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Um otimista em relação ao Brasil

No interior de São Paulo, em 25 de setembro de 1909, na cidade de Jaú, cercada de fazendas de café, nascia Sebastião Ferraz Camargo Penteado, o fundador daquele que se tornaria um dos maiores conglomerados empresarias do Brasil.
Audacioso, inovador, Sebastião Camargo começou a trilhar sua história de trabalho na cidade logo cedo. Aos 17 anos, aprendeu a transportar terra retirada de construções usando uma carroça puxada por um burro Outras carroças vieram e terra e pedras seguiam para aterros e estradas. Com a pá em punho e as rédeas nas mãos, Camargo ajudou a construir as estradas que se multiplicavam pelo interior de São Paulo na época. Logo, Sebastião Camargo deixou de ser autônomo para ser subempreiteiro.
Um acelerado processo de industrialização, impulsionado pela substituição de importações, marcou a década de 1930. Inicia um ciclo de desenvolvimento da economia brasileira, apesar dos problemas internacionais após a crise de 1929. No plano político, turbulências: diversas crises culminaram com a Revolução Constitucionalista de 1932 e, mais tarde, em 1937, com o Estado Novo e a supressão do regime democrático, num momento em que o totalitarismo estava em voga no mundo.
Em 1939, Sebastião Camargo encontra o advogado Sylvio Brand Corrêa, juntos eles fundaram uma pequena construtora com um capital de 200 contos de réis, a Camargo Corrêa & Cia. Ltda. - Engenheiros e Construtores. A empresa iniciou suas atividades informalmente. Pouco tempo depois, em 27 de março de 1939, a sociedade foi registrada na Junta Comercial do Estado de São Paulo. Como eles nada entendiam de engenharia, a palavra "engenheiros" foi usada para salientar que os empreendedores estavam dispostos a qualquer empreitada. E trabalho não faltava. Em 1940, Camargo adquiriu um trator, o que significou grande vantagem tecnológica em relação à concorrência. Os contratos se avolumaram. O astuto "Bastião", como era chamado pelos mais íntimos, ou "China", fundou em Jaú a tecelagem Companhia Jauense Industrial porque queria proporcionar trabalho a seus conterrâneos. Conseguiu mais do que isso, transformou a empresa numa grande produtora de tecidos.
Nos anos 50, a construção de Brasília era o sonho maior do empreiteiro. Ao participar da licitação, ouviu de um assessor do presidente Juscelino Kubitschek que a Camargo Corrêa não tinha máquinas em número suficiente para encarar as obras da nova capital. "Pois então me dê três dias e eu provo que o senhor está enganado", respondeu, contrariado. Quando o prazo expirou, o empresário desfilou pelo cerrado com mais de 100 tratores vindos de seus canteiros de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás. Resultado: coube à Camargo Corrêa a abertura de várias estradas que possibilitaram o acesso à capital federal. Em 1960, JK sugeriu que Camargo construísse um moinho de trigo para abastecer Brasília. Preocupado com o rigor técnico que a tarefa exigia, ele tratou de "importar" um especialista em moinho da Suíça para garantir a qualidade do serviço. Batizou-o de Moinho de Trigo Jauense. Em 1962, quando a empreiteira construiu a hidrelétrica Usina de Jupiá, no rio Paraná, uma das maiores do Brasil, concluída em 1968, a imponência da obra obrigou que uma cidade fosse construída ao seu redor para alojar os 12 mil funcionários.
Em 1964, Corrêa desligou-se da sociedade, deixando seu nome na empresa.
Nos anos 70, a construtora entrou na licitação para as obras da ponte Rio-Niterói e tirou o segundo lugar. Até parece que rogou uma praga. Morte de pedreiros e desmoronamentos em meio à construção da ponte obrigaram o presidente Emílio Garrastazu Médici a pedir ao audacioso empreiteiro Sebastião Camargo que assumisse a obra. "Pois não, senhor presidente, mas vou fazer do meu jeito. Vou começar derrubando tudo e partir do zero", respondeu Camargo.
A visão empresarial de Sebastião Camargo, aliada à sua persistência, solidificaram o que é atualmente uma das maiores corporações particulares do Brasil, com patrimônio líquido de R$ 3,8 bilhões e receita bruta de R$ 4,1 bilhões, conforme dados do ano 2000. A partir dos anos 90, Camargo passou a fazer parte da lista de bilionários da revista Forbes e sua fortuna pessoal foi avaliada em US$ 1,3 bilhão (Sebastião Camargo tornou-se um dos três únicos brasileiros com fortuna pessoal acima de 1 bilhão de dólares - ranking publicado na revista americana Forbes e Fortune).
O grupo, com cerca de 33 mil funcionários é hoje uma das maiores corporações privadas do país. Atua, por meio de 16 empresas operacionais, nos setores de engenharia, projetos e infra-estrutura, meio ambiente, saneamento, cimentos, pré-fabricados, concessões rodoviárias, energia, equipamentos e sistemas elétricos, têxtil e desenvolvimento imobiliário. Detém ainda participações nos setores de alumínio, siderurgia e calçados. Diversificado, o Grupo tira o máximo da sinergia entre suas empresas, para oferecer o melhor em produtos e soluções.
Otimista em relação ao Brasil, Sebastião Camargo dizia: "É preciso acreditar no Brasil, que tem imenso potencial. E arriscar. Arriscar com ponderação, mas arriscar, porque o país não vai parar, não vai ficar na recessão".
Sempre com pilhas de documentos e relatórios sobre a sua mesa de trabalho, Sebastião Camargo uma vez questionado ao que devia ser muito difícil administrar tantas empresas, ler tantos relatórios, tomar tantas decisões...  Com um sorriso extremamente amável, ele respondeu: "Nem tanto. Eu sempre analiso primeiro o fluxo de caixa da empresa em questão. Se for bom, aprofundo a análise. Mas se for ruim, já sei que medidas saneadoras e urgentes terão de ser tomadas".
Sebastião Camargo um dos maiores empresários que este país já conheceu, faleceu em 1994, deixando obras importantes espalhadas pelo país. Entre elas: a construção de Brasília, as hidrelétricas de Tucuruí, Itaipu, Ilha Solteira e Jupiá, além da construção da Ponte Rio–Niterói e do Aeroporto Internacional de São Paulo (Cumbica), Guarulhos, SP. as rodovias Imigrantes e Bandeirantes, o gasoduto Brasil-Bolívia, a usina nuclear de Angra I.
Na construção de Itaipu, quase provocou um atrito diplomático. A Camargo Corrêa não havia sido aceita para a obra do lado brasileiro. O ditador paraguaio Alfredo Stroessner, amigo de pescaria do construtor, protestou: "Onde está Don Sebastián?" Ameaçou melar o negócio, obrigando o governo brasileiro a contratar a Camargo Corrêa.
Sebastião Camargo, o fundador da construtora Camargo Corrêa, viveu umbilicalmente ligado à terra e preservou os costumes sertanejos. Sempre com um cachimbo na boca, reservava os fins de semana para se atirar no mato. Não era raro ele se aventurar em caçadas no Mato Grosso. Podia-se medir a paixão observando a coleção particular de animais empalhados na fazenda Morro Vermelho em Jaú. Pelo menos uma vez por ano embrenhava-se em alguma selva africana. Tudo mudou radicalmente em 1988, quando o caçador quase virou caça. Ao deparar com um leão, ele mirou a fera e errou o alvo. O felino correu em direção ao empresário e, não fosse a providencial ajuda do guia, que liquidou o animal faminto com um tiro certeiro, a diversão teria terminado em tragédia. "Ele dedicou-se ainda à criação de javalis, patos, gado e cavalos".
... "" Quero, mais uma vez prestar, a minha gratidão e a minha felicidade, que acho que é a palavra mais adequada, de poder estar, nesta manhã, começo de tarde, uma vez mais aqui, em Tucuruí, para fazer o que vim fazer. Creio que é a terceira vez que venho a Tucuruí, como Presidente. E cada vez que venho, cada vez que olho esta obra ciclópica, por um lado, fico emocionado, ao me recordar daqueles que tanto trabalharam por Tucuruí. E, por outro lado, tenho uma ponta de pena de que os brasileiros todos não possam fazer, como nós podemos, e contemplar esta realização aqui, na Amazônia. Se todos pudessem ver o que é Tucuruí, todos entenderiam e sentiriam a emoção que nós sentimos agora, ao fazer uma pequena homenagem a Sebastião Camargo. Porque hoje é fácil, talvez, nem tanto assim. Mas, no passado, era muito mais difícil, pela ousadia, sem a qual não se constrói nada. E Sebastião ousou. Ousou sempre. E o resultado da sua ousadia está plantado em concreto pelo Brasil afora. De modo que esta homenagem que prestamos é uma homenagem a todos aqueles que com ele trabalharam, aos seus familiares, aos milhares de empregados que se dedicaram, aos que vinham aqui, comer churrasco com ele nos fins de semana, os trabalhadores, os engenheiros, os funcionários. Porque o Brasil precisa de gente que tenha fibra e fibra não faltou ao Sebastião, que tenha inteligência e humildade, que não faltaram ao Sebastião. Que tenha perseverança, mas, sobretudo, que acredite. Sebastião acreditou no Brasil, como nós acreditamos. De modo que é, para mim, uma grande satisfação prestar essa homenagem.
... E, simbolicamente, quando apertei esses botões, fiquei pensando: meu Deus, se cada brasileiro pudesse ter a emoção que eu tive, ao ampliar um pouco mais a produção da energia e sua integração ao Brasil, certamente teríamos mais audácia, e nós geraríamos mais pessoas como Sebastião Camargo, e teríamos um Brasil mais próspero. ""
_ - Discurso do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, na solenidade de inauguração da segunda etapa da usina de Tucuruí, no Pará - (21/12/2002) _
Plínio Sgarbi
Enviado por Plínio Sgarbi em 30/10/2005
Reeditado em 26/01/2007
Código do texto: T65251
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Plínio Sgarbi
Jaú - São Paulo - Brasil, 54 anos
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