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QUINZE DIAS COM A REPRESSÃO - PARTE 2

Gostávamos de desafiar os agentes do Dops. Foi uma maneira que encontramos para podermos encará-los de igual para igual. Lembro-me que cantávamos, parodiando a música de Zé Kéti:
“Podem me prender.
Podem me bater.
Podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião.
Daqui do Dops eu não saio não.
Falem de mim quem quiser falar.
Aqui eu não pago aluguel.
Se eu não morrer amanhã, Davi Hazam,
vou para o 12RI.”

Uma coisa que irritou profundamente o pessoal do Dops foi quando começamos a jogar “vinte e um” a valer, para pagar quando saíssemos da cadeia. Bastante ciosos de sua missão enquanto policiais, os agentes ficaram putos com o fato de estarmos cometendo uma contravenção (o jogo a valer, grande contravenção no Brasil!) dentro da cadeia, e recolheram nosso baralho e nos passaram um sermão.
Brincávamos muito, mas tinha uma brincadeira minha que desconfio que ninguém gostava. Nunca fui de dormir cedo. Acho que já nasci boêmio, pois me lembro, ainda menino, estudando ou escrevendo  até altas horas da madrugada e do meu pai sempre me mandando desligar a televisão e ir dormir. Isto sem falar da paixão precoce pela boemia. Desde os quinze anos, já adorava ficar em festas e bares até altas horas.Por isto, no Dops, aquele negócio de apagar as luzes e ir dormir às vinte e duas horas era um sufoco para mim. Eu ficava revirando na cama e custava para dormir, ao contrário dos meus colegas de cela, que apagavam rapidinho, depois da “hora de recolher’. Não suportando mais a insônia e o tédio da “hora de recolher”,  comecei a juntar de dia todos os papéis inúteis (maços de cigarros vazios, embalagens de biscoito,etc.), organizando um arsenal com o qual promovia uma saudável (saudável para mim, é claro) guerrilha de bolinhas de papel, após apagarem-se as luzes. Incomodados, meus colegas dorminhocos acabaram armando (ou será desarmando?) uma para mim. Numa bela manhã ( se é que é possível existir uma bela manhã para quem está preso), conforme antes combinado, enquanto eu dormia (é claro que eu era o último a acordar), pegaram minha cama de armar e a desarmaram, fechando-a comigo dentro. Depois, carregaram-me com cama e tudo e me colocaram debaixo do chuveiro (aberto, é claro).
A partir desse dia, compreendi que meus companheiros concordavam em se submeter à absurda norma de dormir às vinte e duas horas e, sendo o único a discordar, me submeti democraticamente à vontade da maioria, suspendendo definitivamente qualquer tipo de ataque aos companheiros após as vinte e duas horas.


Apesar das brincadeiras e dos momentos de descontração, na cadeia, os maus momentos superavam em muito os bons momentos. Na nossa díade, prisão significava a privação das coisas de que mais gostávamos (e necessitávamos). A liberdade é fundamental para o exercício da felicidade. Ao preso, só resta rir da própria desgraça e sonhar. Sonhar principalmente à noite,, durante o sono, quando fugíamos da cadeia e passeávamos por lugares conhecidos e estranhos e experimentávamos sensações às vezes maravilhosas. Como na noite em que sonhei com uma mulher linda, desconhecida e fogosa, e acordei todo esporrado. Da cama para o chuveiro, naquela manhã tomei o banho mais feliz da minha estadia no Dops.


Os momentos mais terríveis passávamos no 12RI. Tensos, ficávamos sempre na expectativa que não fosse o nosso nome a ser chamado, quando um agente vinha buscar um de nós para ser levado para interrogatório no Doze, Nessa hora, torcíamos para ficar ali, no Dops, presos. Sair, passear de jipe, respirar ar puro, nada disso nos atraía. O doze significava pressão, espancamento e tortura.
Diante das situações diversas em que fui colocado, acho até que me saí bem nos interrogatórios no Doze. Quando Ciro e Ricardo deixaram a casa dos meus pais, os agentes do DOPS fizeram uma busca. Meu pai tinha um toca-disco antigo, já em desuso. Dentro do toca-disco, foi encontrado um documento altamente comprometedor da Ação Popular, organização da qual eu fazia parte. Ao ver o documento nas mãos do tenentezinho que me interrogava, não o reconheci. Nunca o tinha visto, pois pertencia a amigos da minha irmã. Isto me deu forças para manter o meu papel de inocente útil e a tese de que o documento tinha sido plantado pela proporia polícia em minha casa, O tenentezinho me interrogava com um revólver na mão. Nervoso com minhas negativas e com minhas insinuações de que a prova tinha sido colocada pela polícia em minha casa, ele deixava o revólver cair, acho que de forma premeditada. Ele achava que eu tinha medo do revólver, mas – incrível! – eu não tinha nem um pouco de medo (e nem um pouquinho de respeito) nem do revólver e nem daquele tenentezinho. Também, seus subordinados não ajudavam muito.Certa feita, ele saiu e deixou na porta do local do interrogatório um soldado com uma metralhadora. O soldado, então, se dirigiu a mim:
_ Escuta, você mora na rua Perdões?
_Moro. Por que?
_ Você não é filho da dona Odete?
_ Sou.
_ Cara, eu te conheço! Sou muito amigo do seu irmão, o Gasolina. Cá entre nós, é ridículo colocarem um soldado com metralhadora para tomar conta de você. Você é legal, cara. Eu te conheço. Esse pessoal tá exagerando...
O soldado calou-se com a chegada do tenente. Olhei para a cara do amigo do meu irmão e, a partir daí, passei a achar ainda mais ridícula toda aquela encenação.
Num outro interrogatório, na volta para o Dops, o tenente mandou parar o jipe que nos conduzia em frente à Polícia Federal, na rua Timbiras. Tirou, então, seu brinquedinho do coldre e o deu para o recruta que dirigia o jipe do exército:
_ Sabe usar isto? – Estendeu-lhe  a arma.
_ Sei. – Respondeu o recruta.
_ Então, se este cara tentar fugir, você pode atirar. . Se precisar, pode atirar pelas costas mesmo. Mas não vá me falhar, heim? – ameaçador e tentando pateticamente me amedrontar – Atira mesmo! – E saiu.
Mal o tenentezinho virou as costas, o soldado soltou uma sonora gargalhada:
_ Mas, ô tenentezinho ridículo, né? Vê se eu vô atirar em você, que eu tô vendo que é um estudante, um cara legal. Mas é besta...
_ Muito besta. – Arrisquei.
E ficamos conversando animadamente sobre a idiotice do tenente até que o beócio apareceu do outro lado da rua.
Só uma vez titubeei nos interrogatórios. Foi quando me mostraram os depoimentos dos meus familiares. Um dos meus irmãos, segundo leu o tenente em voz alta, afirmava que já me aconselhara a abandonar a militância por várias vezes e isso, por alguns segundos, fez com que minha máscara de inocente útil caísse, deixando aparecer meu rosto de militante. Mas, refiz-me rapidamente, dizendo que, ultimamente, mal me encontrava com meu irmão e que ele não sabia nada da minha vida. O mesmo argumento usei para descartar outros depoimentos, como o de meu pai. Também tentaram me jogar contra outras pessoas do movimento secundarista. Disseram que o Ageu tinha me dedado, mas respondi que isto era impossível, porque o Ageu nem sabia o meu nome e me tratava apenas pelo apelido (“Lampadinha” – o do professor Pardal). O tenentezinho parece que gostou do apelido porque, pela primeira vez no interrogatório, esboçou um sorriso.
Para satisfazer o tenentezinho, “entreguei” alguns companheiros. Pensei alguns nomes conhecidos publicamente de gente que liderava manifestações e já dera entrevistas e saíra em fotos nos jornais, e disse que sabia que estas pessoas participavam do movimento estudantil. Informações inúteis, já que de domínio público. Resisti a todas as pressões e não fui além disso. Também, até hoje não sei ao certo porque (na época, disseram-me que era porque eu era menor de vinte e um anos) fui poupado da tortura. Assim, só a pressão psicológica  (diga-se de passagem, muito mal empregada pelo tenentezinho incompetente) não foi suficiente para arrancar de mim algumas informação nova que fosse útil para a repressão. Nem mesmo os dois idiotas que se alternavam ao tenentezinho na sala de interrogatório me impressionavam. Um era “bonzinho” e dizia que tinha um filho da minha idade e sabia dos problemas que levavam à militância. Sugeria, então, que eu cooperasse que, logo, logo, por ser menor, eu seria liberado. O outro era “mauzinho”:
_ Subversivo, idiota, filho da puta, veado, comunista miserável! Cê num perde por esperar, seu comuna de merda! – Ele xingava e saía.
Eu, claro, ria por dentro daquela encenação. Era muito mais inteligente que eles.


É claro que eu ficava nervoso nos interrogatórios. Não tinha medo das presepadas e da encenação ridícula do tenentezinho e sua “troupe”, mas temia, principalmente, cair em contradição e acabar dando com a língua nos dentes e passando alguma informação que não devesse ou fizesse cair por terra a minha imagem de inocente útil. Por isso, os interrogatórios eram muito estressantes.
Medo mesmo, porém, só houve um dia que senti.. E muito. Foi quando o tenentezinho me colocou em frente à porta de uma sala, enquanto segundo ele, esperávamos a liberação de um jipe que me levaria de volta ao Dops. Dentro da sala, estava o Turmim da Engenharia, sendo interrogado, ou melhor, espancado. Aa cada pergunta que era feita vinha uma sucessão de pontapés.  Com seus coturnos (Puxa! Como aquilo devia doer!), os soldados chutavam tudo que viam pela frente: peito, costas, rosto, coxas.Turmim gritava e sangrava. Quando paravam os pontapés, vinha nova pergunta e, antes que tivesse tempo de responder, se quisesse, Turmim era agredido com nova sucessão (Ah, como detesto coturnos, hoje em dia!) de pontapés que arrancavam mais sangue e dor do estudante de  engenharia.
Estarrecido, eu assistia à cena, sentindo-me impotente diante da ação daqueles bandidos fardados. O tenentezinho observava minha reação e, burro como sempre, colocou-me no jipe para seguir de volta ao Dops. Não sei não, mas acho que se ele tivesse voltado comigo para a sala de interrogatório naquele dia, eu teria entregado até o pessoal do Comando Regional da Ação Popular, a turma mais graduada que eu conhecia.


_Luiz Paulo Lyrio, Eduardo Sales e Flávio Serpa!
Assustamos aos sermos chamados os três secundaristas de uma só vez. Pensamos, naquele momento, que íamos para o Doze, e deu aquele frio na barriga.
_ Os advogados de vocês conseguiram um “hábeas corpus, devido ao fato de vocês serem menores de vinte e um. Peguem suas coisas!”.
Passei no balcão, onde Esperendeus conferiu nossos objetos pessoais e despediu-se de nós carinhosamente:
_ Olha, sinceramente, eu espero nunca mais vê-los. Só se for na rua. Aqui não.
Ao subirmos paras o andar acima da carceragem, um dos nossos advogados sugeriu que chamássemos alguém da família para buscar-nos:
_ O Athos também conseguiu um hábeas corpus. Tão logo colocou os pés na Afonso Pena, foi preso pela Federal. Talvez, com alguém da família vindo buscar vocês, eles não ousem fazer o mesmo.
Telefonei e meu pai e minha mãe vieram me buscar de táxi. Quando saí pela porta do Dops e vi o sol se esparramando avenida abaixo, tomei consciência de que estava livre. Ainda tenso e com medo da Federal, entrei no táxi ressabiado. Só respirei aliviado quando cheguei em casa. Lá, meus pais me comunicaram que iríamos para o Rio, interceder junto ao meu primo da Aeronáutica para que minha prisão não tivesse desdobramentos mais sérios. Ainda balado pela experiência da prisão, apesar de contra meus princípios, concordei em viajar para o Rio para conversar com o Major Cordeiro. Mesmo porque, nos dias imediatamente subseqüentes `a minha soltura, era mesmo bom que eu não visse nenhum companheiro e nem participasse de nenhuma ação política. Havia grande possibilidade de estar sendo seguido.




Luiz Lyrio
Enviado por Luiz Lyrio em 20/08/2005
Código do texto: T44041
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Sobre o autor
Luiz Lyrio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 67 anos
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Luiz Lyrio