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PAULO COLINA - UMA INTRODUÇÃO BIOGRÁFICA

Parece que não, mas em 9 de outubro próximo fará 8 anos que o Paulo Colina morreu. Poeta, tradutor, ficcionista, dramaturgo, ator, cantor, compositor, esse cara foi desses cometas que sempre voltam para a Terra, trazendo novas cores para o arco-íris, mostrando que vale a pena estar aqui, agora, e – principalmente – ensinar que ter “atitude” diante das contradições da vida é coisa que pode e deve ser interpretada como engrandecimento do homem. O homem, enfim, legou-nos a força da luta contra a covardia e a “não pipocar” no meio de campo.
Abatido em alto vôo aos 49 anos, o guerreiro negro foi ativo militante de suas idéias, sãs e várias. Foi diretor da União Brasileira dos Escritores(UBE), seção São Paulo, em várias gestões. Também foi tradutor de tankas japoneses(“tanka” ou “tanca”, é um poema curto, muito popular no Japão, parecido com o haicai); além de ter versado para o português textos do nigeriano Wole Soyinka(ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1986) e do sul-africano Denis Brutus. Foi divulgador ferrenho da poesia afro-descendente praticada aqui nessa nossa terra.

A 1ª vez que o “vi” foi na 4ª capa do livro Todo o Fogo da Luta ”(poesias, 88 pg., 1ª ed. 1989, Scortecci Editora). Estava folheando vários livros quando fui “sequestrado” pela foto seminal de um rosto opuscular, em sépia, que sugeria, através de um olhar severo e quase triste, que a leitura daquela obra seria um curto-circuito lírico(muitos anos depois descobri que uma foto gêmea estava na 4ª capa do livro A Noite Não Pede Licença , o que prova que minha interpretação da foto não foi uma catarse individual). O texto que li era um libelo de resistência, coerência e inteligência, focados na complexidade do humano, individual e coletivamente, tanto na história quanto no presente. Não há no seu texto ressentimentos, dores pavoneadas ou resquícios de ódio. Um exemplo:

"A lembrança do mundo ideal
Nunca como um latido nervoso
Ao passado de meu amor
Mal-resolvido
Mas como toda chama que fica."
“QUANDO O AMOR ACABAR”, pg. 75

Sobram argumentos sólidos para um “olho no olho”, que evoca todo o fogo da luta do homem(e sua luta – e a de seus antecedentes, negros – com certeza é “a centelha” a ser considerada sempre, na sua construção poética). Temos que notar, porém, que essa luta não é de uma maquiavelismo primal, “dente por dente”:

"Reconstrução da noite
Memória em fogo
Do que vale a pena"
“ARQUITETO” , pg. 56

Ou, se assim o for, que seja uma luta renhida, observada a partir da argúcia de seus oponentes:

"Afiar as garras
Não há asa que me alce
À amplitude do silêncio"
“PÁSSARO” , pg 71

A partir da leitura deste Todo o Fogo da Luta , remeti-me a outros escritos do Colina , que, via de regra, foi poeta lúcido de sua condição melanínica, contista virtuoso, cronista atento, e, acima de tudo, lutador incansável de sua quimera.

Paulo foi herdeiro fiel e aprofundador de questões levantadas e assinadas por Luiz Gama, Solano Trindade, Oswaldo de Camargo e Joel Rufino dos Santos, entre tantos e muitos outros. Sua obra toda aguarda ansiosamente uma leitura atenta das gerações que o sucedem e continuarão o seu apostolado, para que a literatura hoje conhecida como afro-descendente lusófona no território americano do sul, ganhe em riqueza, discernimento e substância. Para isso ele viveu e muito colaborou.

 

Principais Obras de PAULO COLINA :
FOGO CRUZADO (contos) 1980 –Ed. Populares

AXÉ – ANTOLOGIA CONTEMPORÂNEA DA POESIA NEGRA BRASILEIRA , 1982 – Global Editora, Prêmio APCA(Assoc. Pta. Críticos de Arte, “melhor livro de poesias do ano”

PLANO DE VÔO (poesia) 1984 – Roswitha Kempf Editores

TRADUÇÕES de diversos tankas de Sueko Nishida , Bokussi Wakayama e Takuboku Ishikawa (todos com a parceria de Masuo Yamaki )

TRADUÇÕES de poemas diversos de Wole Soyinka (poeta nigeriano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, 1986) e Denis Brutus (poeta sul-africano)

A NOITE NÃO PEDE LICENÇA (poesia) 1987 – Roswitha kempf / Editores

TODO O FOGO DA LUTA (poesia) 1989 – Scortecci Editora

Tema de diversos estudos, resenhas e reportagens(no Brasil e no exterior)

ENTREDENTES (teatro) – inédito

CONTOS BRASILEIROS (teatro, dir. Marisa Morrone Carillo)

O QUE É AFRICANIDADE? (ciclo de conferências)

(Postado originalmente no sítio www.firmaproducoes.com.br -com alterações)
Escobar Franelas
Enviado por Escobar Franelas em 19/09/2007
Reeditado em 03/04/2013
Código do texto: T658943
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Escobar Franelas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 48 anos
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