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FRAGMENTOS DE MINHA HISTÓRIA

Apresentação

Meus pais deram-me um nome incomum, que a princípio achava estranho, mas fui descobrindo que meu nome possui muito da minha identidade. Adelson Anjos de Oliveira, Adelson vem do árabe e significa justo, Anjos remete a minha origem africana, pois segundo estudos antropológicos os sobrenomes religiosos no Brasil eram dados aos negros trazidos do continente africano.
Trabalho na função de telefonista em uma Secretaria no município de , Jequié neste setor desenvolvi ou aperfeiçoei habilidades diversas nas relações humanas, as quais são necessárias tanto para vida profissional como social. Exerço também a função de Agente Administrativo na Rede Municipal de Educação. Como funcionário da rede de educação, tenho oportunidade de participar do processo educativo, sendo que neste círculo educacional tive o privilégio de participar da construção do Projeto Político Pedagógico desta escola. Reconheço que trabalhar no setor de educação enriquece minha preparação na futura atuação como educador.
 Além destas atividades acima citadas encontrei tempo para cursar a graduação de Licenciatura em letras (UESB – Campus de Jequié), isto requer de mim esforços redobrados, pois, às vezes fica difícil conciliar tantas atividades, este semestre, por exemplo,  fiz a matricula de apenas 04 (quatro) disciplinas a fim de facilitar a conciliação das tarefas. Quero salientar que em meio à agitação diária, encontro algum tempo para escrever meus textos poéticos, pois, a poesia faz parte da minha vida; gosto de brincar com as palavras e expressar os sentimentos do meu coração, escrevo por necessidade e prazer indescritíveis. Antes, porém, costumo priorizar na minha agenda diária o tempo com Deus, no qual encontro forças para vencer as dificuldades cotidianas, somente Ele pode ser a fonte inesgotável da força que preciso para ser na vida mais que vencedor.
Sou o filho caçula dos homens, de uma família constituída de seis membros, 03 (três) homens e 03 (três) mulheres. Tenho como herança familiar a fé cristã, os princípios éticos e o espírito de luta e perseverança. Os quais foram importantíssimos para a minha vida pessoal, profissional e social.
Tive uma infância difícil, pois no inicio da minha adolescência foi golpeado pela morte de pai, o que gerou diversos transtornos na minha vida estudantil e social.
Quando nasci o mundo passava por diversas mudanças, este estava dividido entre o capitalismo e o socialismo, foi a era marcada pela guerra fria e os governos ditatoriais. Em 1974, meu ano, assumia o poder na esfera federal no Brasil o presidente Geisel. Viviam-se momentos de tensões, prisões, mortes e repressões em diversas áreas da vida social. Porém, já se vislumbrava uma luz de liberdade, havia no espírito brasileiro perspectivas que se concretizaram na década seguinte com a redemocratização do Brasil. Essa época foi caracterizada por manifestações populares (operários, estudantes), nas quais houve mortes, prisões e exílios de estudantes, operários e artistas.

VIDA ESTUDANTIL

Iniciei minha vida escolar aos sete anos na primeira série, no Grupo Escolar Duque de Caxias, Joaquim Romão – Jequié – Bahia. Naquela época o aluno estudava a primeira série em duas etapas, era denominada no senso comum de 1ª fraca, e 1ª forte. A primeira correspondia a atual alfabetização. A escola não oferecia nenhum atrativo, não possuía espaço de lazer, quadra de esportes, a estrutura física era sombria, salas que denotava uma sensação de aprisionamento, lembro-me do corredor que dava acesso às salas que tinha a luz dos comogóis (espécie de pequenas aberturas na parede). Neste cenário mórbido experimentei diversas ações de descriminações ético-raciais que marcaram durante anos minha vida psicológica.
      As lembranças são muitas, algumas boas, outras ruins e até dolorosas, sempre fui um aluno aplicado, mim destacando nas disciplinas e no comportamento, o que suscitava a admiração dos colegas, mas ao mesmo tempo invejas (a vida às vezes é um paradoxo). Aprendi cedo que para ser aceito ou visto, deveria me destacar em alguma área, e a aplicação ao estudo foi uma excelente saída para entrar no mundo da visibilidade, pois naquela época, não muito diferente de hoje (se bem que hoje temos vivido momentos de conquistas da cidadania), sofria literalmente na pele e alma a dor de ser negro no Brasil. Muitos foram os comentários que atravessavam minha alma como uma flecha inflamada, tais como: “só é negro, mas é inteligente”, “é preto por fora mais tem uma alma de ouro”, etc.
Alguns colegas insultavam-me e colocavam apelidos, o que até certo ponto eram comuns, se não fossem carregados de preconceitos étnico-raciais, percebi que teria uma sociabilidade conflituosa, houve momento que tive como única alternativa a agressão física para coibir abusos, o que em muitos casos funcionou (risos). Concluir a 4ª série obtendo excelentes resultados estava em um ritmo muito bom, havia uma sede de vencer, como outros negros do meu tempo, eu enfrentava a rejeição social, aquele terrível sentimento de se sentir a escória da sociedade, o verme social, no entanto via na educação uma alternativa legal para conseguir fugir da marginalidade e ascender socialmente. (Hoje vejo que só isso não é o suficiente)
Apesar do ensino tradicional, limitado por uma metodologia livresca, onde decorar para fazer as provas era uma rotina, aprendi (na essência na palavra), obtive conhecimentos que foram pré-requisitos não só para as séries posteriores. Mas para vida. Lembrei-me disso durante o período de estágio, quando alunos na 7ª e 8ª série não sabiam ler algarismo romano, coisa que dominava na 4ª série, posso ratificar que aprendi. Pois até hoje possuo o mesmo conhecimento. Quero aqui abri um parêntese para registrar minha crítica a algumas posturas desequilibradas no que se refere às tendências pedagógicas. Pergunto será que temos que rejeitar tudo do método chamado tradicional, como defende alguns? Acredito que não, claro que sou contra a educação bancária, mas não sou a favor de uma educação desprovida de conteúdos básicos e necessários para um aprendizado satisfatório.
Retomando ao o assunto, encerramento da minha vida escolar no primário, quero registrar um fato que foi marcante para mim. Neste período fui surpreendido com o falecimento de meu pai, este fato trágico marcou o inicio da minha adolescência e uma interrupção nos meus estudos.
Com a interrupção dos estudos fui impelido pela necessidade para o mercado de trabalho, ou melhor, do subemprego, inicialmente fui catador, vale salientar que nessa época não havia organização deste serviço em minha cidade, mas dividia espaço com os animais em um lixão, sendo inconscientemente exposto a diversos riscos à saúde. Durante anos esta atividade fez parte do meu cotidiano, neste cenário podem-se presenciar cenas tão horríveis que  não parecem ser possíveis a seres humanos; há pessoas (que não foi meu caso) que além de catar metais,papel, plástico,etc., também o fazem com alimentos, é inacreditável como o poeta descreve esta realidade quando diz:

“Vi ontem um bicho,

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando encontrava alguma coisa,

Não examinava, nem cheirava,

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato,

O bicho, meu Deus,

Era um homem”.

                                                    (O BICHO, Manoel Bandeira).

Além desta trabalhei em outras atividades informais, vendi jornais, doces, cosméticos, produtos domésticos, carreguei feira, e fui relojoeiro.
            Após quase oito anos sem estudar fui incentivado por um amigo de infância, a retornar aos meus estudos, aceitando o conselho cursei a 5ª série e 6ª séries no Ginásio Municipal Presidente Médici, minhas esperanças foram renovadas logo nas primeiras semanas, mim destacava em sala de aula pelo meu desempenho nas atividades, e resultados nas avaliações. Parecia incrível como apesar disso sentia profunda insatisfação, pois queria ser aceito pelo que sou e não pelo que faço, mas que podia fazer, esse era e ainda é a filosofia da sociedade  superficial e hipócrita, (desculpe a agressividade, mas é o que sinto).
            Deste estabelecimento não tenho grandes lembranças, a não ser as amizades que perduram até hoje com ex-colegas e professores. Em seguida sair desta instituição e fui cursar a 7ª e 8ª série no Colégio Estadual Professor Magalhães Neto, observe que minha vida estudantil foi tão fragmentada como minha vida.  Quando concluir o ensino fundamental, eu tive uma crise existencial, um vazio inexplicável envolvia minha alma, meu sucesso na vida escolar não era suficiente precisava de uma experiência mais profunda, e que desse sentido a minha vida, estava beijando a depressão. Mais uma vez sentir que deveria adiar o sonho da formação acadêmica, interrompir os estudos.
 Porém algo inesperado aconteceu, visitando sem compromisso uma Igreja Evangélica, a qual freqüentei durante um mês, em um dos cultos fui tocado de forma profunda pelo amor divino, não resistir, era o inicio da minha jornada cristã, que já dura 14 (quatorze) anos e com certeza durará por toda a eternidade.  Agora já mim sentia um novo homem, após 02 (dois) anos da minha conversão iniciei meus estudos teológicos, estudei um ano o curso de missões na Escola de Treinamento Missionário no ano de 1995. No ano seguinte matriculei-me no Instituto Teológico Quadrangular – Jequié, no qual estudei durante 03 anos, concluindo o curso Médio em Teologia.
Estes foram momentos importantes da minha educação, não secular, mas espiritual. Vi então que era hora de voltar aos estudos para concluir o Ensino Médio e posteriormente ingressar na Universidade. Fiz minha matricula no Colégio Estadual Luiz Viana Filho, trabalhando pela manhã e estudando no turno vespertino, concluir a 1ª série do ensino Médio, que vitória! Podia sentir o sabor do sucesso e realização pessoal. Mas não pude continuar no turno vespertino, porque a Instituição ia oferecer naquele ano a 2ª série somente no período da noite, percebi que o ensino noturno enfrentava dificuldades não existentes, no período diurno.  Devido a má qualidade do ensino fiquei desestimulado, nessa época já trabalhava a tarde de 13h00minh – 19h00minh, tinha que ir para escola sem jantar, cansado, e ainda ficar esperando professores durante os horários vagos. Neste período outro vez fui golpeado pela angústia, perdi minha mãe, desta vez tinha uma estrutura emocional mais consistente, apesar da dor aprendi que o sofrimento da vida tinha trazido maturidade diante das adversidades, superei esta fase dolorosa.
Quando mim recompus as forças, decidir mudar de instituição fui para O Instituto de Educação Régis Pacheco, onde concluir o Ensino Médio no ano de 2002, cursando o Projeto Tempo de Aprender (Aceleração).
Em 2003 prestei meu primeiro vestibular, o que mim rendeu várias críticas, você não vai conseguir, não estudou regularmente o Ensino Médio, não fez Cursinho pré-vestibular, etc. Mas persistir nesta primeira tentativa alcancei a colocação 53ª, adiei um pouco meus objetivos.
No ano de 2005 fui selecionado através do PROUNI, para cursar Licenciatura em História pela FTC/Ead, foram muitas as expectativas, no primeiro dia de aula fiz um poema, entrei bem, começava assim minha vida acadêmica, a qual estou vivenciando e tendo uma experiência muito significativa, apesar de algumas decepções sobre a educação acadêmica. Neste mesmo ano (2005) estudando em casa, fui também aprovado no Vestibular – UESB, para a Licenciatura em Letras, porém só comecei a cursar em 2006, foram momentos de concretização na vida estudantil, apesar das mazelas da vida, vejo como brasileiro inserido numa sociedade injusta, que sou vitorioso, pois, sobrevivi para viver.

Adelson Anjos
Enviado por Adelson Anjos em 03/10/2007
Reeditado em 30/03/2010
Código do texto: T678928
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Sobre o autor
Adelson Anjos
Jequié - Bahia - Brasil
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