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NOS IDOS DE 68 - QUINZE DIAS COM A REPRESSÃO - 1a PARTE

QUINZE DIAS COM A REPRESSÃO
“Podem me prender
podem me bater
podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião.”
(Zé Kéti)

A escuridão e a dureza do chão forrado com jornais, onde consegui dormir, apesar das dores no corpo e do desconforto, marcaram a minha primeira noite na cadeia. Fui introduzido na cela sete já com as luzes apagadas e não consegui identificar meus companheiros de infortúnio. Exausto, atordoado e dolorido, dormi como uma pedra, só acordando no dia seguinte, ao clarear o dia.
Enquanto dormia, Ciro e Ricardo providenciavam a “limpeza” na casa de meus pais. Lá, eu guardava uma mala cheia de documentos e lembranças, inclusive meu discurso de formatura no “Freola”, onde, orador da turma, eu fazia críticas ferrenhas à ditadura, ao imperialismo e à miséria em que vivia mergulhado o nosso povo.Tudo na época poderia ser considerado prova num processo: diários com opiniões políticas contrárias à ditadura, poemas, discursos de formatura, agendas que indicassem relações com pessoas consideradas subversivas e até os livros que líamos. Como o Ciro já havia visto minha mala velha cheia de escritos pessoais, livros e documentos da AP, resolveu tirar tudo da casa dos meus pais. Afinal, ele sabia que o meu endereço oficial era a casa do velho e que, no Dops, eu não daria o endereço da pensão, para não comprometer o Aloísio. Tentando se antecipar á polícia, Ciro e Ricardo apressavam o motorista do táxi que os conduzia à casa do velho. Na avenida Pedro II, o cara se irritou e encostou o carro:
_ Escuta aqui: isto não é carro de corrida não! Se vocês estão com muita pressa, é melhor descerem!
A contragosto, Ciro e Ricardo desceram do táxi. O tempo, naquele momento, era precioso. Quanto mais demorassem, maior o risco de serem encontrados na minha casa pela polícia. Por isso, quando conseguiram parar um outro táxi, decidiram permanecer mudos até chegarem na rua Perdões. Mandaram, então, que o motorista os aguardasse e olharam atentamente em volta. Certos de que não havia sinal da polícia, tocaram a campainha da casa do meu pai. Pressentindo alguma coisa, seu Araújo e dona Odete correram juntos para abrir a porta. Enquanto entravam, procurando ganhar tempo, Ciro e Ricardo contaram para meus pais que eu havia sido preso. E enquanto minha mãe chorava e meu pai expressava um “eu sabia que isso ia acontecer”, Ciro e Ricardo correram para o meu nesta época ex-quarto, onde agora meu irmão Carlos Alberto dormia sozinho, e pegaram a mala que ficava embaixo do guarda-roupa. Sem tempo de conferir o que era comprometedor ou não, carregaram tudo e foram embora. Dois minutos depois, soou novamente a campainha. Minha mãe pensou que Ciro e Ricardo haviam esquecido de alguma coisa e se apressou em abrir a porta. Mal educados e estúpidos como sempre, os agentes do Dops foram entrando. Comunicaram que iam revistar a casa e o fizeram, enquanto minha mãe chorava de novo e meu pai dizia para os agentes que sabia que aquele moleque ia acabar perturbando o sossego de sua casa, e comprometendo a ele, à mulher e aos irmãos. Só que, na realidade, foi a predileta do velho, a minha irmã, que acabou me comprometendo.


Quando acordei de manhã, pude vê quem eram os companheiros da cela sete. Éramos três secundaristas e quatro universitários. Já conhecia alguns companheiros, principalmente os ligados à AP, e, rapidamente, me entrosei com os outros. Todos havíamos sido espancados, mas o “Sabiá” da medicina estava pior. Havia sido submetido a uma forma de espancamento chamada de “escada-rolante”. O cara recebia pancadas de cassetete, enquanto era empurrado e rolava escada abaixo.
Enquanto os sádicos agentes mantinham seu bom humor até na hora de cometer seus crimes mais hediondos  de tortura e espancamento, nós também não ficávamos para trás na arte de  fazer troça com a desgraça alheia ou com o nosso próprio infortúnio. Achávamos que, mantendo o bom humor, manteríamos a unidade do grupo e o moral alto. Sinceramente, ainda hoje, não acredito que nenhum grupo de presos tenha mantido o moral tão alto e o bom humor tão preservado quanto a turma que ocupou a cela sete do Dops a partir de 20 de agosto de 1968.
Já no segundo dia, começamos a dar nova organização à nossa cela. Foram enviadas para nós várias camas de armar, o que garantiria que não dormiríamos mais no chão nas noites seguintes. Vários pacotes de cigarros, biscoitos e marmitas, enviados por familiares e conhecidos nossos, garantiram nosso vício, nossa boa alimentação e nos livraram de dependermos da (argh!) gororoba do Dops que nos sustentou no primeiro dia. Advogados entraram em cena, contratados pelas famílias dos presos e pelas organizações e partidos a que pertencíamos. Alguém recebeu um baralho, outros receberam rádios e passamos a desfrutar de um relativo conforto na cela sete do Dops.
A janela da nossa cela parecia mais a prateleira de um bar. Cigarros empilhados, biscoitos, barras de chocolate e um rádio ligado até as vinte e duas horas poderiam dar a impressão de que estávamos num hotel de quinta categoria ou no acampamento de uma colônia de férias. Só que, se o leitor teve esta impressão, enganou-se redondamente. Fazíamos tudo que estava ao nosso alcance para manter o moral alto e para aliviar a tensão, mas sabíamos que a nossa situação era complicada. Confesso, entretanto, que, quanto mais me recordo, mais admiro a turma da cela sete. Conseguimos driblar a adversidade, principalmente com bom humor e companheirismo, e sobrevivemos, a maioria de nós sem maiores traumas, a uma das experiências mais impressionantes do nosso tempo que é a de ser prisioneiro político numa ditadura militar.


“Sabiá” foi separado de nós. Submetido a mais espancamentos e pedido exame de corpo de delito por seu a advogado. Ele foi isolado na cela um. Da nossa cela, tentávamos reanimá-lo, cantando:
“Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho.
Voou, voou, voou, voou.
A menina que gostava tanto do bichinho
chorou, chorou, chorou, chorou”.
Ninguém lá fora tinha noção de como estava o “Sabiá”. Quando chegavam as visitas, perguntavam por ele e não sabíamos responder.
 
Nos primeiros dias, fomos fazendo amizade com os outros freqüentadores dos porões do Dops. Esperendeus, nosso carcereiro, até que era um cara legal. Apesar de ter uma missão que poderia desempenhar com violência e antipatia, era um cara simpático que se preocupava em nos dizer como as coisas funcionavam, as regras a que os presos estavam submetidos, enfim, procurava nos manter informados e evitar conflitos entre nós e os agentes da carceragem. Esperendeus também procurava nos dar conselhos com alto teor ideológico. Carinhosos e preocupado, um paizão, enfim, nosso carcereiro, não fosse a nossa sólida formação política, teria nos convencido de que era fria participar e se envolver com o movimento estudantil.
Alan era um rapazinho que, até hoje, não sei ao certo porque estava preso justamente no Dops. Envolvera-se num desentendimento num boteco, tendo sido agredido e humilhado por um cara mais forte que ele. Franzino, mas ‘muito macho”, como ele mesmo se definia e não ousávamos contradizer, após ser agredido, Alan foi em casa. Pegou um revólver, uma espingarda  e algumas caixas de chumbinho. Em seguida, voltou ao boteco e chamou seu agressor para a rua. Primeiro, descarregou o revólver. Depois, calmamente, foi carregando e descarregando a espingarda de chumbinho no corpo do infeliz. No final, foram encontrados no corpo do seu desafeto, além das balas, mais de cinqüenta chumbinhos. E Alan nos contava esta história com tanta doçura e serenidade, que acabamos nutrindo por ele uma certa admiração.
Na cadeia, a gente não pode escolher muito as amizades, como a g ente faz aqui fora. Tanto que ficamos amigos até de um pistoleiro profissional que estava preso na época por matar um prefeito de uma cidade do interior. Fora isso, nosso contato maior era com os policiais do Dops. Eventualmente-Que sufoco quando isto acontecia!-, também nos “relacionávamos”  com o pessoal do 12RI, que conduzia um IPM sobre o movimento estudantil em BH.
No Dops, um agente que chamava a atenção era o Frederico. Enorme, o então famoso espancador estava sendo tratado como um menininho fraco e indefeso pelos colegas. Revoltados com o fato do covarde espancador ter sido atingido por uma pedra numa passeata, o que o obrigou a ficar com o braço na tipóia por alguns dias, os agentes tratavam aquele homem enorme e bastante adulto da mesma forma como nossas mães mais dedicadas nos tratavam quando, ainda crianças, ficávamos “doentinhos”. E, numa grosseira inversão de culpas e responsabilidades, Frederico era identificado pelos agentes como uma vítima dos terríveis e maldosos estudantes. O único contato direto que tivemos com o espancador, além de vê-lo desfilar pelos corredores da carceragem exibindo seu “dodói”, foi quando ele entrou em nossa cela com um feroz pastor alemão que atiçou sobre nós para se divertir (Pobre Fred! Divertia-se espancando e assustando as pessoas...). Corremos todos para o banheiro e nos trancamos. Depois, ele sumiu e não o vimos mais.
(CONTINUA NO PRÓXIMO SÁBADO)

ESTE TEXTO FAZ PARTE DO MEU LIVRO 'NOS IDOS DE 68", EDITADO EM 2004. QUEM QUISER ADQUIRIR O LIVRO FAVOR ENTRAR EM CONTATO PELO FONE (031)34768614 OU PELO E-MAIL revistalo@yahoo.com.br
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Luiz Lyrio
Enviado por Luiz Lyrio em 24/07/2005
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Sobre o autor
Luiz Lyrio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 67 anos
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