o titulo, o período europeu de Vieira, apesar de tratar rapidamente de suas passagens pela Bahia, ou seja, dos antecedentes a sua partida para a Europa e após sua decadência na corte. Já a segunda parte, “Vida do Padre Vieira (Jornal de Tímon) no Brasil”, foi publicada pela primeira vez em 1852 como parte integrante do Jornal do Tímon, sendo assim uma obra acabada.

Apesar do título, trata apenas da atuação do jesuíta no Maranhão, não se atendo aos demais períodos de sua vida, deixando de apresentar referencias até mesmo ao pequeno espaço de tempo em que Vieira esteve em Lisboa para tratar da questão indígena junto a coroa. Estas duas partes foram publicadas juntas pela primeira vez em 1891, pela Livraria Garnier, com titulo acima mencionado.Uma questão que transcorre todo o discurso de Lisboa é a ambição do jesuíta, que apresentara tais sentimentos já quando entrara para a Companhia de e depois segundo o biografo, Vieira vira no Instituto o caminho mais curo para a grandeza humana, sendo este um sinal de ambição precoce.

Ao analisarmos a biografia de Vieira escrita por Lisboa temos que levar em consideração duas questões: o fato do biografo ser maranhense, sendo que seus pais e avós foram donos de terras neste estado, trazendo consigo os conflitos do século XVII, e de ter vivido nos princípios do Império brasileiro, no primeiro caso devemos considerar a oposição que a população maranhense tinha em relação aos jesuítas, oque resultara na expulsão dos últimos em 1661 e na Revolta de Beckman, em 1684. No segundo, devemos considerar a oposição que havia entre os brasileiros e portugueses no inicio do império, sendo que nesse caso Vieira encarnaria o português explorador que não se preocuparia pelo Brasil.

A tal ambição enfatizada por Lisboa, estaria mais presente quando Vieira abandonara muitas vezes a vocação apostólica em favor dos seus projetos para o reino, em defesa da Dinastia dos Bragança, embora em alguns momentos, tenha dado atenção as ações de Vieira no que se refere a diplomacia e as relações internacionais na primeira parte e as missões e conflitos com maranhenses na segunda, pouco destacando o messianismo do jesuíta e a sua teoria acerca do Quinto Império, relegando a segundo plano o discurso apologético do jesuíta na confecção de sua biografia.

Já Serafim Leite, padre, membro da Companhia de Jesus no Brasil, trata o Padre Antonio Vieira a partir de sua “História da Companhia de Jesus no Brasil”, dando assim destaque para a sua atuação como missionário no Maranhão, entendendo-o como o nome mais importante do instituto do norte do Brasil, ultrapassando Nóbrega e Anchieta no que se refere a literatura. O autor entende o jesuíta como grande político e diplomata, intitulando-o orador da restauração portuguesa, destacando seu trabalho para o engrandecimento da Companhia de Jesus, fato que é compreensível na medida em que sendo ele próprio membro da Companhia de Jesus, proporciona uma interpretação que parte da própria companhia, apresentando uma versão da ordem sobre um dos seus mais ilustres membros.

O autor entende o jesuíta como grande político e diplomata, intitula-o orador da restauração portuguesa, mas apesar da atenção dada ao discurso apologético de Vieira, o vê como alegórico e complementar as suas preocupações políticas, na verdade ao fazer a apologia de Vieira traça a história da Companhia de Jesus em terras brasileiras e pelo fato do mesmo ser membro do instituto acaba por proporcionar uma interpretação que parte da própria Companhia.

Um autor contemporâneo de Serafim Leite foi Hernani Cidade, grande conhecedor da obra de Vieira, colaborando com a reedição de muitas de suas obras. Português de Lisboa procurou entender a vida do missionário como uma trajetória, daí a linearidade de sua obra, que se divide em: “Na Bahia”, onde destaca o período de formação do jesuíta e sua atuação frente as guerras contra os holandeses, “Na Europa”, onde chama atenção para atuação de Vieira como político e diplomata, sendo considerado aqui um dos maiores defensores da nova dinastia. Hernani Cidade apresenta seus projetos políticos vinculados as suas esperanças messiânicas, entendendo a restauração portuguesa como parte de um processo que levaria Portugal a se consolidar como Império Universal Cristão.

Uma questão fundamental para Vieira segundo Hernani Cidade seria seu trabalho missionário, sendo que dele dependeria a conversão mundial e o estabelecimento do Quinto Império (os anteriores seriam o dos assírios, persas, gregos e romanos), pois, para ele , Portugal seria a nação escolhida para levar a cristandade para todos os outros povos, impossibilitando assim uma desvinculação da Igreja em relação ao Estado

Cidade elogia o talento de Vieira e sua precoce intervenção nas coisas públicas, destacando seu profetismo, sempre aliado ao seu realismo histórico e as suas resoluções políticas. Dessa forma seu discurso apologético aproxima a história de Portugal com a do povo hebreu, contida no Antigo Testamento, sendo que, segundo o biografo, seria tal discurso que o levaria ao duelo teológico com a Inquisição, o autor apresenta sua versão da vida de Padre Vieira identificando-o com as preocupações do reino como um todo, sendo sua atuação fundamental para a consolidação do reino e do rei, ao contrario de Lisboa não o vê como opressor aos colonos brasileiros, mas, ao contrário, defende tais regiões como parte integrante de Portugal e, dessa forma, preocupa-se com o reino, no qual está incluso a América portuguesa.

Uma das biografias mais detalhadas e com maior numero de fontes citadas é a de João Lucio de Azevedo. Um dos maiores estudiosos sobre a história de Portugal de seu tempo, consegue, de maneira brilhante, apontar as questões que preocupam Vieira no momento da confecção de sua obra, levando o leitor ao contexto da restauração portuguesa, com suas intrigas e contradições, destacando o espírito profético do jesuíta que, segundo o biógrafo, não o abandonará até o fim de sua vida.

A obra possui dois volumes, é apresentada de forma linear e temática, estando dividida em: 1º Período: O Religioso, onde trata da formação jesuítica e o 2º Período: O Político, com destaque para a sua ação diplomática e defesa dos cristão novos, 3º Período: O Missionário, 4º Período: O Vidente: onde apresenta suas teorias messiânicas e o conflito com a Inquisição, 5º Período: O Revoltado: onde sentindo-se desprezado pelo rei de Portugal, parte para Roma com o intuito de receber o perdão do Papa e finalmente o 6º Período: O Vencido: onde se apresenta o fim da vida de Vieira na Bahia, ainda com significativa atuação política, mesmo que se restringindo a uma esfera local.

Assim como Hernani Cidade, Azevedo apresenta Vieira a partir de uma perspectiva portuguesa, sendo que sua atuação política e missionária deve ser entendida a partir de sua ligação com a coroa, além de suas perspectivas messiânicas para o reino.Já Serafim Leite destaca mais a atuação missionária do jesuíta, enquanto Lisboa observada de forma marcante o caráter ambicioso do padre, estando mais preocupado em angariar poder político sobre as missões que com a fé indígena, além de prejudicar os colonos que dependiam dos nativos para sobreviver..

As posições dos biógrafos influenciaram as analises feitas por estudiosos brasileiros da obra de Vieira. Estes, no entanto, destacam geralmente sua atuação missionária, por estar mais próximo da realidade brasileira, Apontaremos alguns dos estudiosos do jesuíta da atualidade, sem, no entanto adentrarmos na analise de seus trabalho: Sezinandro de Menezes (Padre Antonio Vieira: a cruz e a espada), Alfredo Bosi (Dialética da Colonização), Alcir Pécora, Eduardo Hoornaert e Luis Palacin, além de Janice Theodoro, Anita Novinsky, Ronaldo Raminelli e Evaldo Cabral de Melo.

Uma das mais recentes biografias, apresentada em forma de dissertação de mestrado, é a redigida por Sezinandro de Menezes intitulada “Padre Antonio Vieira, a cruz e a espada”. Neste trabalho o autor tem por objetivo encontrar o conteúdo social da obra de Vieira. Apresenta-o, no entanto, com preocupações estritamente econômicas, entendo os seus conflitos com os diversos setores da sociedade portuguesa como oposição entre a nova sociedade mercantil, representada por ele, e a velha sociedade feudal, representada pelos nobres e a inquisição. Acentua assim que, no século XVII, aqueles que se opunham ao dinheiro seriam conservadores, impedindo o avanço da sociedade portuguesa. Argumenta ainda que a vitória da antiga sociedade seria a causa da derrota de Portugal e da decadência do reino.

Sezinandro de Menezes classifica como burguesas algumas posições de Vieira como por exemplo, o fato de propor a extensão da cobrança de tributos para a nobreza, o que confirmaria um questionamento dos privilégios da aristocracia portuguesa e o classificaria como um homem moderno, afastando-se da escolástica para se aproximar do espírito de Francis Bacon. A partir dai o autor busca compreender a posição de Vieiera frente as questões políticas da restauração portuguesa, apresenta os nativos não como súditos do rei, mas como mão de obra jesuítica, endossando a tese de que os padres da Companhia não permitiam a escravização destes para se utilizarem dos mesmos em proveito próprio.Na verdade o autor ao privilegiar o aspecto econômico em detrimento do político, acaba por apresentar uma visão fragmentaria da obra de Vieira e, ao percebe-la como voltada para os interesses econômicos de Portugal, acaba por endossar a tese de João Francisco Lisboa, de que o Padre objetivava a exploração dos colonos brasileiros, legitimando assim a revolta destes contra os membros da Companhia de Jesus.

A posição de Sezinandro Menezes a respeito de Vieira ao mesmo tempo se aproxima e se distancia da apresentada por Alfredo Bosi no texto intitulado “Dialética da Colonização”. Neste trabalho, o autor apresenta como principal dificuldade da atuação de Vieira a tentativa de ajustar características feudais presentes na sociedade portuguesa com os valores mercantis emergentes. Sua obra buscaria não a eliminação de conceitos medievais como honra, fidalguia e a nobreza, mas sim reordena-las dentro de uma realidade que estava ainda em construção, a da centralização dos estados nacionais e da expansão econômica européia, ou seja, o mercantilismo. Alfredo Bosi apresenta assim o Padre Vieira como um homem de seu tempo, identificando em sua obra as dificuldades de se entender um período de profundas transformações como foi o século XVII., Enfim Bosi apresenta o Padre Antonio Vieira como elemento de engrandecimento da Companhia de Jesus, traçando uma imagem apologética do jesuíta, como Serafim Leite o fez.

Já Alcir Pécora, ao destacar a atuação de Vieira como missionário, entende que os interesses espirituais da evangelização associados aos temporais ou seja, a expansão do reino português. Atenta-se assim o messianismo do jesuíta e ao seu discurso legitimador, pois o sucesso da empresa missionária dependeria da consolidação da coroa lusitana. Além disso chama atenção para o fato de Vieira ser o idealizador do Quinto Império, o que justificaria o pragmatismo do jesuíta na sua atuação na colônia, pois, segundo ele, só o esforço missionário levaria a instituição do Império Universal Cristão.Acir Pécora entende assim que, para Vieira , havia necessidade de inserção do índio brasileiro no corpo místico da Igreja, afirmando que a finalidade dos descobrimentos seria a conversão e a conseqüentemente expansão e solidificação da coroa portuguesa.. O índio seria o súdito do rei de Portugal, o que impossibilitaria sua escravidão, estando assim a liberdade indígena vinculada a sua inserção na igreja e no reino. Ao apresentar Vieira como idealista em relação ao seu projeto de instauração de uma igreja universal cristã sob a égide da coroa portuguesa, e que tal idealismo justificaria seu pragmatismo, estaria Pécora compartilhando do discurso de Hernani Cidade e João Lucio de Azevedo acerca da atuação de Vieira frente aos nativos brasileiros.

Eduardo Hoonaert analisa a obra de VIEIRA a partir de uma perspectiva teológica onde o messianismo português ocuparia lugar central. Vieira entenderia a historia de Portugal como sagrada, que culminaria na formação de um Império Universal Cristão, sendo que, dessa forma, a separação entre igreja e estado não etria sentido, pois poderia enfraquecer a obra missionária. O jesuíta teria assim uma perspectiva sagrada da historia de Portugal, onde a coroa portuguesa assumiria o papel de estado evangelizador universal, entendo a atuação dos jesuítas junto aos naturais brasileiros a partir da necessidade da expansão de Portugal e, conseqüentemente do cristianismo, aproximando-se assim de Alcir Pécora, das questões apontadas por Hernani Cidade e João Francisco Lisboa.

Luis Palacin, ao tratar da obra de Vieira, parte da idéia de consciência possível ou seja, de que o meio imporia limites na forma de se pensar. A partir dai, o vê como representante do barroco português e do pensamento social jesuíta, que partiria de um estado de espírito nacional, ultrapassando os motivos de classes ou grupos, o autor , ao mesmo tempo que se aproxima de Pécora e Hoonaert, por demonstrar que no discurso de Vieira estariam presentes duas motivações que se complementariam, a patriótica e a religiosa, se distancia deles, pois considera a idéia de uma intervenção divina na historia de Portugal atrapalharia suas elaborações políticas e sua atuação tanto na Europa quanto na América, apesar disso não tece criticas ao jesuíta, entendo-o como um homem de seu tempo e assim , limitando a visão de mundo do jesuíta.

Em relação ao trabalho aqui apresentado, a grande motivação foi compreender e apresenta uma suscinta biografia de Padre Antonio Vieira, principalmente no que se refere a busca de compreender o homem e o padre num ambiente de disputas políticas e num mundo em transformações, assim entendemos que biografizar Vieira significa ver nele um homem fortemente marcado por suas preocupações históricas em relação ao futuro, aliando o messianismo ao discurso legitimador .

PADRE ANTONIO VIEIRA VIDA E OBRAS

Origem do Padre Antonio Vieira

Sacerdote jesuíta, (orador e líder político no Brasil Colônia)

nasceu em 06 de fevereiro de 1608, na Rua dos Cônegos, na cidade de Lisboa (Portugal). Vinha de uma família modesta, tendo como pai Cristóvão Vieira Ravasco, de origem alentejano e neto de uma serviçal mulata, e como mãe Maria de Azevedo, filha de Brás Fernandes, armeiro da casa real. Com o casamento, seu pai recebeu como parte do dote um oficio de justiça ou fazenda, que fora obtido por Brás Fernandes como carta de lembrança a quem se casasse com sua filha. Cristóvão Vieira Ravasco parte então para a Bahia, em 1609, com o intuito de ocupar o cargo de oficio de escrivão de agravos e apelações da relação da Bahia, retornando para Lisboa em 1612, para buscar mulher e filho.

Antônio Vieira tinha 6 anos quando veio para o Brasil, ingressando pouco depois no Colégio dos Jesuítas. Como noviço na Companhia de Jesus, em 1624 foi encarregado de escrever a carta Ânua – o relato anual das atividades dos jesuítas aos superiores em Lisboa, esse documento narra de forma pormenorizada os acontecimentos relativos a invasão holandesa na Bahia e da resistência dos portugueses, destacando o papel dos jesuítas no referido confronto, principalmente ao que se refere ao apoio espiritual aos soldados.

Tem uma classificação complexa quanto à nacionalidade: passou mais da metade de sua vida no Brasil, e o próprio povo, quando ele caía em desgraça, chamava-o de «Judas do Brasil»; mas foi importante figura na política interna e externa de Portugal, para não falar na cultura. Vieira faleceu na cidade de Salvador (Bahia) em 1697.

No ano seguinte, fez seu voto de castidade, pobreza e obediência, deixando a condição de noviço para iniciar os estudos de Teologia. Foi professor de Retórica em Olinda no ano de 1627, pregador na Bahia em 1633, ordenando-se em 1638. Como pregador, defendia os interesses do Brasil contra a ganância da Metrópole, defendia os escravos, os judeus e insistiu numa ação decisiva contra o invasor holandês. Fundou a Companhia Geral do Comércio do Brasil e foi ministro em Haia, em 1646, quando escreveu o documento Papel Forte, pelo qual foi apelidado em Lisboa de "Judas do Brasil".

Em 1662 foi expulso do Brasil para Portugal, onde exerceu a função de confessor da regente Dona Luísa e pregador da Capela Real. A mando do novo rei, Dom Afonso VI, foi desterrado para a cidade do Porto. Preso pela Inquisição e posto em liberdade por Dom Pedro, obteve sua absolvição quando viajou para Roma, em 1675. Retornou ao Brasil em 1681, instalando-se na Bahia. Os sermões e cartas que deixou são considerados verdadeiros monumentos da literatura barroca e da ciência política. Também deixou fragmentos de um livro de profecias, que tinha o nome de Clavis Prophetanum, publicado em 1718 sob o título de História do Futuro.

Nascido em lar humilde, na Rua do Cônego, perto da Sé, em Lisboa. Seu pai serviu a Marinha Portuguesa e foi, por dois anos, escrivão da Inquisição, tendo mudado-se para o Brasil em 1609, para assumir cargo de escrivão em Salvador, na capitania da Bahia. Em 1614 mandou vir a família para o Brasil. António Vieira tinha seis anos.

Vieira e sua vinda ao Brasil

Estudou na única escola da Bahia: o Colégio dos Jesuítas em Salvador. Consta que não era um bom aluno no começo, mas depois se tornou brilhante. Juntou-se à Companhia de Jesus com voto de noviço em maio de 1623. Obteve o mestrado em Artes e foi professor de Humanidades, ordenando-se sacerdote em 1634.

Em 1624, quando da Invasão Holandesa de Salvador, refugiou-se no interior, onde se iniciou a sua vocação missionária. Um ano depois tomou os votos de castidade, pobreza e obediência, abandonando o noviciado. Não partiu para a vida missionária. Estudou muito além da Teologia: Lógica, Física, Metafísica, Matemática e Economia. Em 1634, após ter sido professor de retórica em Olinda, foi ordenado e em 1638 já ensinava Teologia.

Quando da segunda invasão holandesa ao Nordeste do Brasil (1630-1654), defendeu que Portugal entregasse a região aos Países Baixos, pois gastava dez vezes mais com manutenção e defesa do que o que obtinha em contrapartida, além do fato de que os Países Baixos eram um inimigo militarmente muito superior na época. Quando eclodiu uma disputa entre Dominicanos (membros da inquisição) e Jesuítas (catequistas), Vieira, defensor dos judeus, caiu em desgraça, enfraquecido pela derrota de sua posição quanto à questão do Nordeste do Brasil.

Vieira em Portugal

Após a Restauração da Independência em (1640), em 1641, iniciou a carreira diplomática pois integrou a missão que veio a Portugal prestar obediência ao novo monarca Impondo-se pela viveza de espírito e como orador, foi nomeado pelo rei pregador régio. Em 1646 foi enviado à Holanda no ano seguinte à França, com encargos diplomáticos. Era embaixador (o pai, antes pobre, foi nomeado pensionista real) para negociar com os Países Baixos a devolução do Nordeste. Caloroso adepto de obter para a coroa a ajuda financeira dos cristãos-novos, entrou em conflito com a Inquisição mas viu fundada a Companhia de Comércio do Brasil

No Brasil, outra vez

O povo de Portugal não gostava de suas pregações em favor dos judeus. Após tempos conturbados acabou voltando ao Brasil, de 1652 a 1661, missionário no Maranhão e no Grão-Pará, sempre defendendo a liberdade dos índios.

Diz o Padre Serafim Leite em «Novas Cartas Jesuíticas», Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940, página 12, que Vieira tem «para o norte do Brasil, de formação tardia, só no século XVII, papel idêntico ao dos primeiros jesuítas no centro e no sul», na «defesa dos Índios e crítica de costumes». «Manoel da Nóbrega e António Vieira são, efetivamente, os mais altos representantes, no Brasil, do criticismo colonial. Viam justo - e clamavam!»

Em Portugal, outra vez

Voltou para a Europa com a morte de D. João IV, tornando-se confessor da Regente, D. Luísa de Gusmão. Com a morte de D. Afonso VI, Vieira não encontrou apoio. Abraçou a profecia sebástica e por isso entrou de novo em conflito com a Inquisição que o acusou de heresia com base numa carta de 1659 ao bispo do Japão, na qual expunha sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro. Expulso de Lisboa, desterrado e encarcerado no Porto e depois encarcerado em Coimbra, enquanto os jesuítas perdiam seus privilégios. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de pregar, mas, seis meses depois, a pena foi anulada. Com a regência de D. Pedro, futuro D. Pedro II de Portugal, recuperou o valimento.

Em Roma

seguiu para Roma, de 1669 a 1675. Encontrou o Papa à morte, mas deslumbrou a Cúria com seus discursos e sermões. Com apoios poderosos, renovou a luta contra a Inquisição, cuja atuação considerava nefasta para o equilíbrio da sociedade portuguesa. Obteve um breve pontifício que o tornava apenas dependente do Tribunal romano.

Em Portugal

Regressou a Lisboa seguro de não ser mais importunado. Quando em 1671 uma nova expulsão dos judeus foi promovida, novamente os defendeu. Mas o Príncipe Regente passara a protetor do Santo Ofício e o recebeu friamente. Em 1675, absolvido pela Inquisição, voltou para Lisboa por ordem de D. Pedro, mas afastou-se dos negócios públicos.

No Brasil, pela última vez

Decidiu voltar outra vez para o Brasil, em 1681. Dedicou-se à tarefa de continuar a coligir seus escritos, visando à edição completa em 15 volumes dos seus Sermões, iniciada em 1679, e à conclusão da Clavis Prophetarum. Suas obras começaram a ser publicadas na Europa, onde foram elogiadas até pela Inquisição. Já velho e doente, teve que espalhar circulares sobre a sua saúde para poder manter em dia a sua vasta correspondência. Em 1694 já não conseguia escrever de próprio punho. Em 10 de junho começou a agonia, perdeu a voz, silenciaram-se seus discursos. Morre a 18 de Julho de 1697, com 89 anos.

Obras

Deixou obra complexa que exprime suas opiniões políticas, sendo não propriamente um escritor e sim um orador. Além dos Sermões redigiu o Clavis Prophetarum, livro de profecias que nunca concluiu. Entre os sermões, dois são os mais célebres: o Sermão da Quinta Dominga da Quaresma e o Sermão da Sexagésima.

Lendas

Existem muitas lendas sobre o padre António Vieira, incluindo a que afirma que, na juventude, a sua genialidade lhe fora concedida por Nossa Senhora, e a que, uma vez, um anjo lhe indicou o caminho de volta à escola quando estava perdido.

Obras de Vieira

• Sermão da Sexagésima

• Maria Rosa Mística

• Sermão de Santo António aos Peixes

• Sermão de Nossa Senhora do Rosário

• Sermão da Quinta Dominga da Quaresma

• Sermão do Mandato

• Sermão Segundo do Mandato

• Sermão de Santa Catarina Virgem e Mártir

• Sermão Histórico e Panegírico

• Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

• Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650)

• Sermão da Primeira Dominga do Advento (1655)

• Sermão de São Pedro

• Sermão da Primeira Oitava de Páscoa

• Sermão nas Exéquias de D. Maria de Ataíde

• Sermão de São Roque

• Sermão de Todos os Santos

• Sermão de Santa Teresa e do SantíssimSacramento

• Sermão de Santa Teresa

• Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma (1651)

• Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma (1644)

• Sermão de Santa Catarina (1663)

• Sermão do Mandato (1643)

• Sermão do Espirito Santo

• Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640)

• Quarta parte, licenças e privilégio real

• Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal

• Sermão da Segunda Dominga da Quaresma (1651)

• Maria Rosa Mística Excelências, Poderes e Maravilhas do seu Rosário

• Sermão das Cadeias de São Pedro em Roma pregado na Igreja de S. Pedro. No qual sermão é obrigado, por estatuto, o pregador a tratar da Providência, ano de 1674

• Sermão do Bom Ladrão (1655)

• Sermão da Dominga XIX depois do Pentecoste (1639)

• Sermão XII (1639)

• Sermão XIII

• Sermão de Dia de Ramos (1656)

• Quarta Parte em Lisboa na Oficina de Miguel Deslandes

• Sermão do Quarto Sábado da Quaresma (1640)

• Sermão XIV (1633)

• Sermão Nossa Senhora do Rosário com o Santíssimo Sacramento

• Sermão XI Com o Santíssimo Sacramento Exposto

• Sermão da Quinta Dominga da Quaresma (1654)

• Sermão nas Exéquias de D. Maria da Ataíde (1649)

• Sermão de São Roque (1652)

• Sermão Segundo do Mandato (II)

• Sermão do Mandato (1655)

• Sermão da Epifania (1662)

• Sermão da primeira Oitava da Páscoa (1656)

• História do Futuro (vol. I)

• História do Futuro (vol. II)

• Esperanças de Portugal

• Defesa do livro intitulado Quinto Império

• Total de 52 sermões

2. Padre Vieira e seus biógrafos

A obra de Vieira, vasta e complexa, possui elementos que possibilitam as mais variadas interpretações. Muitos falaram a sue respeito, procurando o sentido de seu discurso e de sua vida. No Brasil, privilegia-se a sua postura como missionário, principalmente no período em que esteve na Província do Maranhão (1651-1661). Porém, outras caracterizações acerca do jesuíta já foram apresentadas. Como nos indica Eduardo Hoornaet:

Sua figura histórica foi bastante controvertida: seu primeiro biografo, André de Barros (1746), o descreve como o jesuíta modelo, dedicado e santo, enquanto o bispo de Viseu, Francisco Alexandre Lobo (1826), apresenta-o como um homem vaidoso e ambicioso, seguido nisso pelo historiador maranhense João Francisco Lisboa (1865). No final do século XIX, dois autores, Carel (1889) e Cabral (1900), realçaram sua vida sacerdotal e religiosa enquanto o português João Lucio de Azevedo (1918-19210 pôs em evidencia sua personalidade política e Serafim Leite, na sua História da Companhia de Jesus no Brasil (1938-1950), fez dele retrato proeminentemente apologético. Vieira foi descrito como político por Hernani Cidade (1955), missionário por Máxime Haubert (1964), pregador por Luis Gonzaga Cabral (1901) e teólogo por Raymond Cantel (1960). Enfim, qual a imagem verdadeira! Quem foi Vieira na verdade! ( HOONAERT, p.63).

Assim, para melhor compreendermos os seus escritos faz-se necessário uma especial atenção ao contexto em que sua obra é produzida, pois se negligenciarmos tal aspecto teremos um entendimento fragmentário dela. Ao traçarmos seu perfil biográfico, a eleição de um elemento norteador, para que não nos percamos na infinitude de questões tratadas pelo jesuíta, para tanto utilizaremos, além dos escritos de Vieira, de quatro de seus mais respeitados biógrafos: João Francisco Lisboa, João Lucio de Azevedo, Hernani Cidade e Serafim Leite.

A biografia intitulada “Vida do Padre Antonio Vieira”, de João Francisco Lisboa (maranhense, jornalista e deputado), não deve ser entendida como uma única obra, mas sim como duas produzidas em momentos distintos e com objetivos também distintos. A primeira parte, “Vida do Padre Antonio Vieira (na Europa)”, é uma obra inacabada e sem revisão, publicada pela primeira vez após a morte de seus autores, em 1901, juntamente com suas obras completas. Possui uma narrativa linear, dando destaques para as atividades políticas e diplomáticas do jesuíta. Privilegia, como indica o titulo, o período europeu de Vieira, apesar de tratar rapidamente de suas passagens pela Bahia, ou seja, dos antecedentes a sua partida para a Europa e após sua decadência na corte. Já a segunda parte, “Vida do Padre Vieira (Jornal de Tímon) no Brasil”, foi publicada pela primeira vez em 1852 como parte integrante do Jornal do Tímon, sendo assim uma obra acabada.

Apesar do título, trata apenas da atuação do jesuíta no Maranhão, não se atendo aos demais períodos de sua vida, deixando de apresentar referencias até mesmo ao pequeno espaço de tempo em que Vieira esteve em Lisboa para tratar da questão indígena junto a coroa. Estas duas partes foram publicadas juntas pela primeira vez em 1891, pela Livraria Garnier, com titulo acima mencionado.Uma questão que transcorre todo o discurso de Lisboa é a ambição do jesuíta, que apresentara tais sentimentos já quando entrara para a Companhia de e depois segundo o biografo, Vieira vira no Instituto o caminho mais curo para a grandeza humana, sendo este um sinal de ambição precoce.

Ao analisarmos a biografia de Vieira escrita por Lisboa temos que levar em consideração duas questões: o fato do biografo ser maranhense, sendo que seus pais e avós foram donos de terras neste estado, trazendo consigo os conflitos do século XVII, e de ter vivido nos princípios do Império brasileiro, no primeiro caso devemos considerar a oposição que a população maranhense tinha em relação aos jesuítas, oque resultara na expulsão dos últimos em 1661 e na Revolta de Beckman, em 1684. No segundo, devemos considerar a oposição que havia entre os brasileiros e portugueses no inicio do império, sendo que nesse caso Vieira encarnaria o português explorador que não se preocuparia pelo Brasil.

A tal ambição enfatizada por Lisboa, estaria mais presente quando Vieira abandonara muitas vezes a vocação apostólica em favor dos seus projetos para o reino, em defesa da Dinastia dos Bragança, embora em alguns momentos, tenha dado atenção as ações de Vieira no que se refere a diplomacia e as relações internacionais na primeira parte e as missões e conflitos com maranhenses na segunda, pouco destacando o messianismo do jesuíta e a sua teoria acerca do Quinto Império, relegando a segundo plano o discurso apologético do jesuíta na confecção de sua biografia.

Já Serafim Leite, padre, membro da Companhia de Jesus no Brasil, trata o Padre Antonio Vieira a partir de sua “História da Companhia de Jesus no Brasil”, dando assim destaque para a sua atuação como missionário no Maranhão, entendendo-o como o nome mais importante do instituto do norte do Brasil, ultrapassando Nóbrega e Anchieta no que se refere a literatura. O autor entende o jesuíta como grande político e diplomata, intitulando-o orador da restauração portuguesa, destacando seu trabalho para o engrandecimento da Companhia de Jesus, fato que é compreensível na medida em que sendo ele próprio membro da Companhia de Jesus, proporciona uma interpretação que parte da própria companhia, apresentando uma versão da ordem sobre um dos seus mais ilustres membros.

O autor entende o jesuíta como grande político e diplomata, intitula-o orador da restauração portuguesa, mas apesar da atenção dada ao discurso apologético de Vieira, o vê como alegórico e complementar as suas preocupações políticas, na verdade ao fazer a apologia de Vieira traça a história da Companhia de Jesus em terras brasileiras e pelo fato do mesmo ser membro do instituto acaba por proporcionar uma interpretação que parte da própria Companhia.

Um autor contemporâneo de Serafim Leite foi Hernani Cidade, grande conhecedor da obra de Vieira, colaborando com a reedição de muitas de suas obras. Português de Lisboa procurou entender a vida do missionário como uma trajetória, daí a linearidade de sua obra, que se divide em: “Na Bahia”, onde destaca o período de formação do jesuíta e sua atuação frente as guerras contra os holandeses, “Na Europa”, onde chama atenção para atuação de Vieira como político e diplomata, sendo considerado aqui um dos maiores defensores da nova dinastia. Hernani Cidade apresenta seus projetos políticos vinculados as suas esperanças messiânicas, entendendo a restauração portuguesa como parte de um processo que levaria Portugal a se consolidar como Império Universal Cristão.

Uma questão fundamental para Vieira segundo Hernani Cidade seria seu trabalho missionário, sendo que dele dependeria a conversão mundial e o estabelecimento do Quinto Império (os anteriores seriam o dos assírios, persas, gregos e romanos), pois, para ele , Portugal seria a nação escolhida para levar a cristandade para todos os outros povos, impossibilitando assim uma desvinculação da Igreja em relação ao Estado

Cidade elogia o talento de Vieira e sua precoce intervenção nas coisas públicas, destacando seu profetismo, sempre aliado ao seu realismo histórico e as suas resoluções políticas. Dessa forma seu discurso apologético aproxima a história de Portugal com a do povo hebreu, contida no Antigo Testamento, sendo que, segundo o biografo, seria tal discurso que o levaria ao duelo teológico com a Inquisição, o autor apresenta sua versão da vida de Padre Vieira identificando-o com as preocupações do reino como um todo, sendo sua atuação fundamental para a consolidação do reino e do rei, ao contrario de Lisboa não o vê como opressor aos colonos brasileiros, mas, ao contrário, defende tais regiões como parte integrante de Portugal e, dessa forma, preocupa-se com o reino, no qual está incluso a América portuguesa.

Uma das biografias mais detalhadas e com maior numero de fontes citadas é a de João Lucio de Azevedo. Um dos maiores estudiosos sobre a história de Portugal de seu tempo, consegue, de maneira brilhante, apontar as questões que preocupam Vieira no momento da confecção de sua obra, levando o leitor ao contexto da restauração portuguesa, com suas intrigas e contradições, destacando o espírito profético do jesuíta que, segundo o biógrafo, não o abandonará até o fim de sua vida.

A obra possui dois volumes, é apresentada de forma linear e temática, estando dividida em: 1º Período: O Religioso, onde trata da formação jesuítica e o 2º Período: O Político, com destaque para a sua ação diplomática e defesa dos cristão novos, 3º Período: O Missionário, 4º Período: O Vidente: onde apresenta suas teorias messiânicas e o conflito com a Inquisição, 5º Período: O Revoltado: onde sentindo-se desprezado pelo rei de Portugal, parte para Roma com o intuito de receber o perdão do Papa e finalmente o 6º Período: O Vencido: onde se apresenta o fim da vida de Vieira na Bahia, ainda com significativa atuação política, mesmo que se restringindo a uma esfera local.

Assim como Hernani Cidade, Azevedo apresenta Vieira a partir de uma perspectiva portuguesa, sendo que sua atuação política e missionária deve ser entendida a partir de sua ligação com a coroa, além de suas perspectivas messiânicas para o reino.Já Serafim Leite destaca mais a atuação missionária do jesuíta, enquanto Lisboa observada de forma marcante o caráter ambicioso do padre, estando mais preocupado em angariar poder político sobre as missões que com a fé indígena, além de prejudicar os colonos que dependiam dos nativos para sobreviver..

As posições dos biógrafos influenciaram as analises feitas por estudiosos brasileiros da obra de Vieira. Estes, no entanto, destacam geralmente sua atuação missionária, por estar mais próximo da realidade brasileira, Apontaremos alguns dos estudiosos do jesuíta da atualidade, sem, no entanto adentrarmos na analise de seus trabalho: Sezinandro de Menezes (Padre Antonio Vieira: a cruz e a espada), Alfredo Bosi (Dialética da Colonização), Alcir Pécora, Eduardo Hoornaert e Luis Palacin, além de Janice Theodoro, Anita Novinsky, Ronaldo Raminelli e Evaldo Cabral de Melo.

Uma das mais recentes biografias, apresentada em forma de dissertação de mestrado, é a redigida por Sezinandro de Menezes intitulada “Padre Antonio Vieira, a cruz e a espada”. Neste trabalho o autor tem por objetivo encontrar o conteúdo social da obra de Vieira. Apresenta-o, no entanto, com preocupações estritamente econômicas, entendo os seus conflitos com os diversos setores da sociedade portuguesa como oposição entre a nova sociedade mercantil, representada por ele, e a velha sociedade feudal, representada pelos nobres e a inquisição. Acentua assim que, no século XVII, aqueles que se opunham ao dinheiro seriam conservadores, impedindo o avanço da sociedade portuguesa. Argumenta ainda que a vitória da antiga sociedade seria a causa da derrota de Portugal e da decadência do reino.

Sezinandro de Menezes classifica como burguesas algumas posições de Vieira como por exemplo, o fato de propor a extensão da cobrança de tributos para a nobreza, o que confirmaria um questionamento dos privilégios da aristocracia portuguesa e o classificaria como um homem moderno, afastando-se da escolástica para se aproximar do espírito de Francis Bacon. A partir dai o autor busca compreender a posição de Vieiera frente as questões políticas da restauração portuguesa, apresenta os nativos não como súditos do rei, mas como mão de obra jesuítica, endossando a tese de que os padres da Companhia não permitiam a escravização destes para se utilizarem dos mesmos em proveito próprio.Na verdade o autor ao privilegiar o aspecto econômico em detrimento do político, acaba por apresentar uma visão fragmentaria da obra de Vieira e, ao percebe-la como voltada para os interesses econômicos de Portugal, acaba por endossar a tese de João Francisco Lisboa, de que o Padre objetivava a exploração dos colonos brasileiros, legitimando assim a revolta destes contra os membros da Companhia de Jesus.

A posição de Sezinandro Menezes a respeito de Vieira ao mesmo tempo se aproxima e se distancia da apresentada por Alfredo Bosi no texto intitulado “Dialética da Colonização”. Neste trabalho, o autor apresenta como principal dificuldade da atuação de Vieira a tentativa de ajustar características feudais presentes na sociedade portuguesa com os valores mercantis emergentes. Sua obra buscaria não a eliminação de conceitos medievais como honra, fidalguia e a nobreza, mas sim reordena-las dentro de uma realidade que estava ainda em construção, a da centralização dos estados nacionais e da expansão econômica européia, ou seja, o mercantilismo. Alfredo Bosi apresenta assim o Padre Vieira como um homem de seu tempo, identificando em sua obra as dificuldades de se entender um período de profundas transformações como foi o século XVII., Enfim Bosi apresenta o Padre Antonio Vieira como elemento de engrandecimento da Companhia de Jesus, traçando uma imagem apologética do jesuíta, como Serafim Leite o fez.

Já Alcir Pécora, ao destacar a atuação de Vieira como missionário, entende que os interesses espirituais da evangelização associados aos temporais ou seja, a expansão do reino português. Atenta-se assim o messianismo do jesuíta e ao seu discurso legitimador, pois o sucesso da empresa missionária dependeria da consolidação da coroa lusitana. Além disso chama atenção para o fato de Vieira ser o idealizador do Quinto Império, o que justificaria o pragmatismo do jesuíta na sua atuação na colônia, pois, segundo ele, só o esforço missionário levaria a instituição do Império Universal Cristão.Acir Pécora entende assim que, para Vieira , havia necessidade de inserção do índio brasileiro no corpo místico da Igreja, afirmando que a finalidade dos descobrimentos seria a conversão e a conseqüentemente expansão e solidificação da coroa portuguesa.. O índio seria o súdito do rei de Portugal, o que impossibilitaria sua escravidão, estando assim a liberdade indígena vinculada a sua inserção na igreja e no reino. Ao apresentar Vieira como idealista em relação ao seu projeto de instauração de uma igreja universal cristã sob a égide da coroa portuguesa, e que tal idealismo justificaria seu pragmatismo, estaria Pécora compartilhando do discurso de Hernani Cidade e João Lucio de Azevedo acerca da atuação de Vieira frente aos nativos brasileiros.

Eduardo Hoonaert analisa a obra de VIEIRA a partir de uma perspectiva teológica onde o messianismo português ocuparia lugar central. Vieira entenderia a historia de Portugal como sagrada, que culminaria na formação de um Império Universal Cristão, sendo que, dessa forma, a separação entre igreja e estado não etria sentido, pois poderia enfraquecer a obra missionária. O jesuíta teria assim uma perspectiva sagrada da historia de Portugal, onde a coroa portuguesa assumiria o papel de estado evangelizador universal, entendo a atuação dos jesuítas junto aos naturais brasileiros a partir da necessidade da expansão de Portugal e, conseqüentemente do cristianismo, aproximando-se assim de Alcir Pécora, das questões apontadas por Hernani Cidade e João Francisco Lisboa.

Luis Palacin, ao tratar da obra de Vieira, parte da idéia de consciência possível ou seja, de que o meio imporia limites na forma de se pensar. A partir dai, o vê como representante do barroco português e do pensamento social jesuíta, que partiria de um estado de espírito nacional, ultrapassando os motivos de classes ou grupos, o autor , ao mesmo tempo que se aproxima de Pécora e Hoonaert, por demonstrar que no discurso de Vieira estariam presentes duas motivações que se complementariam, a patriótica e a religiosa, se distancia deles, pois considera a idéia de uma intervenção divina na historia de Portugal atrapalharia suas elaborações políticas e sua atuação tanto na Europa quanto na América, apesar disso não tece criticas ao jesuíta, entendo-o como um homem de seu tempo e assim , limitando a visão de mundo do jesuíta.

Em relação ao trabalho aqui apresentado, a grande motivação foi compreender e apresenta uma suscinta biografia de Padre Antonio Vieira, principalmente no que se refere a busca de compreender o homem e o padre num ambiente de disputas políticas e num mundo em transformações, assim entendemos que biografizar Vieira significa ver nele um homem fortemente marcado por suas preocupações históricas em relação ao futuro, aliando o messianismo ao discurso legitimador .

Tete
Enviado por Tete em 28/05/2009
Código do texto: T1620607