Sobre o tempo-Carta a Luiza

Belo Horizonte, 26 de maio de 2008

Luiza,

Há semanas nada lhe escrevo para contar do Brasil!Acompanho notícias australianas no seu blog sempre que possível,estou a par de suas viagens físicas e psicológicas.Hoje,passado o curtíssimo feriado de 96 horas,decidi te contar um aprendizado que muito tem de você e é maior do que qualquer minúcia apreendida nesse último ano escolar:o tempo.

Lulu,lembra das eternas apresentações de balé?Eram longuíssimas principalmente para nós,cujas fotos sempre registravam um momento de ascensão aérea.Cada passo,um grande vôo.

No ano de dois mil e oito,há o centenário de Machado de Assis e o ducentésimo aniversário da chegada da família real.Olhe só:mesmo depois de todo esse tempo,com a geração humana completamente renovada em relação a essas épocas,é inegável a influência dos ocorridos no nosso cotidiano.Impossível falar de literatura brasileira sem mencionar Memórias Póstumas de Brás Cubas,não se desvendara até hoje o mistério de Capitu e, se há o pão para não nos obrigar a comer fubá todos os dias,devemos até hoje à corte de 1808.

Todavia,ao mesmo tempo em que há a sensação de duração prolongada em certos excertos de nossas vidas,existem trechos absurdamente acelerados.Vovó morreu há quatro meses com uma doença de igual duração mas me parece ontem a confecção de balas delícia em conjunto que sujava toda a cozinha.Você também deve estar passando por momentos assim,uma vez que cada experiência nova encurta levemente os segundos.

O que acontece é uma dança de ampulhetas no coração onde cada uma faz o que quiser: a mesma semana que voa quando tem em seu fim um bloco de provas desafiadoras,se arrasta eternamente sempre que penso na amiga que,há quatro meses do outro lado do mundo,ainda demorará quarenta dias para me abraçar daquele jeito tão intenso que dispensa palavras para arrancar lágrimas...

Percebe então,querida,a insignificância desses ponteiros que regem tantas vidas e idéias?Até mesmo os Sórdidos Detalhes,tão sofridos na época em que ocorreram,se reduziram a pó simplesmente pelo fato de serem ignorados por nossas mentes.

Não há cronologia que se mantenha.Pense só:a data presente no cabeçalho de nada servirá quando você ler minha cartinha.Assim será com os anos.Aproveite com força tudo o que puder aí e trate de manter o ritmo quando voltar para o Brasil.Vamos tentar também não nos preocuparmos com aquilo de seguir o ritmo da manada,seja no vestibular,seja em escolhas sensíveis.Porque, pouco a pouco, nos transformamos em personagens de páginas amarelas e amassadas de um livro de história que transeuntes sequer terão certeza de ser ficção ou realidade.Nessa hora,o que valerá é se trouxemos sementes de trigo o suficiente para plantações no Brasil e não em quantos dias fizemos isso.

E se essa projeção não lhe fizer efeito,aja assim pelo sorriso ou um brilho de olhar de um espelho satisfeito e tranqüilo.

Porque o tempo,meu bem,é um sentimento.

Com carinho,

Renata.